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‘Paris 2024 é o meu objetivo maior’, diz skatista de Niterói, bicampeã geral de liga portuguesa

Por Livia Figueiredo
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O A Seguir conversou com a skatista na véspera da sua viagem para Porto Alegre, onde ela participa de mais uma etapa do STU, na maior pista de street da América Latina
Virginia Fontes Aguas
Virginia Fortes Águas, de 16 anos, no Skatepark de São Francisco. Foto: Amanda Ares

Há de se concordar que a safra do skate da nova geração está numa maré arrebatadora. No meio de tantos nomes que acumulam conquistas no cenário internacional, como Rayssa Leal, Pâmela Rosa, Letícia Bufoni, Isabelly Avila, uma menina tem dado trabalho nas competições mundo afora, com pouco tempo de estrada. Representando Niterói com vigor, Virginia Fortes Águas integra a Seleção Brasileira de Street, sua modalidade. No final de abril, ela levou medalha de ouro na sua estreia do Jogos Sul-Americanos da Juventude – maior competição das Américas entre os jovens. Uma espécie de pré-aquecimento para as Olimpíadas. Nos jogos, participaram 2.500 atletas de 15 países.

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O A Seguir conversou com a skatista na véspera da sua viagem para Porto Alegre (RS), onde ela participa de mais uma etapa do STU (Skate Total Urbe), na maior pista de street da América Latina, construída às margens do Rio Guaíba.

Com apenas 16 anos, ela também é bicampeã geral da Liga pro Skate, competição realizada em solo português. Também venceu, em 2021, o tradicional evento de Marisquinho, em Vico, e o Urban World Series, em Barcelona e Madri, todos na Espanha. O que mais falta, você deve estar se perguntando? A resposta está na ponta da língua: “Paris 2024. É o meu objetivo maior. Representar minha cidade, Niterói, e meu Brasil”, diz Virginia, sem hesitar.

Após ser campeã europeia, a skatista agora carrega o peso da maior conquista das Américas entre os jovens, após vencer os Jogos Sul-Americanos da Juventude, na Argentina. Avançando em primeiro nas eliminatórias e na semifinal, Virginia dominou a disputa e se consagrou campeã, após receber a nota 16.73 na fase final.

Funciona assim: no Street, somam-se as quatro melhores notas entre as sete disponíveis, entre duas voltas e cinco manobras, a que todos os atletas têm direito. Virginia executou manobras de segurança, para depois colocar tudo que aprendeu na pista. Após o nervosismo da estreia, soube driblar a ansiedade para montar uma boa estratégia e colocar a manobra inédita na pista.

Virginia em seu habitat natural: a pista Marina, em São Francisco. Foto: Amanda Ares

– As duas primeiras manobras são muito importantes, porque vale a somatória das quatro melhores pontuações, então eu decidi fazer duas manobras de segurança, o feable e o rocket front, no corrimão do meio. Já com essas notas garantidas, para somar ainda mais a pontuação, eu quis arriscar mais e fiz o fifty back e acertei, mas eu senti que ainda podia mais e fui para o flip rock, que estava na minha cabeça há bastante tempo, mas ainda não tinha feito na competição e também acertei. Somei a maior pontuação da minha vida, então foi muita emoção – declarou Virginia, que dedicou a conquista à sua mãe, Rachel Cavalcante.

Virginia começou a andar de skate com 4 anos. Foto: Amanda Ares

Virginia começou a andar de skate com apenas quatro anos. Seu pai tinha um long board, o que a estimulou a abraçar o esporte, despertando o interesse logo cedo, junto do surfe, outra paixão.

– Eu sempre gostei muito de skate. Comecei a fazer aula ainda pequena numa escolinha perto da minha casa em Itaipu. E nunca mais parei de fazer aula. Comecei com o park, minha modalidade preferida, mas não tinha muita pista no Rio de Janeiro naquela época, então eu comecei a andar mais no street, a participar de competições e fui evoluindo mais. Meu primeiro campeonato brasileiro foi em São Bernardo do Campo, quando fiquei em segundo lugar no street e em primeiro no park. Foi quando eu percebi que era isso que eu queria fazer da minha vida – conta.

Virginia está com a agenda cheia até o fim do ano. Pergunto a ela se sobra tempo para um respiro, mas a agenda dos últimos meses dizem por si: De Portugal, ela foi para São Paulo, depois para Argentina. De volta ao Rio de Janeiro, onde ficou nem uma semana, ela vai para Brasília e Porto Alegre.

Difícil é arrumar tempo para treinar no corre da profissão, mas ela garante que consegue espaço para praticar:

– Eu tento andar de skate o máximo que consigo e ainda estudo online. Tem sido bem corrido, mas tem dado certo. Gosto muito de andar de skate de tarde, lá para às 16h, mas geralmente nesse horário as pistas estão muito cheias.

Treinos podem ser em até dois turnos. Foto: Amanda Ares

Em Niterói, Virginia costuma andar na Marina – skatepark de São Francisco -, na pista nova do Largo da Batalha, no Horto e no Wave Rock, em Itaipu. Os treinos giram em torno de quatro a cinco horas por dia. Às vezes, as práticas ficam divididas em dois turnos, começando de manhã e finalizando à tarde.

Atualmente no segundo ano do Ensino Médio, Virginia concilia a rotina do esporte com os estudos de forma remota. Para isso, ela conta com o apoio dos professores da sua escola, o Cero (Centro Educacional Região Oceânica), que respeitaram sua extensa carga horária fora da escola. As aulas podem ser assistidas depois, pois ficam disponibilizadas em uma plataforma e um calendário é montado para a entrega de trabalhos e testes. A falta de horário fixo a proporciona mais liberdade para a entrega de resultados tanto na escola, quanto nas competições. Quando ganha uma medalha, Virginia costuma ir à escola para celebrar a conquista junto aos colegas, professores e demais funcionários. A escola, sobretudo, sempre incentivou a prática do esporte. Lá, ela participava, quando mais nova, dos jogos escolares, com certa regularidade.

– Eu comecei a perceber que eu estava fazendo o que eu quero, que é representar meu país e minha cidade, quando foi realizado o Street League, primeiro campeonato mundial, no Rio de Janeiro. Eu tinha 13 anos e consegui ir para a final no meu primeiro mundial. Não imaginava que eu ia conseguir. A gente vai conquistando e eu quero continuar fazendo isso – relata.

Virginia em uma de suas andanças. Foto: Amanda Ares

Com os olhos mirando em Paris e otimista para um bom desempenho, Virginia diz que contou com a ajuda de muitas skatistas mulheres – que vieram antes dela – que não desistiram do esporte em uma época carregada de estereótipos.

– Por causa delas eu não sofri. Não só no skate, mas em outros esportes, as mulheres ainda são diminuídas pelos homens. Mas eu sempre fui muito bem acolhida. Muito por causa delas – pontua.

Em paralelo a isso, tinha também outro preconceito: a inferioridade do esporte em comparação aos demais. Esse desnivelamento foi rompido com a inclusão do skate nos jogos olímpicos de Tóquio em 2021:

– Foi como uma virada de chave. No início todo mundo estranhou. Mas depois das Olimpíadas, quando o Brasil ganhou três medalhas no esporte, o pessoal abraçou muito. Isso foi muito importante para dar visibilidade. Conheço pessoas que começaram a andar de skate por conta das Olimpíadas – explica.

Próxima parada, STU

De volta ao Brasil, Virginia se concentra agora na disputa da etapa de Porto Alegre do STU Nacional, a partir do dia 27 de maio. Os Jogos Sul-Americanos serviram também como preparação para as duas etapas do Mundial em 2022, que já contarão pontos para a corrida olímpica. São eles: Street Skateboarding Rome, na Itália, de 26 de junho a 3 de julho, e o Rio World Skate Street World Championship 2002 by STU, de 9 a 16 de outubro.

– Eu estou desde pequena viajando sempre para vários lugares e isso contribuiu muito para meu crescimento pessoal. A gente ganha mais maturidade. É a parte que eu mais gosto: viajar para outros países pela minha profissão e conhecer outras culturas, aprender sobre os países, experimentar, conhecer outras pessoas. Meu pai, minha mãe, minhas avós e minhas tias sempre me apoiaram muito desde o início. Não precisei convencê-los de nada. Sem eles, certamente, eu não estaria onde estou – conclui.

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