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Radares da Ponte Rio-Niterói são investigados depois de denúncias de multas irregulares

Por Redação
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Justiça determina perícia nos equipamentos da ponte diante de registros de multa de carros e ônibus que trafegavam a menos de 80 Km/h
ponte
A Ponte Rio-Niterói. Justiça manda periciar radares após denúncia de multas irregulares. Foto: Reprodução controlec

A decisão foi da juíza Helena Elias Pinto, da 1ª Vara Federal de Niterói: os radares da Ponte Rio-Niterói vão ser submetidos a perícia, diante das inúmeras denúncias de motoristas multados apesar de trafegarem dentro do limite de 80 km/h. O A Seguir: Niterói reportou no início do ano o aumento das queixas dos usuários da Ponte e apresentou casos  de motoristas que documentaram a velocidade durante a travessia, com o uso de piloto automático e registro da travessia em vídeo, sempre abaixo do limite, e foram multados por excesso de velocidade. Na sentença, a juíza cita empresas de ônibus que operam com velocidade controlada por tacógrafo.

A juíza Helena Elias Pinto nomeou um técnico em eletrônica para examinar os equipamentos. A ação foi movida pelo Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac), que contesta 2,1 mil multas aplicadas em 250 motoristas de ônibus em 2018. O processo que, tem a União como ré, por se tratar de uma rodovia federal, contrapõe as penalidades impostas pelos radares da ponte aos equipamentos de medição de velocidade dos ônibus, os cronotacógrafos. Estes últimos não registraram velocidade superior a 80 km/h, limite da via, no momento em que os veículos foram multados.

O presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira, explicou que os rodoviários apresentaram as multas e as velocidades registradas pelo sistema obrigatório de controle de velocidade, os cronotacógrafos, existentes em veículos de passageiros e de carga,  no momento que os radares apontaram velocidade acima de 80 km/h e emitiram as multas. Segundo ele, os equipamentos demonstram que os ônibus  trafegavam dentro do limite de velocidade estabelecido na Ponte. O aparelho é como uma “caixa-preta”, que registra os dados de velocidade e fica dentro de um cofre.

A revolta das multas

As queixas de motoristas em função das multas recebidas na travessia da Ponte Rio-Niterói aumentaram muito desde o final do ano passado, como o A Seguir: Niterói constatou através de relatos de motoristas nas redes sociais, na ouvidoria da Ponte e em sites especializados, como o Reclame Aqui.

– Nunca passei de 80km/h na Ponte Rio Niterói, e sei até onde tem os radares e passo pelo os mesmos na velocidade média de 75km/h para não ter erros. Chegou uma notificação em minha residência e fui atuado por velocidade superior a 80km/h. Não irei pagar pelos erros e falta de manutenção de uma via que é “pedagiada” – afirmou um usuário, que preferiu não se identificar.

A reportagem do A Seguir: Niterói teve acesso a documentos de um motorista que recebeu mais de uma dúzia de multas na ponte. Ele diz que usa o controle de velocidade do carro na travessia da ponte e que, mesmo assim, continua sendo multado.

Outra usuária, ainda mais assertiva, pede o acesso à imagem do seu carro e a velocidade real no instante em que passou pelo radar. O registro da queixa no site “Reclame Aqui” foi no dia 27 de janeiro. No comentário, a motorista fez inúmeras críticas sobre a aplicação de multas sem fundamento e pede as medidas cabíveis:

– Hoje, ao puxar as infrações do meu veículo, vi que consta uma multa na BR 101 – KM 325 que fica na ponte Rio-Niterói e tem a Ecoponte como concessionária da via. Sempre transito na Ponte conforme a velocidade estabelecida, que é de 80km/h, e assim entendo que essa multa é irregular.

A Ouvidora da Ponte recebeu várias queixas. A resposta, neste último caso, foi protocolar: “A manifestação foi registrada em nossa ouvidoria sob o protocolo 20895-04 e foi devidamente respondido via e-mail cadastrado neste site. Dúvidas adicionais poderão ser encaminhadas para a Ouvidoria da Ecoponte pelos canais oficiais de atendimento, pelo website www.ecoponte.com.br ou pelo e-mail ouvidoria@ecoponte.com.br.”
Filipe, morador de São Gonçalo, é outro motorista que foi multado,  recentemente. Ele afirma que o radar pode estar apresentando instabilidade. A queixa também foi registrada no fim de janeiro:
“Recebi uma multa no km 327 mas tenho certeza que não ultrapassei os limites na ponte, acredito que este radar esteja com problemas.” Outro usuário afirma que o radar KM 329 está multando, mesmo passando em velocidade inferior a 80km/h. Ele assegura que não passou de 75km/h.
– Venho aqui fazer uma reclamação do Radar KM 329, que está multando, mesmo passando em velocidade inferior a 80km/h, isso é inaceitável! Nesse dia estava indo com minha esposa ao aeroporto buscar um familiar, e estávamos com bastante tempo de folga, portanto, fomos em velocidade reduzida e sempre usando a faixa da direita para não atrapalhar a fluidez do trânsito. Se quer eu passei de 75km/h. Para minha surpresa, chegou essa multa: “Transitar Em Velocidade Superior a Máxima Permitida em Até 20%. Inaceitável uma situação dessa!!! A EcoPonte junto a PRF tem que se responsabilizar por esse erro grotesco! – questionou.
Falhas comprovadas

Os motoristas reclamam da dificuldade de questionar as multas, apesar dos recursos apresentados, diante da fotografia anexada à multa e da velocidade registrada pelo radar, que é aferido regularmente. A repetição do problema, no entanto, fez com que alguns motoristas procurarem recursos para documentar aa alegada falha dos radares. O A Seguir Niterói acompanhou o caso do funcionário de um estaleiro, Paulo Lixa, depois de receber mais de 60 notificações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) desde 2018. Preocupado com a alta frequência das ocorrências nos últimos meses, o motorista resolveu procurar uma especialista em trânsito para tratar do caso.

A solução encontrada para documentar as autuações indevidas por excesso de velocidade foi baixar um aplicativo que mede a velocidade do carro durante parte do trajeto. No caso do aplicativo, o tempo limite em que é permitido registrar a km/h é de 20 minutos, o que foi suficiente para Paulo, que conseguiu comprovar as irregularidades da aplicação das suas multas.

Motoristas se queixam de multas indevidas aplicadas pelo radares da Ponte Rio-Niterói

A primeira providência que pensou foi ligar o piloto automático do carro numa velocidade menor, de 75 km/h, para ficar abaixo do permitido pelos radares (80km/h).

Mas não adiantou muito: mesmo com todas as cautelas e ligando o GPS, ainda assim as multas continuavam chegando, especialmente em radares específicos como os dos km 327 e 329, na descida do Vão Central, quando o veículo geralmente ganha mais velocidade.

A solução encontrada para documentar as autuações indevidas por excesso de velocidade foi baixar um aplicativo que mede a velocidade do carro durante parte do trajeto. No caso do aplicativo, o tempo limite em que é permitido registrar a km/h é de 20 minutos, o que foi suficiente para Paulo, que conseguiu comprovar as irregularidades da aplicação das suas multas.

– Eu entrei no site Rio Multas para fazer a contestação da multas e a especialista sugeriu que eu encontrasse uma forma de registrar a velocidade do carro para provar a irregularidade. Foi quando baixei o aplicativo “Speedometer 55 pró”. Como ele só grava os últimos 20 minutos, eu ligava antes de atravessar a ponte. As multas chegavam e eu fazia meu controle interno de data e hora da passagem do veículo e a sua velocidade de acordo com o que estava consolidado no aplicativo. Tinha multa que informava que eu passava a quase 105 km/h, quando na verdade passava a 72 km/h! A diferença é muito grande – contou.

Apesar da comprovação das irregularidades das multas, Paulo ainda não conseguiu ser ressarcido. A advertência foi somente convertida por escrito.

 

 

Recurso é difícil

A especialista em Gestão e Direito do Trânsito, Fernanda Arenásio,  explica que o trâmite não é simples e rápido como se imagina, mas existe a possibilidade de recurso:

– Nós conseguimos cancelar muitas multas da PRF, seja por defesa, seja por prescrição. Desde quando esses novos radares foram instalados, lá em 2016, ainda não tivemos nenhum recurso indeferido em última instância. Os processos demoram muito! Uma média de um ano e meio nas duas primeiras instâncias e mais de três anos na última instância, e  assim, nesse caso, conseguimos prescrever.

E completa:

– Na notificação não tem como a pessoa comprovar que a multa é indevida. Como que essa pessoa aqui vai comprovar que estava a 75 km/h e não a 90 km/h? A não ser que ela comprove a velocidade por algum outro equipamento do veículo, GPS ou algo assim. Mas mesmo assim, não vai dar a precisão exata de todo o percurso.

Segundo ela, o equipamento do radar da ponte ainda tem uma margem de erro de 7 km/h, o que faz com que a multa seja aplicada a quem passa a partir de 88 km/h.

A especialista explica ainda que  na ponte o radar faz a captura com uma distância muito grande e multando os condutores que só diminuem a velocidade no momento em que estão passando pelo radar.

– Na maioria dos casos é isso o que acontece. Isso funciona nos outros radares, mas não no da ponte, pois tem uma tecnologia diferente que consegue pegar o veículo em alta velocidade quando já está bem distante do radar. Os casos em que observei que de fato têm irregularidade no radar são os veículos que possuem roda na parte traseira do carro. Nesses casos, o radar erra o cálculo da medição da velocidade e, assim, a pessoa acaba sendo autuada mesmo estando em uma velocidade abaixo da permitida – explica.

Modelo novo de radar

Fernanda afirma que o radar da ponte é um modelo novo, magnético e mede a velocidade direto da câmera por cima, então a roda faz com que o radar capture a placa em um espaço de tempo maior, provocando um erro de cálculo. Ela diz que os casos da roda traseira tendem a ser bem contínuos e geralmente possuem um número muito grande de infrações.

– Mas isso é algo que sabemos por alto e analisando o manual do fabricante do equipamento. Nada comprovando pela PRF, explicou ela.

O que fazer

No caso de infrações de trânsito, a especialista recomenda que, caso a pessoa encontre alguma irregularidade, ela deve recorrer de forma administrativa das infrações. O processo judicial é recomendado apenas em caso de indeferimento dos recursos administrativos.

O recurso pode ser feito em até 3 instâncias administrativas: Defesa Prévia, 1ª Instância e 2ª Instância. As pessoas podem recorrer diretamente à PRF ou por intermédio de uma empresa semelhante a Rio Multas. Em todas as instâncias a Multa vai a julgamento, podendo ser deferida ou indeferida, e durante o período em que é aguardado o julgamento, o valor da multa e a pontuação fica em efeito suspensivo.

Radares aferidos

Procurada pelo A Seguir: Niterói, a concessionária Ecoponte informou  que os radares instalados na Ponte Rio-Niterói são aferidos no máximo a cada 12 meses pelo IPEM/INMETRO, de acordo com a validade de cada equipamento previsto no certificado de aferição. De acordo com a empresa, a Ecoponte tem por obrigação contratual instalar e manter o equipamento em funcionamento, mas a responsabilidade de advertir ou multar veículos irregulares é de competência exclusiva da Polícia Rodoviária Federal. A concessionária esclareceu, ainda, que registrou, desde a implantação dos radares, uma redução considerável no número total de acidentes, o que reafirma a importância do sistema de controle de velocidade.

A Polícia Rodoviária não se manifestou.

 

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