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Praia se torna dor de cabeça para morador de Niterói: primeira parada, Itaipu

Por Sônia Apolinário
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Série de reportagens mostra desordem nas praias da cidade: engarrafamentos, preços exorbitantes, música alta, quentinhas na areia e até brigas à beira mar
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Popular ou “ostentação”, cada um encontra um lugar na areia lotada de Itaipu para chamar de seu. Fotos: Sônia Apolinário

Faz tempo que não dá para cantar com leveza, como um Menudo dos anos 80, a alegria de ir para a praia. “Vamos a la playa”, talvez o melhor programa da cidade,  virou uma dor de cabeça para o morador de Niterói neste início de ano. Engarrafamentos enormes, dificuldade de estacionar, cobrança de até R$ 25 por uma vaga,  loteamento da areia, com “consumação” de mais de R$ 100 nas barracas, música fora do tom e todo tipo de desordem … nada disto chega a ser novidade. Mas parece que nos poucos dias de sol de 2022, os problemas se agravaram e teve até pancadaria à beira-mar, em Itacoatiara.

As queixas são generalizadas: de moradores da Região Oceânica, de frequentadores antigos, de visitantes de outras cidades e mesmo de gente que está distante da praia e de alguma forma sofre o impacto do movimento na cidade, no Centro, Icaraí, São Francisco. Para conhecer melhor o problema e tentar oferecer um guia de sobrevivência nas praias, o A Seguir: Niterói visitou as praias da Região Oceânica e preparou uma série de reportagens para revelar o que funciona e o que não funciona, e reafirmar a paixão do morador pelo mar que banha a cidade.

Primeira parada: Itaipu. Uma praia democrática e cheia de manhas

Quando se pergunta para um frequentador sua opinião sobre a praia de Itaipu é comum ouvir como resposta: “é uma praia democrática”. Mas cabe acrescentar,  e “cheia de manhas”, tantas são as peculiaridades da antiga colônia de pescadores e hoje um pólo de bares, restaurantes e até pousadas.

Um visitante de primeira viagem pode ter dificuldade para descobrir como se chega na areia, que mal se avista do asfalto, encoberta pelas amendoeiras que povoam o lugar. A Prefeitura urbanizou o acesso, com a construção de um deck de madeira. Uma das “entradas”, por exemplo, é por dentro de um dos vários estacionamentos particulares do local, bem à direita de quem está de frente para a praia. O rotativo da Prefeitura, ao preço de R$ 5, costuma ter suas 42 vagas ocupadas antes das 9h. Nos demais, a conta é mais pesada: R$ 30 para deixar o carro por lá, impreterivelmente, até às 19h. Os que ficam um pouco mais afastados, no entorno da praça, cobram mais barato: R$ 20. Mas o ônibus que faz ponto final por ali continua sendo a opção para boa parte dos frequentadores.

A praia tem cerca de um quilômetro de extensão. Vai do canal de ligação da lagoa de Itaipu com o mar (que faz “divisa” com Camboinhas), até o morro das Andorinhas. Como é a única praia da Região Oceânica com águas calmas, é a preferida das famílias com crianças. Itaipu está sempre muito cheia, nos finais de semana, em qualquer época do ano. Em alguns dias, porém, consegue ficar pra lá de lotada. Quer dizer: superlotada.

Na terça-feira da semana passada, em plenas férias de janeiro, estava muito cheia. Caminhando do canal em direção ao morro, é possível observar como a democracia da praia se organiza. Mais próximo do canal, mais aglomeradas ficam as pessoas que, geralmente, trazem seu próprio kit de sobrevivência praiana: barraca, cadeira, bebidas e alguma comida.

A partir da vila de pescadores, mais ou menos no meio da praia, o espaço entre as pessoas aumenta um pouco mais. Grande parte dos cerca de 40 restaurantes que funcionam ao longo da praia organizam mesas, cadeiras e barracas na areia. Se você der pinta que é o tal visitante de primeira viagem, é possível que lhe cobrem uma consumação mínima para ocupar uma das mesas. Na base do, se colar, colou – R$ 120 reais, já ouviu uma frequentadora.

Em tempos de pandemia, as mesas estão dispostas, na areia, com uma distância parecida com a dos bares “no asfalto”. Porém, quanto mais para perto do morro das Andorinhas, o espaço entre elas fica ainda maior.

Lá no canto, a principal atração é o Camarote Itaipu, que reúne, em um mesmo espaço, pousada, spa e restaurante, também com mesas pela areia. É uma construção moderna, diferente do padrão da colônia de pescadores.

Marcos André Vieira e a esposa Beatriz

– O Camarote trouxe outro público. Valorizou a praia. Galera vem de longe para ir lá – comenta Marcos André Vieira.

Morador do Engenho do Mato, ele trabalha no estacionamento rotativo da Prefeitura e chega em Itaipu, todos os dias, às 6h30. Quando termina seu horário, ele aproveita a praia, de preferência, com a família.

Marcos conta que gosta de ficar antes da vila dos pescadores porque é mais perto do ponto do ônibus que pega para voltar para casa. Na sua opinião, o serviço daquele lado da praia, poderia melhorar.

– Se tem um Camarote lá, poderia ter outro aqui – diz ele.

 

 

As amigas Angela Maria Batista, Rosangela Alexandrino e Maria de Fátima Trindade, são habituées da praia. Às vezes ficam antes, às vezes, depois da vila dos pescadores. Depende do humor do dia.

– Aqui desse lado (perto do morro) ficam as famílias com mais poder aquisitivo. O lado de lá é uma bagunça só – explica Angela, que trabalha como podóloga e é moradora de Itaipu.

– A gente reveza. Eu gosto muito da ponta do canal e daqui. No meio, rola som muito alto, uns funks brabos. Se eu trago bebida de casa, por exemplo, fico por lá. Aqui eles não deixam ficar. Lá, tudo é um pouco mal acabado. Aqui é mais arrumado – comenta Rosangela, cabelereira moradora de São Gonçalo.

A cuidadora Maria de Fátima, também moradora de Itaipu, concordou com tudo o que as amigas disseram.

Angela (D), Rosangela (centro) e Maria de Fátima (E)

Na opinião de Rosangela, a comida, no lado que considera mais caro da praia, está deixando a desejar. Como dica para quem quiser fazer um passeio completo, quando for a Itaipu, ela recomenda encarar a trilha das Andorinhas cuja subida fica perto da “entrada” da praia, na Paróquia de São Sebastião de Itaipu.

– São duas horas de caminhada, não tem que escalar nada. Cansa, mas a vista é muito linda – diz Angela que aproveita para informar que, se ouvir, do nada, aplausos ecoarem pela praia, significa que está passando uma criança perdida. Bata palmas você também.

Polo gastronômico de Itaipu

Perto de onde estavam as amigas fica o Bar do Tião. Ainda bem que o senhor Sebastião não ouviu o que elas falaram sobre a comida daquele lado da praia. Há oito anos, ele comanda o bar que batizou com seu apelido e é ele mesmo quem prepara os pratos. Por lá, a especialidade é peixe frito com pirão.

Os funcionários são os primeiros a defender a comida da casa:

Tião (E), Luciano, Nazareth e Martins (D)

– Está lançado o desafio. Se vier aqui e não gostar, não paga – diz Luciano, ao lado da colega Nazareth, sob os olhares atentos de Sebastião que administra o local ao lado do filho Martins.

Em cima do bar tem um segredinho: duas suítes disponíveis para aluguel. Não tem propaganda. As pessoas ficam sabendo no boca a boca.

– O pessoal ficava com preguiça de ir embora, então, tivemos a ideia de construir as suítes para melhorar o rendimento do bar. Estão sempre alugadas – conta Martins.

Ainda por aqueles lados da praia, um dos lugares mais concorridos é o bar do Jorginho, que funciona no local há 39 anos. É verdade que começou bem pequeno e nem de perto lembra o restaurante de dois andares de hoje.

Ano passado, o bar foi o único da região a participar do Comida di Buteco, um dos principais concursos gastronômicos do país. Participaram  com o pastel de bobó de camarão e queijo que segue disponível no cardápio. Este ano, eles estarão outra vez do concurso, previsto para ser realizado entre abril e maio.

Dentre os pratos, o polvo grelhado ao alho crocante com arroz de brócolis e batatas do chef é o xodó dos clientes (R$ 210).  Sócia do restaurante e esposa de Jorginho, a advogada Rosane Bellas considera a praia de Itaipu um polo gastronômico. Segundo ela, a melhoria, ao longo do tempo, do serviço oferecido pelos estabelecimentos, fez com que a frequência da praia fosse se modificando:

– Quando começamos, só tinha seis bares na praia. Com o tempo, a maioria foi se profissionalizando e isso foi atraindo um novo público. No nosso caso, quem quiser vir de salto alto, pode vir. É possível chegar no bar sem passar pela areia, pela rua atrás. É comum fazerem almoços de negócios no nosso segundo andar tendo a praia como cenário.

Detalhe: o bar do Jorginho funciona 100% com energia solar.

Atento ao novo público, o Enseada de Itaipu se uniu à cervejaria Masterpiece e, agora, lá é o único local da praia onde é possível beber cerveja artesanal. No restaurante estão disponíveis oito torneiras de chopes – quatro delas servindo Pilsen e as outras com Dark Lager, Weiss, Session IPA, Blond Goiaba e Sour.

– Muita gente já chega pedindo o chope artesanal. O público da praia está melhorando porque os bares estão mudando. No momento, a gente só perde para o Camarote. Eles são tipo um Rambo – brinca Edmilson da Silva, um dos sócios do Enseada.

 

Camarote, “o Rambo”

Uma casa abandonada no final da praia foi o gatilho para três empresários moradores de Itaipu se arriscarem a criar algo diferente no local. Foram quase dois anos de preparação, até a inauguração, em outubro de 2020, em plena pandemia.

Os sócios nunca haviam atuado no ramo de pousada ou restaurante, mas foram em frente. Na pousada, são 18 suítes, com diárias que variam de R$ 225 a R$ 500, a depender do tamanho e da vista, se mar ou montanha. O restaurante tem 120 mesas em dois ambientes ao ar livre e outras 30 na areia.

– Quando a prefeitura liberou o funcionamento de restaurantes, ainda de forma restrita, nós começamos e foi ótimo ter sido dessa forma. Deu tempo de irmos aquecendo, aprendendo e ajustando a equipe. Desde o início, o Camarote atrai pessoas bem arrumadas, que não estão vindo para a praia, mas para o restaurante – conta Karoline Rocha, relações públicas do local e esposa de um dos sócios.

Segundo ela, a pousada tem ficado lotada, nos finais de semana. Nos outros dias, quem ficar sem vontade de voltar para casa pode arriscar pedir um quarto que deve conseguir. Agora, eles ampliaram o serviço com spa e a opção Day Use que começa com um café da manhã no restaurante.

No cardápio do Camarote, o mix de peixes e frutos do mar na chapa é um dos pratos mais caros (R$ 240). Costela de cordeiro grelhada (R$ 210), Camarão na moranga (R$ 198) Bacalhau assado (185) ou petiscos como pastel de siri (R$ 35) também são algumas das opções do restaurante, que atende somente por ordem de chegada.

Assim, uma dica de ouro que Karoline dá é nunca chegar por volta das 14h. A probabilidade de ficar mais de uma hora na fila, a partir do portão que fica na areia da praia é muito grande. Chegar cedo é a senha.

A colônia de pescadores

os pescadores José de Freitas (E) e Jairo Augusto

Na vila de pescadores em torno da qual Itaipu se “criou” moram, atualmente, 18 famílias. Jairo Augusto, de 52 anos, faz parte de uma delas. Ele conta que muitos venderam suas casas e o local se descaracterizou. A pesca predatória e agressões ao meio ambiente também prejudicaram a profissão. Segundo ele, os 40 pescadores de toda a região pegam cerca de 600 quilos de peixe, por dia, e isso é quase dez vezes menos do que já pegaram, no mar de Itaipu.

Ele se lembra do tempo que até 200 ônibus de turismo paravam na praça, nos finais de semana. Sim, ele é um dos que afirma com convicção que Itaipu é uma “praia democrática”:

– Tinha época que conhecíamos todos que frequentavam a praia. Agora, não conhecemos mais ninguém. Tem muita gente que vem de comunidades do Rio de Janeiro porque o transporte público, com ponto final na praia, facilita – observa Jairo que fica chateado com o lixo que os visitantes deixam na área quando voltam para suas casas.

Na frente da vila, uma amendoeira esparrama sombra. José de Freitas, também pescador e morador, conta que foi plantada pela sua mãe Adélia, a Dona Dica, que fará 90 anos em fevereiro. A árvore, segundo ele, existe há 30 anos.

Pescador, visitante de primeira ou segunda viagem, comerciante, frequentadores, quando se pergunta para um frequentador sua opinião sobre a praia de Itaipu é comum ouvir como resposta: “não tem mar igual e nem praia com um pôr do sol mais bonito”.

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