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Até quando? Morte de Letícia em Niterói revela o tamanho da violência doméstica contra a mulher

Por Livia Figueiredo
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O doutor em Psicologia pela UFRJ, Julio D’Amato, explica os fatores que têm contribuído para o aumento de casos de feminicídio e o perfil psicológico do agressor
Letícia e Flávio
Letícia com o agressor e ex-marido Flávio: testemunhas viram quando ele a agrediu e a golpeou com uma faca. Foto: Reprodução/Redes sociais

“Até quando vai ficar morrendo gente assim?” é o questionamento mais comum quando o assunto é feminicídio. Por definição, feminicídio é o homicídio cometido contra mulheres que é motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero. Mortes trágicas, em que a vítima, muitas das vezes, é objetificada e colocada como submissa ao homem. A violência doméstica, histórica, ganha amplitude devido aos meios de comunicação. A tecnologia aliada ao maior espaço para denúncias vêm sedimentando um possível caminho de resistência. Embora com mais recursos e maior visibilidade sobre o tema, pouco ainda é feito, de forma prática, que traduza em justiça.

Leia mais: Mulher vítima de feminicídio em Niterói tinha solicitado medida protetiva

Diretora geral do departamento de proteção e atendimento à mulher, a delegada Gabriela Von Beauvais, divulgou que, no primeiro semestre de 2022, das 57 vítimas de feminicídio no Rio, apenas 18% das mulheres tinham procurado delegacias para registrar algum tipo de violência. Isso revela o medo, a insegurança, a impotência e o risco que envolve que pode chegar com uma denúncia.

Os casos de feminicídios, segundo análise do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostram que 52 mulheres foram mortas neste ano, de janeiro a junho de 2022, em Niterói. A alta foi de 200% nos registros de feminicídio e 25% no crime de tentativa na análise do mesmo período. Só nessa semana foram três casos apenas no Rio. Na quarta-feira (27), três mulheres foram enterradas na Região Metropolitana do Rio e foram vítimas de feminicídio, modalidade de crime em que a vítima sofre pelo simples fato de ser mulher.

No final da manhã de terça, familiares e amigos se despediram de Yzabelli Cristina, de 18 anos, que havia saído de casa para comprar um lanche e foi encontrada morta com sinais de violência sexual em Maricá. O enterro foi em São Gonçalo e a polícia investiga a autoria do crime.

Na Zona Norte do Rio, no Cemitério do Catumbi, Sarah Pereira, de 24 anos, foi enterrada depois de ter sido morta a tiros pelo ex-namorado, Queven da Silva. Ele foi preso e confessou o crime. Sarah deixa dois filhos pequenos.

Em Niterói, Letícia Dias Santana, de 27 anos, foi morta a golpes de arma branca, na Região Oceânica da cidade, na última terça-feira (26), após terminar seu relacionamento com Flávio Fonseca, de 36 anos, seu ex-companheiro. O crime é mais um que compõe uma série de eventos trágicos que têm acometido as mulheres.

Em depoimento ao G1, a sobrinha da vítima, Khayane Fernandes, de 18 anos, relatou que as brigas entre o ex casal eram constantes. E durante as discussões, Flávio batia em Letícia. Há dois meses, ela tinha decidido se separar. Para fugir de vez do ex-companheiro violento, ela pediu uma medida protetiva e se mudou para Itaipu.

Kayane contou, ainda, que Flávio possuía a guarda dos filhos por ter denunciado a ex-mulher por agredir os filhos, e dizia que só retiraria a queixa se ela voltasse para ele. Flávio continua foragido. A delegacia ainda está em busca de imagens de câmeras de segurança para ajudar na investigação do crime.

O A Seguir: Niterói conversou com o doutor em Psicologia pela UFRJ, Júlio D’Amato, sobre as possíveis razões do aumento de casos de feminicídios, o perfil psicológico do agressor e o que pode ser feito na primeira suspeita que possa culminar numa situação de violência.

A SEGUIR: NITERÓI: Os casos de feminicídio têm aumentado de forma exponencial. Quais são alguns dos fatores que podem ajudar a explicar esse aumento de casos? A pandemia colaborou para esse crescimento? 

JÚLIO D’AMATO: Eu fico sempre pensando sobre isso porque é um limite difícil. O feminicídio é uma morte violenta pela razão de ser mulher. Não é qualquer homicídio. A violência doméstica é algo histórico que acompanha essa sociedade patriarcal na qual a gente vive. Esse tipo de acontecimento sempre existiu, embora, fosse em muitos momentos, mais “escondido”. Eu fico pensando até que ponto houve de fato um aumento exponencial ou se nós temos hoje uma maior possibilidade de acesso à informação que não tínhamos até então. E claro, quando se abre essa janela, em que as pessoas denunciam mais, com toda a tecnologia de hoje, essa coisa do tempo real, ganha-se outra dimensão.

Embora, efetivamente a pandemia possa ter influenciado, já que foi um evento novo para todo mundo. Nós nunca podíamos supor que passaríamos por isso. Um mundo restrito à casa foi algo que funcionou como uma verdadeira rasteira. E no caso, nessa situação de casais passando mais tempo em casa, compartilhando o dia inteiro, sem dúvida alguma, em qualquer relação, traz um peso enorme.

Mas especificamente no caso de um casal essas divergências ficaram muito mais acirradas do que no cotidiano pré-pandemia. O tempo fora de casa permitia que qualquer estranhamento fosse minimizado e os enfrentamentos, evitados. As pessoas saíam, voltavam muitas das vezes só à noite. Portanto, podemos dizer que sim, houve um crescimento do feminicídio na pandemia.

O feminicídio tem relação com o controle excessivo do agressor, que considera a mulher propriedade dele. Quais são alguns dos traços de personalidade mais recorrentes de um agressor? 

A gente pode pensar em algumas coisas. O agressor surge numa sociedade que, mesmo que já tenha caminhado de certa maneira, o homem ainda ocupa uma posição de mando. É uma sociedade, sem dúvida, ainda falocêntrica. Esse homem criado em famílias nas quais esses valores muito defendidos e efetivados, possuem uma possibilidade muito grande de reproduzir esse tipo de relação que tem a ver com a ideia de uma posse. A mulher nesse lugar de objeto. E esse objeto jamais pode se insurgir, se colocar contra esse homem, contrariar um pensamento. E com isso, as mulheres se arriscam muito e esse risco atravessa várias situações, como de ordem financeira, que acirram os conflitos internos.

Mas antes de qualquer coisa, devo dizer que o que define a agressão tem a ver com a relação psíquica da pessoa. Ninguém agride o outro que não seja por qualquer coisa que tenha relação com seu próprio psíquico, no caso, os traços de personalidade.

– Após a suspeita de um abuso, seja ele da natureza que for, como a mulher deve agir? Qual o caminho mais indicado já que às vezes o boletim de ocorrência não é suficiente?

A orientação deve ser a mesma para aqueles que querem contribuir. Existem delegacias, inclusive, mais focadas em mulheres. É preciso que as mulheres comuniquem a família, aos amigos. Isso é muito importante porque acaba criando uma rede de acolhimento, de segurança. E principalmente, a agressão não pode acontecer pela segunda vez. Não podemos permitir. Quando houver algum incidente, não há possibilidade de você ficar esperando que o companheiro possa se redimir e mudar de comportamento.

Quando houver qualquer sinal de agressão, de qualquer nível, é um indicador de que deve ser dado um ponto final. E a gente sabe que isso não acontece. E não é porque a mulher seja frágil. É porque é muito difícil de você administrar a violência na própria casa, local onde seria um espaço de proteção. Além do mais, ainda tem a relação afetiva e romper com isso de uma hora para a outra é muito complicado. Além da dependência emocional, que pode existir. Tem muitos fatores envolvidos. É a vida da pessoa ali. Não é tarefa fácil.

Na grande maioria das vezes, essa foi só a primeira e, com o tempo, isso vai se tornando cada vez mais perigoso, chegando a situações como as que a gente tem presenciado. É importante a gente ficar mais atento com a forma com a qual as pessoas que convivemos se comportam. Comportamentos estranhos devem ser levados em consideração e reunir essas informações podem ajudar a revelar a situação de risco. Às vezes temos muita dificuldade em reconhecer aquilo que está próximo a nós, principalmente com alguém que temos relação mais estável, de mais afeto.

– De acordo com o formulário Nacional de Avaliação desenvolvido pelo Conselho Nacional da Justiça e do Ministério Público, ter filhos pequenos é um dos fatores que aumentam a probabilidade do feminicídio. Por quê?

Acredito que as mulheres com os filhos pequenos podem estar vivendo um momento de maior dependência, claro. É uma responsabilidade muito grande. Nesse caso, elas podem estar mais vulneráveis e alguns homens têm muita dificuldade de dividir a atenção da mulher com seus filhos, ainda crianças. Mas é uma dificuldade, que não sendo acompanhada de um perfil agressivo, o homem acaba entendendo que a o filho precisa da prioridade dessa mulher. Mas quando o homem traz um perfil subjetivo, marcado pela violência, essa não atenção temporária pode influenciar nesse crescimento da violência. Acontece que, se você já é um homem agressivo, é só uma mais válvula para justificar o caminho da violência.

*Júlio D’Amato possui graduação em Psicologia pela Faculdade de Biologia e Psicologia Maria Theresa (1994), graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1983), mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003) e doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Aposentado como técnico-administrativo da Universidade Federal Fluminense. Professor adjunto da UNILASALLE RJ. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em: Educação, Jurídica e Psicanálise.

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