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O dia em que saí de bicicleta por Niterói

Por Amanda Ares
| aseguirniteroi@gmail.com
Relato das aventuras de uma sedentária em recuperação
Design sem nome (34)
Eu e a bike, momentos antes do percurso. Fotos: Amanda Ares

Eu me considero uma pessoa sedentária. Apesar de resolver muito do que eu preciso a pé porque, em Niterói, tudo fica logo ali, quase não faço exercício de verdade. Por isso, coloquei como meta para 2022 começar a me movimentar mais, sem ser batendo perna por aí.
Nesse fim de semana em que o sol finalmente voltou a dar as caras, estava perfeito para fazer algo sobre o qual escrevo muito, mas faço bem pouco, que é andar de bicicleta.

Problema número 1: não tenho bicicleta. Em segundo lugar, moro no 4o andar de um prédio sem elevador e a ideia de carregar um trambolho de metal por vários lances de escada não me animava. Estava, porém, decidida a pedalar. Assim, descobri um cicle que aluga uma bike por algumas horas ou por um dia e até, como eu queria, um fim de semana inteiro. Segundo o pessoal do o Cicle Icaraí, o serviço está fazendo um grande sucesso, aliás.

Correndo o risco de distender um músculo por esforço repentino, aluguei a magrela de sexta a domingo, podendo devolver na segunda-feira ao meio dia. Depois de uma sexta e um sábado muito agradáveis na orla de Icaraí e no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, meu namorado teve a brilhante ideia de irmos pedalando até a praia de Camboinhas. Ele próprio já havia feito esse percurso algumas vezes e me seduziu com a ideia. Então, se eu caísse e me ralasse, ia pesar era na consciência dele.

Culpa terceirizada, lá fomos nós. A ideia era sair às 6h para pegar a pista do BRT ainda interditada. Muitos ciclistas, especialmente os de velocidade, gostam de pegar esse caminho porque não tem obstáculos e é mais seguro. Acordamos às 6:30, 7h, e saímos perto das 9h. Atrasados com nosso próprio cronograma, fomos com mais gás para tentar não sofrer muito com o sol – fazia perto de 30 graus já de manhã cedo e o Clima Tempo previu máxima de 31 graus.

Fomos pela ciclovia na maior parte do caminho. Algumas pessoas entendem que a pista de bicicleta é também para andar de correntinha e bater papo, então, em Icaraí, seguimos pelo calçadão até o final. Na subida da Fróes, sim, pegamos a faixa para bicicletas. A ciclovia é boa, bem demarcada, dividida em duas, para subir e descer pela Fróes. Primeiro problema da ciclista com síndrome de impostora que não tem o hábito de pedalar: manter o equilíbrio quando vê outra bicicleta vindo no sentido contrário.

Deixei Bruno, o namorado, seguir na minha frente (ou foi ele que optou por liderar nosso comboio de duas pessoas?), por motivo de segurança de todos. Mesmo assim, quando via outro ciclista vindo, por algum motivo eu perdia o controle e meu guidão balançava.

Sei que passei a maior parte do tempo pedalando no meio, entre as duas pistas de sentidos opostos. Se você, que está lendo, passou por mim e sentiu raiva da ciclista egoísta na subida da Fróes neste domingo, por volta das 9h, peço desculpas. Eu sou ruim de roda, mesmo, e também inexperiente. E se você é o ciclista profissional que me surpreendeu na ciclovia de São Francisco, me embarreirando com sua bicicleta fininha de velocidade e chamou minha atenção, com toda a razão, espero que o texto te ajude a entender o meu lado. Aproveito a mea culpa para fazer um pedido aos ciclistas nível avançado, especialmente os profissionais: por favor, tenham um pouco de paciência e empatia com os colegas ruins de roda. Da minha parte, só posso prometer melhorar.

Charitas foi um percurso tranquilo, apesar de termos feito praticamente todo na calçada, já que não vimos ciclofaixa na pista. O lado bom é que o calçamento é amplo e sem relevo, então tudo correu sem sustos. O túnel Charitas x Cafubá, conhecido como o túnel interminável, foi muito tranquilo de atravessar na ida. A volta, foram outros quinhentos. Continuando no sentido praia, nosso objetivo naquele domingo de sol escaldante, ao sair do túnel, foi pegar as ciclovias do Cafubá. O único problema com elas era que, em alguns pontos, as calçadas estavam danificadas a ponto de formarem obstáculos perigosos para os pneus – eu só pensava no pagamento caução que eu havia deixado no cicle, para o caso de danificar a bike.

A essa altura, o sol já estava nos castigando. Foi quando lembrei que eu havia esquecido de passar protetor antes de sair de casa (risos de desespero). Seguimos muito bem até chegarmos na altura do shopping Multicenter, mais especificamente no trevo. Ali, acaba a ciclovia e tivemos que atravessar na pista, mesmo. Para o nosso azar, o sinal abriu, e ficamos presos na curva do trevo. Contando com a boa vontade dos motoristas para não sermos atropelados, conseguimos atravessar. Já não estava aguentando mais, mas dali até Camboinhas faltava pouco.

Muitos sinais e pouca faixa apropriada para o ciclista da Região Oceânica depois, chegamos na entrada da área residencial chic do bairro em que não entra ônibus, mesmo tendo centenas de moradores e trabalhadores.

Havia três guardas municipais na entrada, regulando o trânsito, porém nenhum dos três pareceu se interessar muitos em nos ajudar a atravessar. Passamos na cara e na coragem, mais uma vez, contando com a educação do motorista de Niterói. Nesse sentido, ficamos muito satisfeitos pois, no geral, os motoristas nos deram preferência para atravessar as ruas.

Finalmente, a praia! “Onde vamos ficar?”, “Pode ser naquele de sempre?”, “Mas aquele não está sempre em obra? Tem um barulho horrível de maquita”, “Onde deixamos a bike?”. Momento de tensão para dois librianos tomando decisões. Por fim, decidimos deixar as magrelas na areia. A minha era um pouco pesada, então fui arrastando a bichinha até o famigerado ponto escolhido. Alugamos barraca, passei finalmente o protetor solar e passamos as próximas três horas curtindo uma das melhores coisas que a cidade tem a oferecer.

Tudo muito bom, tudo muito bem, alguns caldos depois, chegou o momento que eu temia: voltar pedalando tudo de volta para casa. Nossa, como meu doeu essa consciência. Não me levem a mal, adorei o passeio, o percurso foi, em sua maioria, tranquilo. Porém, era a minha primeira vez.

Depois de algum drama, pagamos a moça da barraca e arrastei a praiana até o calçadão com uma grande ajuda de Bruno, coitado. Mais protetor. Coloca a máscara. Coloca uma camisa, para o sol não queimar tanto. E mesmo com tantos motivos para deixar tudo ali, como estava, fomos de volta pra casa.

Àquela altura, o trânsito já estava mais intenso. Eu estava com medo dos ônibus me embarreirarem, eu me assustar e acabar como matéria de bairro no A Seguir: Niterói por causar um acidente de trânsito. Nada mal para um começo de ano, hein? Para a sorte do leitor – e a minha -, nenhum ônibus cruzou meu caminho.

Chegando de volta no túnel, a coisa começou a ficar sofrível. Na ida, é uma descida, mas no sentido Charitas, são vários metros em uma leve, porém longa, subida. Minha pernas, desacostumadas com exercício aeróbico, estavam querendo fazer uma parada de emergência. “Muda a marcha!”, Bruno gritou lá da frente. Eu tentava, mas para mudar a marcha é preciso estar em movimento e eu não conseguia mais fazer o pedal se mover. Parecia que minha bateria tinha acabado. Desisti, desci da bicicleta e decidi fazer o resto daquela subida horrível a pé, dane-se. Duas ciclistas de velocidade passaram por mim e viram aquela cena triste. Também sinto muito ter atrapalhado o treino de vocês, meninas. Percebi que era inviável e retomei a pedalada.

Chegamos no túnel. Interminável. Fui deslizando sem saber mais onde eu estava e como tinha ido parar ali. Brincadeiras à parte, eu estava me sentindo desidratada e tive medo de apagar no meio do percurso. Ao final, vi uma luz e pensei que tinha chegado a minha hora. Que nada. O sol da tarde socou minha vista e me deu a paisagem linda de Charitas. Me senti o Rock Balboa subindo as escadas na Filadélfia, naquele filme.

Eu já havia passado perrengue demais para ser orgulhosa, e pedi “VAMOS PARAR PARA BEBER ÁGUA”. “Tem certeza? Não vai esfriar?”. “Assim espero, maior calor”. Apesar de orgulhoso, eu sabia que Bruno também estava com sede. E também, ainda era cedo para voltar.

Quiosque charmoso em Charitas.

Seguidos alguns metros pela Avenida Sílvio Picanço até darmos de cara com um quiosque muito charmoso, com mesas e bancos de madeira, um bar com drinks, um jazz tocando e uma placa onde estava escrito: “Água de coco gelada”.

Paramos ali mesmo, deixando as bicicletas na sombra de uma das amendoeiras e aproveitamos o resto da tarde de pé na areia, com caipirinha, água de coco e cervejinha. Paz terrível.

Registro para mostrar que morri mas passo bem. À esquerda, Bruno.

 

Serviço

O Cicle Icaraí possui algumas filiais. Eu aluguei a bike na que fica na Avenida Roberto Silveira, n 4. O aluguel da bicicleta por uma hora custa R$10 e, pelo dia inteiro, R$40. É possível negociar caso queira ficar com ela por mais dias. As bicicletas possuem marcha, cesta e vêm com capacete e corrente de segurança, já incluso no pacote. Além de aluguel, o cicle também vende peças, acessórios e bicicletas de vários modelos.

Malha cicloviária de Niterói

Total: 50 Km

Meta da prefeitura até 2024: 120 Km, sendo metade desse total na Região Oceânica

Em implantação: cerca de 3 Km, na Avenida Almirante Tamandaré, em Piratininga

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