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Os desafios da praia em Camboinhas, a praia do Uber

Por Redação
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Trabalhadores e banhistas falam da dificuldade de acessar a praia, mas Secretaria de Transporte diz que não há demanda por ônibus no bairro
Design sem nome (52)

As placas dos carros estacionados em Camboinhas, das mais diversas cidades da Região Metropolitana,  mostram que a praia se tornou hoje uma das mais procuradas de Niterói por moradores da cidade e visitantes. A procura explica também o congestionamento permanente que se forma no acesso ao bairro, na estrada para Piratininga, a maior dor de cabeça para quem procura a praia neste verão.  Moradores reclamam da “invasão”, embora seja a praia mais  “restritiva” ou “menos democrática” da Região Oceânica, sem permitir a entrada de ônibus. Os visitantes reclamam da dificuldade do trânsito.

O movimento se justifica. Camboinhas talvez seja a praia mais  “organizada” da orla da cidade,  com estacionamento  operado pela Prefeitura a R$ 5, quiosques e restaurantes espalhados pelo calçadão e sem a disputa de ambulantes na areia. Moradores e visitantes concordam num ponto: “a praia é linda, a água é limpa e sem muitas ondas e ainda tem um belo por do sol.” Nas últimas temporadas, ganhou ainda uma nova atração, ali do lado, a praia do Sossego, com novo acesso e “selo” ambiental.

Camboinhas é a terceira parada da série de reportagens do A Seguir: Niterói sobre as praias da cidade, depois de Itaipu e Itacoatiara. Originalmente, fazia parte da praia de Itaipu, até que o naufrágio do navio Camboinhas, em 1958, deu nome àquele pedaço de mar. A existência do canal da Lagoa de Itaipu também contribuiu para a divisão, estabelecendo acessos diferentes para as duas praias. A urbanização pela Veplan, nos anos 70, com a construção de um condomínio, fez o resto, consagrou o bairro na vida da cidade. Mas vamos “a la playa”…

Trânsito ruim e difícil acesso

Niterói já teve uma só via até as praias da Região Oceânica, e o trânsito intenso sempre fez parte de um domingo de sol na cidade, especialmente para quem vai para Camboinhas. A esperança de melhora estava depositada em obras  de ampliação das vias e na construção do túnel Charitas-Cafubá, porém o tráfego “para-anda-e para” continua sendo motivo de reclamação. O ponto crítico é a rotatória de entrada em Camboinhas, onde centenas de carros disputam a vez de entrar e sair do bairro. O caos no trânsito que se forma na localidade já motivou protestos de moradores.

Desafiador para quem quer curtir a praia, e também para quem trabalha nela. A quiosqueira Marinete Pimentel, 63 anos, está desde 1997 no quiosque 01, o Recanto das Pedras. Ao longo de todos esses anos, seus funcionários, que moravam fora da área nobre de Camboinhas, tinham que descer do 39a em frente à rotatória e pegar um mototaxi na entrada, ou caminhar mil e quinhentos metros até o local de trabalho.

Sem transporte, quem trabalha nos primeiros quiosques caminha pelo menos 1,5 quilômetros. Google maps e arquivo pessoal.

– [Faz falta] com certeza. Andamos de mototáxi e à pé até o ponto de ônibus.

Funcionários domésticos, de pousadas e quiosques não têm ônibus que os deixem próximos do trabalho. Google.

Se um quilômetro e meio parece longe, imagine o trecho de quem trabalha no Quiosque Harmonia, o último da praia. São 2,3 km para ir e voltar do trabalho. Isso pode dar só seis minutos de carro, mas caminhando são 29 minutos.

A motorista Tânia Maria já trabalhou no Recanto das Pedras para Marinete, e se lembra das caminhadas de 1.5km na ida, com o sol ainda nascendo, e na volta, após um dia cansativo, de volta para o ponto de ônibus na Avenida Almirante Tamandaré. Hoje, vai à praia por lazer, com seu carro, e percebe outro problema: “O trânsito dá um nó pra entrar. No trevo, o guarda decide ali quem vai entrar, quem vai para Piratininga. Depois que entra, é tranquilo.”

Vou de Uber

Sem ônibus que deixe próximo e com medo da falta de lugar para estacionar, a solução da agente de turismo Ângela Pereira é dividir um carro por aplicativo com os amigos. Ela diz que Camboinhas é a praia preferida, pela extensão da areia, que permite evitar tumulto e fugir de eventuais caixas de som altas demais.

À direita, Ângela, em dia de praia com as amigas. Arquivo Pessoal.

O problema também é para chegar, com o nó que se forma na rotatória:

– A única questão é o trevo. Mesmo com os guardas, acaba ficando confuso e meio parado as vezes. Geralmente eu vou com uns amigos e vou de carro de aplicativo, então o valor é relativamente tranquilo. Se tivesse um ônibus que entrasse no bairro, seria muito bom, porque facilitaria a locomoção.

Extensão da faixa de areia permite evitar tumulto, diferente de outras praias da cidade. Arquivo pessoal.

Ela elogia a quantidade de serviços por parte dos quiosques, porém percebe que a inflação também alcançou a praia, e fez o preço dos serviços subirem:

– Geralmente eu consumo nos quiosques. Antes, eu usava inclusive a barraca dos quiosques, e com o consumo, o valor dela era abatido.  Agora, eu vi que estavam cobrando também o guarda sol, e o valor aumentou. Então eu comprei uma barraca, e consumo no quiosque mesmo.

Agora, sim, a praia

A tranquilidade da praia é o maior atrativo. No canto direito, o acesso se dá pelas cancelas. A praia raramente está lotada nesta primeira parte, que exige uma caminhada maior do carro até a areia. As chuvas e ressacas recentes destruíram algumas das escadas de acesso à praia, o que permite encontrar espaços vazios na areia. Alguns bares também foram fechados, por segurança, com o deslizamento de terra.

O mar calmo, se não chega a ser tão tranquilo quanto em Itaipu, é mais atraente para crianças do que em Piratininga ou Itacoatiara. E atrai muitas famílias. O serviço de quiosques é organizado.

A maior concentração acontece na metade da praia mais próxima do canal. Ali, a via de acesso é bem à beira bar, com uma distância bem menor até a areia. Nestes pontos, a praia fica mais cheia. Na orla, existem restaurantes bem equipados, à beira mar, como nenhuma das outras praias oceânicas oferece. É possível comer com atendimento de restaurante, peixes, carnes e petiscos, com bebida gelada. “Não tem preço”, comentou brincalhão um frequentador, depois de reclamar dos preços com o garçom.

E ainda tem a praia do Sossego

A Praia do Sossego, entre Camboinhas e Piratininga, sempre este onde está, mas nun ca foi tão procurada pelos visitantes, como está acontecendo agora, depois da reforma do acesso e da certificação ambiental recebida da ONU, concedido às praias que cumpram uma série de conceitos de acessibilidade e sustentabilidade e que estejam preparadas para o ecoturismo. 

A praia agora tem uma escada de pedra (bioconstrução) de acesso à praia com guarda-corpo e áreas de descanso, mirantes de contemplação acessível a cadeirantes e sistema de infraestrutura verde com jardins de chuva como forma de manejo de águas pluviais. Conta ainda com ducha, banheiro e lava-pés. Vale a visita, se não para o banho de mar, pelo menos para contemplar a vista.

A Praia do Sossego conta ainda com uma plataforma de monitoramento participativo, a Coast Snap, que consiste em utilizar fotos tiradas sempre de um mesmo local para monitorar as praias arenosas.  A Prefeitura instalou im suporte para apoio de celular. Basta acoplar o aparelho no suporte e fotografar.  Após fazer a imagem, o visitante ou banhista deve publicar a foto em suas redes sociais (Instagram ou Facebook) com a hashtag #CoastSnapSossegoRJ. Após isso, a equipe do projeto, formada por um grupo de geógrafos de universidades do Rio e de Niterói, encontra todas as fotos nas redes e realiza as análises ao longo do tempo.

Na volta para casa, o mesmo sufoco

Se o dia de praia foi maravilhoso, muitas vezes esticada até o por do sol, um dos mais bonitos da cidade, a volta para casa ainda reserva algum “sufoco”: engarrafamento de novo, para sair de Camboinhas… Aí, a queixa vale também para quem sai de Piratininga, o trânsito embola na rotatória.

A Prefeitura aposta em um projeto de remodelação da rotatória para tentar resolver o problema. O projeto foi apresentado nesta sexta-feira (11), e prevê a remodelação e ampliação do atual acesso ao bairro, com a construção de uma rotatória expandida em uma área que já foi desapropriada pelo município. O trabalho deve durar oito meses, e ainda não há data para começar.

Projeto planeja aumentar pista, colocar ciclovias e faixa de pedestres, entre outras mudanças. Divulgação Prefeitura de Niterói.

Sobre a falta de uma linha de ônibus que passe a rotatória e entre no bairro, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes informou que “não há demanda dos moradores do bairro” para uma linha ali. Apesar das queixas de quem se sente “barrado” na porta,  e da dificuldade dos trabalhadores que entram e saem todos os dias, a  Secretaria informou que “as únicas manifestações recebidas foram no sentido da manutenção das linhas como estão hoje.” Disse ainda que vai avaliar a realização de “uma consulta pública sobre o assunto, e que caso essa seja uma demanda dos moradores, analisará o pedido.” Não deu prazo nem informou se a consulta será restrita aos moradores do condomínio ou aos moradores da cidade que tem a praia como uma opção de lazer.

 

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