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Berbigão e Bicho Papão, dois restaurantes de Niterói e uma história com ingredientes dignos de série de TV

Por Sônia Apolinário
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O enredo é de tirar o fôlego, tem componentes familiares, traições, sucesso, declínio: conheça o que está por trás das lagostas e camarões deliciosos
Berbigão e Bicho Papão
Fachadas dos restaurantes Berbigão e Bicho Papão, em Jurujuba. Fotos de Sônia Apolinário

Em cerca de 150 m de calçada, no final do bairro de Jurujuba, se desenrolou uma história com ingredientes dignos de série de TV. Tem ascensão e queda de estabelecimentos tradicionais de Niterói; exemplos de self-made man; gratidão e mágoa; sonhos; ambições e muito, muito trabalho.

Os estabelecimentos “protagonistas” desse enredo são os restaurantes Berbigão e Bicho Papão, criados há mais de 50 anos. Durante um bom tempo, pertenceram ao mesmo grupo empresarial. Hoje, porém, são administrações distintas. Spoiler: há sete anos, o atual dono do Bicho Papão é um ex-Berbigão. E a concorrência não é peça de ficção.

Como prólogo, uma história comum a muitos imigrantes portugueses que se estabeleceram no país: se dedicaram ao trabalho sem direito a descanso e acabaram por construir impérios de diferentes portes.

Na base do império Berbigão estão José David e Luiz da Silva Mello, que criaram um grupo empresarial com nove sócios. Por um longo período, um dos sócios foi Carlos Henrique Brito Fernandes, atual proprietário do Bicho Papão.

José Severino Pessoa tem 32 anos de Berbigão. Foto: Reprodução/Instagram

Luiz Melo morreu há três anos. José David morreu em setembro passado, aos 66 anos, por complicações decorrentes de Covid. Seus filhos, que já atuavam na empresa da família, tiveram que assumir ainda mais as rédeas dos negócios, que não se limitam ao ramo de restaurantes.

O Berbigão original existe há 35 anos, criado a partir de um botequim chamado Seresteiro, que já estava há 20 anos no local. Na mesma calçada, o Bicho Papão funciona há 60 anos. Entre os dois, o Berbigão Grill já completou 15 anos. O Berbigão Catete, no Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2008, a partir de uma lanchonete da família.

No mesmo bairro carioca, o Berbigão Gourmet funciona há oito anos. Há 13, o grupo comprou o Taberna da Glória (RJ), restaurante com 92 anos de história, no bairro da Glória.

O Bicho Papão, que durante cerca de dez anos, ficou praticamente abandonado, foi comprado pelo “grupo Berbigão” quase na mesma época da inauguração do Grill.

O império Berbigão tem um total de 80 funcionários. Os 16 que trabalham no restaurante original, têm uma média de 20 anos de casa. No caso de Carlos Henrique foram 28 anos. Entrou como assistente (cumim), passou a garçon, gerente e chegou a sócio.

O atual gerente do Berbigão I, Jorge Baptista, está na empresa desde 1987, mas esteve fora, nos últimos dez anos. Voltou recentemente, a pedido de Alexandre, um dos filhos de José David, o que está mais à frente da administração da empresa. Jorge começou como garçon, mas em uma antiga casa do grupo, a Cantina Di Danta, em Icaraí. Tinha, então, 20 anos.

Os garçons José Mendes (E), Nelcir e Marquinhos com o gerente Jorge (D)

– A pessoa vem a um restaurante também para comer. O clima, o acolhimento, as histórias é que fazem a diferença entre os estabelecimentos. A expansão do Berbigão aconteceu por oportunidade de negócio. No caso do Grill, quando o ponto ficou vazio, seu David pegou porque o Berbigão I lotava demais. Ele queria acomodar a clientela.

Na época, ele manteve o nome para que as pessoas soubessem que, no restaurante novo, teriam o mesmo tratamento do antigo. Foi nessa que ele também comprou o Bicho Papão, quando ficou largado. O Grill foi dando certo e enchendo também.

Já o Bicho Papão, nem tanto – conta Jorge que assumiu uma nova função nesse seu retorno: garoto propaganda do perfil do Instagram do restaurante. Segundo ele, as pessoas “mais saudosistas” não abrem mão de frequentar o Berbigão original.

 

Fachada em reforma do Berbigão I. Foto: Sônia Apolinário

O lugar parece ter parado no tempo em termos de arrumação. Jorge admite que, por conta do Bicho Papão, as coisas por lá vão mudar – uma reforma será feita para modernizar sem descaracterizar o local. Na sua opinião, ao longo do tempo, ter dois restaurantes próximos com o mesmo nome deixou de ser vantajoso porque passou a “criar confusão na mente dos clientes” .

É com emoção que ele se lembra do patrão e chega a chorar quando fala sobre a falta que seu David faz no negócio.

– Ele rodava todos os restaurantes e, se precisasse, fazia o trabalho do manobrista ou da função que fosse – conta.

Nos restaurantes de Jurujuba, peixe e frutos do mar são as estrelas do cardápio. No caso do Berbigão I, uma das razões do seu sucesso, segundo Jorge, é o Festival de Camarão.

Foto: Reprodução/Instagram

Bicho Papão

Em 1988, aos 18 anos, o gonçalense Carlos Henrique foi a Niterói em busca de trabalho. Bateu na porta do Bicho Papão, mas nem foi recebido pelo antigo proprietário. Decidiu, então, caminhar os 150 m que separam o restaurante do Berbigão para encontrar um amigo que trabalhava lá.

O amigo o apresentou para seu David que prometeu que, na primeira oportunidade, o chamaria para trabalhar. Isso, de fato, aconteceu, dois meses depois. Henrique iria substituir, provisoriamente, o próprio amigo que havia sofrido um acidente.

Carlos Henrique, dono do Bicho Papão. Foto: Sônia Apolinário

– Eu sou muito grato ao José David e ao Luiz. Aprendi tudo o que sei no Berbigão. Porém, lutei por cada vitória. De uma pequena casa falida, transformamos em seis. Sei o que representei nisso – afirma Henrique, atualmente, morador de Pendotiba, em Niterói.

Ele se tornou sócio do então patrão aos 21 anos. Conta que era tanto trabalho, que nem teve tempo de se deslumbrar com seu novo status na empresa. Na época, o Brasil enfrentava uma epidemia de cólera, o que atingiu em cheio restaurantes como o Berbigão – por conta da doença, pescados e frutos do mar passaram a ser monitorados.

Os clientes foram sumindo e os sócios quiseram vender suas cotas. Henrique comprou o que pode, 5%. Ao longo dos anos, ele foi comprando mais cotas.

Na sua opinião, o que atrapalhou a expansão do grupo foi não ter crescido, na mesma proporção, em “qualidade administrativa”. E sim, ele achou uma boa ideia repetir, na mesma rua, o nome do restaurante original.

Quando decidiu que havia chegado a hora de deixar a sociedade, recebeu como proposta ficar com o Bicho Papão. Na época, administrado por sobrinhos de seu David, o restaurante estava com a reputação abalada, mas Henrique o enxergava como um “gigante adormecido”.

– Henrique é uma ótima pessoa e está tocando a casa com sucesso. Em um ano, ele se estabeleceu e foi melhorando o restaurante – afirma Jorge, do Berbigão.

Calçada onde fica localizado o restaurante Bicho Papão. Foto: Sônia Apolinário

No salão, Henrique recebe os clientes, se certifica que estão sendo bem atendidos; na cozinha, confere a finalização dos pratos. Para todos, clientes ou funcionários, ele tem atenção e palavras amistosas.

Henrique diz que tinha certeza que era “só” ter um lugar bonito, com comida boa e bom atendimento que o Bicho Papão voltaria a reinar em Jurujuba. E não deu ouvidos a amigos, inclusive publicitários, que lhe sugeriram (quase suplicaram) que mudasse o nome do restaurante. Sua aposta é que o Bicho Papão fazia parte da memória afetiva do niteroiense e sua volta seria bem recebida pela cidade.

– Peguei a casa destruída. Passei por todas as provações, mas nada se compara ao que senti no dia que cheguei no restaurante e ouvi que teríamos que fechar, que todos teriam que ir para casa por tempo indeterminado, por conta da Covid. Eu vivo de pessoas. Nesse momento, vi que não tinha nada, meu chão se abriu e senti um grande pavor por não saber sobre o dia de amanhã – conta ele, emocionado.

Tanto lá quanto no Berbigão não houve demissões no período da pandemia. Henrique conta que entendeu que precisaria se reinventar para sobreviver à Covid e se jogou no serviço de delivery, que até então, era tímido. Por lá, o carro-chefe do cardápio é a caldeirada de frutos do mar.

Caldeirada do Bicho Papão. Foto: Reprodução/Instagram

Aos 51 anos, casado há 27, dois filhos e um neto, Henrique, que estudou até o sétimo ano, diz que não pensa em expandir seu negócio, nos moldes dos antigos sócios. O que ele pretende é melhorá-lo ao ponto de, quem sabe, poder passar a tirar férias.

– Falar sobre o Berbigão é difícil porque entra razão e emoção. Mágoas e erros, guardei em uma caixinha. Eu costumo dizer que conheço cada paralelepípedo desses 150 m de rua, entre os dois restaurantes, que percorro há 35 anos. Ainda não me vejo como um empresário, mas como um comerciante. E não encaro o Berbigão como concorrente. Aqui em Jurujuba, tem lugar para muitos outros restaurantes – afirma.

Sobre o Bicho Papão propriamente dito, ele ainda está lá: uma cabeça de Mero, um peixe que mede cerca de três metros. Costumava ficar onde atualmente é o meio do salão e, de dentro dele, acendia uma luz vermelha que deixava as crianças cabreiras.

Agora que o restaurante tem o dobro do tamanho original, o Bicho Papão fica em um balcão, zelando pelos clientes.

O ‘Bicho Papão’ (D), uma atração do restaurante. Foto: Sônia Apolinário

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