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‘Queremos romper com a centralização dos equipamentos culturais’, diz Secretário

Por Livia Figueiredo
Ao A Seguir: Niterói, Leonardo Giordano defende maior diálogo entre as artes e fala sobre as perspectivas para o calendário pós-pandemia
O Secretário de Cultura, Leonardo Giordano. Foto- Divulgação
O Secretário de Cultura, Leonardo Giordano. Foto: Divulgação

Com o avanço do calendário da vacinação, Niterói retoma às atividades aos poucos, de forma gradual, com um plano robusto, dividido em três etapas (outubro, novembro e janeiro). A principal mudança é o passaporte de imunidade, que entra em vigor no dia 1º de outubro. Museus, bibliotecas, cinemas, teatros, salas culturais e exposições em ambientes fechados, todos exigirão o comprovante da vacinação como uma forma de reduzir os riscos de transmissão da Covid e tornar os locais mais confortáveis para as pessoas que estavam receosas de circular em espaços fechados. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o Secretário de Cultura, Leonardo Giordano, fala um pouco dos planos para essa retomada, o projeto da descentralização dos equipamentos culturais, a intervenção cultural dos espaços, através do maior diálogo entre as artes, além do planejamento para as atividades do segundo semestre.

– A gente quer romper com essa centralização dos equipamentos culturais em Icaraí e no Centro. Vamos criar um centro cultural do Fonseca através de uma consulta popular para o uso do espaço. A proposta irá contemplar essa discussão pública sobre a vocação do espaço, as reivindicações da população. O espaço cultural será construído naquele casarão histórico próximo ao Colégio Mercês, na Alameda – adianta o Secretário de Cultura, Leonardo Giordano.

A cultura foi um dos setores mais afetados pelas restrições da pandemia. Cinemas fecharam, teatros suspenderam suas peças, shows foram remarcados, museus interromperam exposições. O setor cultural, como um todo, foi suspenso. Agora, com o planejamento de chegar até novembro com a população elegível à vacinação já com a segunda dose, o sentido é de um retorno massivo das atividades. O Secretário deixa claro que a progressão da abertura depende do avanço da vacinação. “Estamos com plano de ocupar mais espaços, fazer mais intervenção cultural, mas depende de como vamos estar até lá em termos de vacinação”, sinalizou.

Um dos projetos previstos para o segundo semestre é oferecer consultoria para ideias criativas atráves de editais públicos. Giordano conta que a Prefeitura irá lançar um edital, em outubro, ao que tudo indica, oferecendo consultoria e remuneração por seis meses de 200 ideias criativas sem cobrança de resultado final, desde que elas sejam desenvolvidas. A expectativa é que esse ano a Prefeitura supere o valor de investimento de todos os outros anos em editais públicos.

Confira a conversa na íntegra abaixo:

A SEGUIR: NITERÓI: Como você descreveria a vocação cultural de Niterói?

LEONARDO GIORDANO: Acho que tem uma dimensão que é bem consolidada e visível em Niterói, de uma cidade que foi capital, referência nas artes, de um lugar que tem equipamentos culturais belíssimos. Niterói é a segunda cidade do Brasil em número de obras do Oscar Niemeyer, um museu de projeção nacional, um Teatro Popular do porte e da beleza do nosso, um Theatro Municipal tradicionalíssimo e, claro, um patrimônio cultural de prédios históricos vastíssimo. Mas eu destacaria uma questão que não possui tanta visibilidade e nem é muito discutida que é a produção cultural comunitária periférica. Nós temos uma produção muito poderosa. A cidade tem isso e é muito importante valorizar.

Niterói tem uma característica de multiplicidade de linguagens. Em termos de cultura geek, é uma das cidades que tem a maior potência entre todas do Brasil medido em pesquisa. Niterói é a cidade onde nasceu a umbanda, tem muitos terreiros e mais 30 escolas de samba, além de uma rede enorme de rodas de rima. É uma cidade que tem uma potência incrível na capoeira.

Você é fissurado na cultura geek, né? Explica um pouco de como Niterói se situa nesse universo.

Nós temos em Niterói diversas escolas de ilustração e quadrinhos. A cidade é um polo de desenvolvimento de videogames, tem muita empresa fazendo isso. Tem jogos premiados internacionalmente que foram desenvolvidos em Niterói. Temos festivais anuais dessa temática, e Niterói é uma das grandes consumidoras, entre as cidades brasileiras, dessa linguagem cultural.

Em 2019, uma pesquisa realizada pela Rakuten Digital Commerce mostrou que o público da chamada economia geek gasta até 40% a mais do que a média nacional. Niterói é a terceira cidade mais geek do Brasil, de acordo com um levantamento feito pela Amazon no mesmo ano. O estudo faz um ranking das dez cidades que mais consumiram esses produtos nos anos de 2018 e 2019, com base em análises de dados de vendas de cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes.

No momento, nós estamos financiando na Secretaria de Cultura um edital de R$ 4 milhões de Audiovisual, que tem uma linha própria de desenvolvimento de videogames.

Em relação à Zona Norte da cidade, a Prefeitura planeja criar um espaço cultural no Fonseca, certo? Como vai ser esse projeto? Tem previsão de abertura?

A gente está com um processo administrativo, que se tornou um processo também judicial, porque já sabemos a casa onde será construído o espaço e estamos desapropriando, mas tem um certo tempo da justiça. O espaço cultural será construído naquele casarão histórico próximo ao Colégio Nossa Senhora das Mercês, na Alameda. A gente está desapropriando por interesse público, mas tem uma família que é dona, então é preciso remunerar essa família, isso está previsto na lei. Estamos em fase de discussão de valor. Assim que o juiz definir o valor, a Prefeitura vai desapropriar e construir o primeiro centro cultural público da Zona Norte.

O que está por trás dessa ideia é uma ação coordenada de descentralização dos equipamentos culturais. No Parque Orla está sendo construído o primeiro centro cultural da Região Oceânica. A gente quer romper com essa centralização dos equipamentos culturais em Icaraí e no Centro.

Em relação ao centro cultural do Fonseca, nós vamos fazer uma consulta popular para o uso do espaço. A proposta irá contemplar essa discussão pública sobre a vocação do espaço, as reivindicações da população.

Quais são as perspectivas para esse semestre? Há algum planejamento de um retorno mais forte das atividades culturais?

A cidade está retornando no ritmo dos decretos e da orientação municipal e do Comitê Técnico, com muito cuidado, mas o sentido é de um retorno forte das atividades. É paradoxal, mas nunca antes o MAC teve sete atividades ao mesmo tempo. É um parque de diversões de possibilidades. São seis exposições presenciais e uma virtual, além de performances, apresentações de ballet, danças, debates. Estamos com um edital na rua, o de ocupação de teatros por academias de dança e ballet. Vamos ocupar as pautas nesse edital.

Estamos com plano de ocupar mais espaços, fazer mais intervenção cultural. Ao mesmo tempo, estamos tendo a contrapartida dos editais que a Secretaria de Cultura lançou. Nós demos gratuidade tanto para as academias de dança e ballet para usarem os palcos e para todos que participaram da Lei Aldir Blanc e do Edital de Retomada. Mesmo na pandemia, dentro do limite, chegamos a construir pautas novas. Temos uma programação vasta dos teatros e museus para o segundo semestre. Mas a progressão da abertura depende do avanço da vacinação.

Leonardo Giordano. Foto: Mariana Lima

E como será aplicado na prática esse maior investimento na intervenção cultural dos espaços?

A gente fala muito em democratização dos investimentos por território, mas tem outra discussão que é muito importante, que é a democratização das linguagens. Não pode a grana ir toda para a música, para cinema, para duas, três coisas. É importante essa diversificação. É claro que, ao mesmo tempo, respeitando certas lógicas. Não é para fazer uma exposição em um teatro e deformar o seu sentido artístico. Ele tem uma vocação. A ideia é que isso se mantenha na perspectiva de construção da programação. Uma diversificação e democratização do acesso entre as linguagens artísticas.

Como está a situação do Cinema Icaraí? A Prefeitura chegou a mencionar que o cronograma de desenvolvimento do projeto sofreu alteração em função da pandemia, já que a maioria dos recursos municipais foi destinada, prioritariamente, aos investimentos para ampliação da rede de saúde. Como está o cronograma hoje? Qual a previsão do projeto ser enviado para análise do Instituto Estadual do Patrimônio Cultura (Inepac)?

Teve avanço na pandemia porque a gente aprovou o projeto no Conselho Municipal de Patrimônio Histórico. Estamos em fase de análise técnica, de obra mesmo, para oferecer ao Inepac. A previsão é que logo no início do ano que vem isso aconteça. Entre janeiro e fevereiro, o Inepac deve julgar a proposta da Prefeitura. Atualmente a Emusa (Empresa Municipal de Moradia Urbanização e Saneamento) está realizando os ajustes. Em relação ao projeto em si, vai ser um centro cultural multiuso, que irá abrigar um bistrô, várias salas de cinema e a sede da Orquestra Sinfônica da UFF.

Qual sua opinião sobre a gestão federal da cultura?

Eu nunca vi antes uma gente tão obcecada por atacar e destruir a identidade nacional, a cultura popular e as políticas públicas. O Mario Frias, secretário responsável pela Cultura no governo federal, é o primeiro caso entre os gestores públicos que defende não fazer uma Lei Aldir Blanc 2 e a Lei Paulo Gustavo. É o primeiro caso, talvez, de um gestor público que está falando para não investirem na pasta dele. Isso sem contar com os incêndios nos museus, as ofensas à cultura de matrizes africanas. Estamos vivendo um momento de grande desafio para os fazedores de cultura e para a própria identidade do brasileiro de sobreviver a esse governo.

Um exemplo prático é o programa Cultura Viva, os pontos de cultura. O governo federal investia nos Pontos de Cultura. É um programa que começou com eles. Agora, os Pontos de Cultura de Niterói são financiados com investimento municipal. É a Secretaria de Cultura que faz o edital. Originalmente era federal. Isso aperta o orçamento da cidade. Com esse dinheiro, o governo municipal poderia dobrar os Pontos de Cultura, fazer outras políticas públicas.

Muito se fala da capacidade de aliar criatividade e produção intelectual a fim de gerar valor econômico. Qual a importância para você da economia criativa atualmente? Como a cidade imprime o seu diferencial intelectual na Cultura?

A Prefeitura ofereceu uma rede ampla para os MEIs da cidade para auxílio durante a pandemia. O critério de inscrições era para quem era MEI. Descobrimos na Secretaria de Cultura que 12% dos registros de CNAES (Classificação Nacional de Atividades Econômica), eram vinculados às atividades culturais. O edital da Retomada gerou mais de 400 trabalhos diretos. No edital de audiovisual foram mais de 800 trabalhos. Esses editais têm como objetivo fortalecer essa cadeia produtiva da cultura. Eles contemplam um investimento muito grande em inovação. Nesse ano, vamos ultrapassar o valor de todos os outros anos em editais públicos.

Nós vamos remunerar 200 ideias criativas, sem cobrança de resultado final, desde que elas sejam desenvolvidas, oferecendo assessoria para que essas propostas virem projetos. A remuneração não é pela execução, mas pela criatividade. O edital deve ser lançado em outubro e deve contemplar uma quantidade grande de trabalhos. A Prefeitura fará consultoria por seis meses.

O século XX definiu as grandes nações do mundo por três elementos fundamentais: aço, petróleo e energia elétrica, enquanto o século XXI provavelmente vai ficar marcado por Ciência, Tecnologia e Inovação. A Cultura tem tudo a ver com isso, essa busca por um lugar, o desenvolvimento de uma capacidade, de fato, de a gente ter uma economia desenvolvida e ter um povo respeitado, com sua memória e identidade garantidas.

Leonardo Giordano. Foto: Leo Zulluh

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