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Um bonde chamado alegria: Viradouro promete emocionar no Carnaval 2022

Por Amanda Ares
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Carnavalescos da Escola contaram detalhes dos preparativos para o desfile da próxima sexta-feira (22)
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Os carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira. Foto: Divulgação

Ao entrar no barracão da Unidos do Viradouro, na Cidade do Samba, se vê purpurina colorida em todo lugar. O brilho combina com os rostos iluminados de todos os integrantes da Escola, pela satisfação de finalmente poderem desfilar. Os últimos dois anos foram de muito trabalho, e também de pesar pelos colegas que morreram de Covid, ou sofrem ainda com as consequências da doença e da crise econômica. Porém, ali dentro, prevalecia a felicidade em estar de volta, e o trabalho, parece ser a forma que encontraram de honrar aqueles que não poderão estar na avenida na próxima sexta-feira (22), quando a Viradouro compete pelo bicampeonato. O clima era de animação e muita correria para os preparativos finais. É como diz o enredo deste ano: “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria.”

A Viradouro traz para a avenida em 2022 o carnaval de 1919, isso mesmo, de um século atrás,  o primeiro após a pandemia da Gripe Espanhola. Assim como aquele carnaval, considerado memorável na história do samba, este tem o mesmo sabor de redenção, e a Viradouro promete emocionar, com homenagens aos profissionais da Saúde e um dos sambas mais bonitos já compostos pela Escola. Os carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira contaram detalhes dos preparativos para o tão esperado desfile de 2022, que pode render o bicampeonato para a Escola.

A Seguir: Niterói Cada Carnaval tem seu desafio, mas esse ano foi atípico. Qual foi o maior desafio do Carnaval deste ano?

Tarcísio Zanon – Eu acho que o maior desafio foi encontrar um enredo que trouxesse uma mensagem que dialogasse com a atualidade e tivesse uma mensagem satisfatória para as pessoas, né, uma mensagem de esperança. Então, desde o início, quando a gente estava procurando o enredo, a gente já queria chegar no ponto que tocasse coração das pessoas. E pra gente também foi muito positivo, porque imaginar que há 103 anos o brasileiro conseguiu virar a página da pandemia, a da gripe espanhola, e construiu o maior carnaval de todos os tempos, isso nos fez ter esperança pra construir esse grande carnaval.

E tem sido um desafio diário lidar com profissionais que estão abalados psicologicamente. O nosso trabalho é também um trabalho de liderança, o tempo todo fazendo um trabalho motivacional. Tem uma profissional, que faz flores de EVA, que perdeu a família toda. Perdeu o marido, o filho de vinte e poucos anos… ela chegou no barracão destruída, e a arte foi o que deu um respiro pra ela continuar.

A gente perdeu pessoas que trabalhavam conosco, familiares, e o Carnaval, a cultura em si, foi muito desvalorizada nesse período pandêmico. Então, a gente fez lives solidárias, foi a primeira escola a produzir Equipamento de Proteção Individual (EPIs) pra distribuir durante a pandemia. Então, foi todo um trabalho pra que hoje estivéssemos prontos para esse grande espetáculo, que emocionalmente promete ser um dos maiores carnavais da história do Rio de Janeiro.

– E como vocês trataram a pandemia na produção dos carros, das alegorias? Têm alguma homenagem para os médicos, por exemplo?

Tem toda uma homenagem, dentro das alas, alegorias. O nosso presidente da Velha Guarda se foi de Covid, e a gente faz uma homenagem a ele na nossa última alegoria. Mas a gente leva esse trabalho pra dar continuidade a eles também. O carnaval é feito para eles. Tem uma frase no samba que acho muito significativa, que fala que “além do infinito o amor se renova”. É uma frase que fala do amor pelo carnaval, então todos esses que se foram, a gente vai levar o amor que eles tinham pra além do infinito.

(A essa altura na entrevista, a repórter subiu em um dos carros alegóricos, que representa um bonde, dos que circulavam pela cidade no começo do século XX.) Zanon explica como ele se relaciona com o enredo:

É o bonde da Praça da República. A história desse bonde é bem legal. Durante a pandemia, os bondes levavam os corpos das pessoas que morriam e ficavam pelas ruas [da cidade] E no carnaval de 1919, o Jamanta, que era o condutor do bonde, repintou o bonde todo e conduziu os foliões para o bloco. Então vai ter a transformação, nesse carro, da dor para a alegria, e tem um grupo que vai se transformar durante a encenação do desfile.

A Cultura teve muitas perdas, de valor e de pessoas, como o Paulo Gustavo. Sendo uma escola de Niterói, vocês prepararam alguma homenagem para ele?

– Pretendíamos fazer, mas como a São Clemente já tem o enredo todo sobre o Paulo, e ela desfila antes da gente, aí a gente deixou todas as homenagens pra nossa co-irmã fazer, mas o Paulo Gustavo está no coração de todos nós, e vamos cantar todos juntos pelo Paulo. “Paulo Gustavo pra sempre”, como diz no samba da São Clemente.

Cada ala sempre conta uma parte do samba. O que cada ala vai contar?

A gente abre o desfile com o primeiro baile pré-carnavalesco do Clube dos Democráticos, que é a saída do luto, a saída da pandemia para a entrada do Carnaval.

Nosso segundo setor é mais jocoso, é o carnaval efetivamente, nas ruas do Rio de Janeiro de 1919, e ele brinca com as fake news da época. Por exemplo, a caipirinha surgiu como um xarope dito como cura para a gripe espanhola. Também acreditava-se que a canja de galinha curava, então teve a super valorização das galinhas na época, e aí as pessoas vestiram-se de galinha, os homens tinham um bloco chamado Cocotas Emplumadas, tudo fazendo menção à pandemia anterior.

O próximo setor é o da Avenida Central, o carnaval mais da elite, e dos blocos que surgiram naquele ano. Um desses blocos é o do Cordão do Bola Preta, que surgiu em 1918 e desfilou pela primeira vez em 1919, e fazemos uma homenagem ao Bola Preta nesse setor.

Em outro setor, que é muito emocional, a gente faz uma homenagem à classe médica. A gente faz uma referência a todos que trabalharam na linha de frente, inclusive no carro [alegórico], nós vamos ter profissionais da saúde conosco, para homenageá-los, inclusive alguns de Niterói. Não só médicos. A gente procurou chamar enfermeiros, seguranças, cientistas da Fiocruz, todo mundo que ajudou a gente a chegar até aqui e sobreviver à pandemia [de Covid-19].

Tem também um setor da Pequena África. Uma das grandes contribuições que esse carnaval [de 1919] teve, foi que nesse ano o samba se tornou o maior ritmo do carnaval. Surgem os oito batutas, com Donga, Pixinguinha… essa primeira linhagem de sambistas. Então, é um setor preto, da origem do samba.

E, também, um setor de Niterói. Na quarta-feira de cinzas da época, os niteroienses vieram de barca para o Rio de Janeiro, pra curtir esse carnaval. Na época, se fazia o carnaval de barca, se decorava a barca, pra fazer esse carnaval extasiante. A barca é nossa última alegoria, que vem com a coroa da Viradouro, e vem trazendo uma série de surpresas.

O enredo estava pronto desde o ano passado. Vocês veem esse período sem carnaval como um ganho de tempo para a produção das alegorias?

Não. Porque a gente teve uma série de dificuldades. Além da pandemia, teve a interdição da Cidade do Samba foi interditada, tivemos escassez de recursos, de matéria prima, escassez de profissionais no mercado, então foi uma série de problemas que a gente teve que enfrentar.

A pesar disso, a mudança do Prefeito foi o que a gente teve de positivo, porque o antigo Prefeito do Rio (Marcelo Crivela) era contra a ideologia do samba e do carnaval, e dificultava muito o processo de construção e de apoio ao carnaval.

Que tipo de apoio vocês tiveram nesse período e que o governo anterior não deu?

– Apoio ideológico, mesmo. Apoio financeiro, apoio de busca de patrocínio, de ajudas, e de reconhecimento, né?

Como está a produção das fantasias? Está tudo pronto?

Está quase 100%. Agora são só detalhes, mas está tudo quase pronto.

E tem alguma inovação este ano?

A gente tem uma abertura que é muito forte. No abre-alas a gente está usando um material inovador, para o carnaval, que é uma lona auto reflexiva, que com o efeito da luz, ela consegue captar e expandir todas as cores. Então, a gente vai ter uma transformação de cores bem interessante.

Vocês sentem uma pressão, por serem a atual campeã e por ser um desfile após um ano sem carnaval?

– Claro, porque a expectativa pra campeã é sempre maior. Mas a gente se preparou. Nesse período, a gente amadureceu ao máximo o projeto, pra gente entrar na avenida entendendo que a gente pode ganhar as notas máximas treinados, incansavelmente, pra atingir o número máximo de pontos.

Desfile

O desfile da Viradouro será no Grupo Especial de sexta-feira, 22 de abril. A Escola desfila na madrugada de sábado, às 3h da manhã.

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