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“Se essa praça fosse minha”: moradores contam o que fariam se fossem donos de praças em Niterói

Por Sônia Apolinário
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O projeto da Prefeitura “Adote uma Praça” permite que qualquer pessoa física ou jurídica se torne dono de um espaço público de lazer
praça icaraí portão
Melhorar a limpeza e levar mais pessoas para frequentarem as praças são as principais “providências” dos novos “donos”. Fotos: Sônia Apolinário

O dicionário define praça como sendo um espaço público, geralmente com assentos, coreto, algum tipo de brinquedo para crianças e vegetação, destinado ao lazer e descanso. A cidade de Niterói tem 160 lugares como esse. Os bairros do Centro, Fonseca, Piratininga, Ilha da Conceição e São Francisco são os que contam com a maior concentração deles. Já Ingá, Caramujo e Cubango são os que têm menos desses espaços.

Atualmente, no município, qualquer pessoa (física ou jurídica) pode ser tornar dona de um lugar como esse. Isso porque a prefeitura lançou o projeto “Adote Uma Praça” cujo objetivo “é viabilizar e estimular a parceria entre o poder público municipal e a sociedade civil na reestruturação e conservação de espaços públicos urbanos por meio de melhorias urbanas, culturais, ambientais e paisagísticas”.

Inspirado na cantiga popular “Se essa rua fosse minha”, A Seguir Niterói perguntou a moradores ou visitantes da cidade o que fariam, se as praças que costumam frequentar, fossem deles. Nada de ladrilho ou pedrinhas de brilhantes. Uma boa limpeza é o primeiro item que vem à mente da maioria das pessoas. Criar ações para levar público para esses lugares também foi muito falado porque, por incrível que pareça, na maior parte do tempo, as praças de Niterói ficam vazias como se nelas tivessem “um bosque que se chama solidão”. 

Ingá

Refúgio para minutinhos de descanso para pessoas que trabalham no Ingá

Com um dos portões voltados para a Baía de Guanabara, a praça César Tinoco, no Ingá, costuma receber, diariamente, a visita de funcionários das empresas locais. É lá que se refugiam para descansar nas suas horas de almoço ou lanche. Quem tem esse hábito, por exemplo, a técnica de enfermagem Ana Virgínia, que trabalha em um hospital, no bairro.

Se fosse a dona da praça, ela não teria dúvidas que implementaria atividades voltadas para pessoas da terceira idade:

– Vejo muitos idosos que ficam em filas, esperando uma loja ou mercado abrirem. Eu iria criar uma programação para eles, com muitas atividades, em diferentes horários. A praça até tem alguns equipamentos para se exercitarem, mas não acho adequados. Não dá para os idosos usarem sem orientação. Na verdade, também daria mais atenção para as crianças porque os brinquedos me parecem não oferecer muita segurança. Sim, é isso. Muitas atividades para os idosos e novos brinquedos para as crianças é o que eu faria se fosse a dona da praça – disse Ana Virgínia.

Quem for no local, diariamente, por volta das 14h, é muito provável que encontre José Nacif sentado em um dos bancos voltados para o lado da praia. Morador de São Gonçalo, ele é vigia em um prédio ao lado da praça. Todos os dias, ele faz questão de sair bem cedo de casa justamente para curtir o lugar, antes de começar a trabalhar.

– Eu gosto muito daqui. Tem vista bonita, árvores, tem feirinha. Se essa praça fosse minha seria muito limpinha. Sei que o pessoal limpa e as folhas caem das árvores o tempo todo, mas eu arrumaria uma forma de resolver isso pra deixar tudo limpinho – afirmou Nacif – Queria muito ter uma pracinha dessa no meu bairro, mas lá ninguém cuida. Eu ia ficar muito feliz se fosse o dono dessa praça.

Uma das feirinhas que acontecem no Ingá – e que Nacif gosta, faz parte do Circuito Araribóia de Economia Solidária. Gabriel Sandes, de 19 anos, é um dos responsáveis por montar e desmontar as barraquinhas. Por conta do seu trabalho, ele percorre várias praças da cidade, ao longo da semana. E sua preferida é a do Ingá. O motivo? Ele acha o lugar bonito, além de ser de fácil acesso.

Quando era criança, Gabriel morava no Barreto. Ele contou que não frequentava a pracinha do bairro porque, na época, era considerada perigosa. Atualmente, ele mora em Itaipuaçu (Maricá) cuja praça daria para frequentar, se ele, agora, não estivesse ocupado trabalhando e estudando.

– Se essa praça do Ingá fosse minha, eu melhoraria a iluminação. Melhoraria também a parte das crianças. Os brinquedos são muito caídos. A parte onde dá para jogar bola, eu fecharia toda, transformava em uma gaiola de verdade. Pra galera poder chutar a bola com vontade, sem correr o risco de machucar ninguém – definiu Gabriel.

Barreto 

Falta de conservação é o maior problema do local

É possível que a praça do Barreto esteja, hoje, diferente do tempo em que Gabriel era criança e tentava frequentá-la. Como descreveu a jornalista  Clarissa Thomé, de 46 anos, a praça Flavio Palmier tem equipamentos para todas as idades: pista de skate, que de manhã é ocupada pelo pessoal que faz treino funcional; mesinhas com tabuleiro de damas; barras de ginástica e pesos, além de brinquedos para as crianças.

O problema do local, segundo ela, é a falta de conservação, que faz com que o balanço esteja quebrado, as barras enferrujadas, as fezes de cachorro se espalhem por todos os cantos e o canteiro esteja “careca”, ou seja, sem gramado em grande parte dele.

– Se essa praça fosse minha, eu consertava os brinquedos, trocava os equipamentos de ginástica por aqueles que têm na praia de Icaraí, mais resistentes à oxidação, replantava o gramado, fazia uma campanha de conscientização para as pessoas não espalharem lixo e catarem o cocô dos animais. Lixeira tem e os garis limpam durante o dia, mas nunca é o suficiente. Também separaria um cantinho para fazer uma horta comunitária – planejou Clarissa. 

Icaraí

Uma família mora, atualmente, na praça

Em um recente sábado ensolarado, os primos Gustavo, Myrella, Vanessa e Lhorrane foram passear por Icaraí. Moradores do Largo da Batalha, eles visitaram pela primeira vez a praça Getúlio Vargas que, como a vizinha do Ingá, também tem vista para a Baía de Guanabara. Eles tiraram algumas fotos, mas não ficaram muito tempo simplesmente porque não havia muito o que fazer por lá.

O estudante Gustavo Barbosa, de 21 anos, disse que, se fosse o dono da praça criaria para o local uma programação de shows e eventos culturais, além de ações sociais. Tudo isso para fazer mais pessoas frequentarem o lugar.

– Aqui é bacana porque é grande, mas não tem muitas pessoas. Quando tem show, todo mundo vem – observou ele, no que Myrella Costa completou: – Precisa ter mais brinquedos para as crianças. Esses brinquedos estão muito ruins, não deixaria isso dessa forma, se a praça fosse minha.

Do outro lado de onde estava o grupo de jovens, uma feira de artesanato exibia produtos para quase ninguém. Expositoras, as irmãs Francisca e Fátima Brito, moradoras de Pendotiba, disseram que também fariam esforços para atrair mais pessoas para frequentar a praça, se fossem as donas do lugar.

Na opinião de Francisca, os problemas da praça são tantos que, mesmo se fosse a dona, ela acredita que não teria condições de resolver tudo sozinha:

– Tem muito lixo, os brinquedos estão sem manutenção, quando chove formam poças de água. E vira e mexe tem alguma briga. Eu teria que arrumar tudo isso e ainda colocaria wi-fi gratuito na praça. Esse é um espaço maravilhoso, mas está largado. Eu, como dona, vou arrumar as coisas, mas vou exigir que a prefeitura faça a parte dela também – observou Francisca.

Na opinião da sua irmã Fátima, a praça precisa receber um “olhar mais humano”, que é o que faria, caso fosse a dona do lugar.

Coordenadora da feirinha da Casa do Artesão, Sueli Almeida sabe que, como dona da praça, teria que enfrentar um problema delicado: atualmente, uma família mora no local e, sim, ela gostaria que ninguém morasse na “sua” praça.

Resolvida essa questão, ela se dedicaria a melhorar os jardins fazendo replantios, pintaria os bancos e limparia o local.

– As pessoas precisam ter motivação para vir para a praça. Para isso, a primeira coisa é o lugar estar limpo. Como dona do espaço, faria ações para trazer mais idosos para cá criando atividades para eles. Também criaria uma área para os cães. Atualmente, o outro lado da praça, como está largado, virou um cachorródromo e tem cocô para tudo quanto é lado. Não dá para uma criança brincar por lá, atualmente, até porque o parquinho precisa ser revitalizado – observou Sueli. 

Vital Brazil

Os moradores do bairro estão voltando a frequentar a praça

Foi justamente com a criação de um Parcão que a história da praça do Vital Brazil começou a mudar. Os moradores do bairro e entorno começaram a voltar a frequentar o lugar em 2018, quando o espaço reservado para os cães brincarem soltos foi criado. Um movimento tímido, que foi interrompido pela pandemia do Coronavírus e que começa a ser retomado outra vez.

Outrora a praça foi reduto de moradores de rua e usuários de droga, o que fez com que os moradores do bairro se afastassem do espaço que conta com pista que serve tanto para skate quanto bicicross (apelidada de pirâmide), labirinto, brinquedos tradicionais para crianças e aparelhos de ginástica. Já teve até banheiro, mas eles estão fechados há muito tempo.

Moradora de Santa Rosa, Amanda Marques Olivier disse que, se fosse a dona da praça do Vital Brazil não mudaria nada do que encontra por lá, atualmente. Como dona do espaço, seu esforço seria o de conservar a praça “que é muito boa”.

Ela é uma das pessoas que “bate ponto” no Parcão e só voltou a frequentar a praça por conta desse espaço, apesar de morar há 30 anos na região.

Mariana Schmidt também sempre morou no bairro e lembra de, quando criança, ter frequentado bastante a praça. Agora, aos 40 anos, ela leva o filho João de 3 anos para brincar no local. O que ela faria se fosse a dona da praça?

– Eu promoveria atividades de ginástica para todas as idades e traria feirinhas para ver se mais pessoas passam a frequentar. Em termos de manutenção, eu pintaria para dar uma aparência melhor para o local e também iria caprichar mais na limpeza, principalmente, dentro de brinquedos como o labirinto – enumerou.

Sua vizinha e amiga de pracinha Camilla Rebello Martins também iria se esforçar para levar mais movimento para o local, se fosse a dona da praça. Ela mora no bairro apenas há dois anos e começou a frequentar o espaço ainda na pandemia, assim que foi reaberto.

Como dona da praça, ela disse que iria fazer também um trabalho de conscientização junto aos donos dos cães porque muitos deles não se limitam a ficar com os animais no Parcão.

Já Mayra Alvarenga colocaria mais flores e brinquedos para crianças bem pequenas na praça, se fosse a dona do lugar. Ela mora no bairro desde 2004 e lembra como o espaço era “acabado”.

– Agora a praça está bem bonitinha e, como dona, vou deixa-la ainda mais bonita cuidando bem do lugar – afirmou.

Esta repórter aqui, moradora do bairro, também se esforçaria para levar mais movimento para a praça, se fosse a dona do lugar.

Na verdade, a praça do Vital Brazil já foi adotada. Extraoficialmente. E a “dona” é Ana Beatriz. Ela está à frente do projeto Recicão e foi uma das responsáveis pelo Parcão ter deixado de ser apenas vontade de alguns moradores e ter se tornado realidade.

Ainda no tempo em que a praça era “largada”, ela se juntou a alguns vizinhos do bairro e passaram a levar seus cães para passear no local. Começaram, então, a reivindicar segurança e a criação do Parcão. Conquista feita, ela passou a se dedicar ao Recicão, um projeto de reciclagem de materiais que tem a praça como sede informal.

Todos os sábados, das 8h às 11h, um grupo de cerca de cinco pessoas do projeto recebe doações de material para reciclagem. Vale tudo, menos vidro e isopor – ou seja, papelão, tampinhas, plástico grosso, papel (inclusive notinha de supermercado), garrafas pet, latinha de alumínio e de ferro. O material é pesado, vendido e o dinheiro arrecadado é usado para cuidar de animais abandonados. Antes de irem embora, o grupo limpa a rua de um dos lados da praça e todos estão sempre de olho para identificar algo no lugar que possam resolver.

– Se eu fosse a dona teria pontos fixos de coleta de material reciclável pela praça, arrumaria os banheiros para que voltassem a funcionar e instalaria bebedouro para cães – afirmou Ana Beatriz que, em um sábado recente, dia do seu aniversário, ganhou uma festinha improvisada, na rua, das suas colegas de Recicão.

Adote Uma Praça

Um dos acessos da praça do Ingá

De acordo com a Prefeitura, a adoção da praça poderá ser feita em duas modalidades: por convocação – na qual o município realizará chamamento público aos interessados para espaços públicos previamente definidos, que deverão apresentar suas propostas; ou por solicitação – quando é apresentado um requerimento manifestando o interesse por determinado espaço público.

Os chamamentos serão feitos por meio de publicação no Diário Oficial do Município.

Após escolhida a melhor proposta, o vencedor promoverá, supervisionado pelo município, uma consulta pública à população que reside ou trabalha no bairro sobre o projeto que pretende implementar.

A parceria entre o Município e o adotante será instrumentalizada por meio de um Termo de Cooperação, com a definição das responsabilidades do adotante acerca da conservação e da manutenção da praça ou seus equipamentos públicos, os requisitos de conservação, manutenção e restauro do bem, cronograma com o prazo para implementação das melhorias e logística da conservação da área, prazo de vigência da adoção, as atribuições da pessoa física ou jurídica responsável pela adoção, entre outras questões.

Serão atribuições do município, entre outras estabelecidas no Termo de Cooperação, elaborar e disponibilizar para o adotante, quando for o caso, projeto de urbanização e paisagismo da área de uso público a ser adotada.

 

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