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O samba em Niterói trilha uma trajetória importante que se soma ao Carnaval com suas Batalhas de Confete, Banhos de Mar à Fantasia, passando pelas tradicionais rodas, blocos e escolas de samba.
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Sinônimo de resistência, o samba é uma grande manifestação cultural. Em Niterói, a preocupação em cultivar esse ritmo, que não à toa é um dos mais democráticos, revela a vocação da cidade. O resultado é o aumento da procura pelas rodas de samba ou por eventos que tenham como destaque o samba, como festivais e em feiras.
Candogueiro, Quilombo do Grotão, Toca do Gambá são alguns desses locais que pulsam história. São lugares que valorizam os músicos, a velha guarda e resgatam o espírito de um samba de notoriedade. As rodas geralmente são formadas por músicos experientes e o público, ciente disso, responde ao “chamado do samba” com vigor.
As rodas ficam lotadas. As pessoas, de diversas faixas etárias, comparecem em peso, não muito importa a atração. A tradição desses locais já é motivo suficiente de convencimento. Há pessoas, ainda, que atravessam a ponte Rio-Niterói para prestigiar.
O A Seguir: Niterói entrevistou André Diniz, secretário de Economia Criativa e Ações Estratégicas de Niterói, pesquisador e escritor, para analisar a história do samba em Niterói, passando pelos seus principais marcos.
Na conversa, ele fala sobre a tendência das rodas de samba serem frequentadas por um público mais jovem, cuja idade varia entre 20 e 39 anos, e da criação de um festival que celebra isso tudo: o Festival Niterói de Samba, que teve sua primeira edição no ano passado.
Não é de hoje que a cidade tem consolidado sua história com o samba. Além das rodas, cada vez mais reconhecidas, as escolas de samba também têm demonstrado sua potência.
O primeiro desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba em Niterói data do dia 3 de fevereiro de 1957. A campeã foi ninguém menos que a Unidos do Viradouro com o enredo “Quatro grandes feitos da História”.
Em 1982, o escritor baiano Jorge Amado, quando foi jurado do concurso das escolas de samba de Niterói, garantiu que a cidade fazia o segundo melhor carnaval do país.
No ano que vem, Niterói é a única cidade fora do Rio a ter duas escolas de samba que irão desfilar no Grupo Especial.
A SEGUIR: NITERÓI: Niterói tem tradição quando é assunto é roda de samba. A começar pelo Candogueiro e Quilombo do Grotão. As mais faladas em termos de história e popularidade. Mas também há outras como o Terreiro da Vovó, a Toca do Gambá, o Quintal de Niterói e até o Caminho Niemeyer virou ponto de encontro de sambistas com o Festival Niterói de Samba, que contou com as presenças ilustres de Maria Rita e Xande de Pilares. Como você avalia a cena de Niterói no samba desde o início até os dias atuais?
ANDRÉ DINIZ: Conheci o Candongueiro, por exemplo, ainda no começo, em 1989. Tinha 19 anos. Foi na roda de samba do Candongueiro, sobretudo, que construí minha relação afetiva com o universo do samba.
Um dos momentos mais emblemáticos dos primeiros anos do Candongueiro foi quando o compositor Aniceto do Império, partideiro dos melhores, já muito debilitado em sua visão, se apresentou para um público atento e emocionado.
O velho Aniceto de guerra mandava na roda:
“Samba de partido alto
É sapateado
Samba de partido alto
É sapateado…”.
Lembro da atriz Zezé Motta lacrimejando de emoção. Acho que aquela foi a última apresentação do compositor em público. Morreu em 1993. Niterói tem uma história muito impactante quando o assunto é roda de samba.
Na cultura afro-brasileira, a roda é fundamental. Certamente, a roda mais representativa desse legado do samba é a de partido alto. Foi observando a trajetória do samba que o pesquisador Roberto M. Moura apontou a roda como o espaço revitalizador do gênero, unindo o repertório ancestral com as práticas sociais contemporâneas.
A cena de Niterói no samba é uma grande roda de samba. O meu amigo e mestre Luiz Carlos da Vila costumava sair com a seguinte máxima quando o assunto era a roda de samba: “A maior invenção da humanidade é a roda; a segunda é a roda de samba”.
– Conte um pouco da trajetória de Niterói do samba, passando pelos principais marcos.
Um grande marco está acontecendo nesse momento. Em 2026,por exemplo, teremos – creio que pela primeira vez – duas escolas de samba de um município (fora do Rio de Janeiro) no Grupo Especial das Escolas de Samba. A Cubango ainda é a escola de samba com o maior número de sambas de enredo que exaltam contribuições de negros e indígenas para a história do Brasil.
O carnaval em Niterói tem uma história importante desde as Batalhas de Confete, Banhos de Mar a Fantasia; passando pelas rodas de samba, blocos e escolas de samba.
Para você ter uma ideia: O primeiro desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba em Niterói aconteceu no dia 3 de fevereiro de 1957 e a campeã foi a Unidos do Viradouro com o enredo “Quatro grandes feitos da História”.
Em 1982, o escritor baiano Jorge Amado, quando foi jurado do concurso das escolas de samba de Niterói, garantiu que a cidade fazia o segundo melhor carnaval do país.
– O que você observou de mudança em termos de público com a passagem do tempo? Acha que está mais diverso em termos de faixa etária?
Os ensaios técnicos, por exemplo, crescem e batem recorde de público, (com jovens, adultos e idosos) chegando a atrair 80 mil pessoas em uma única noite na Sapucaí. Li um estudo recente dizendo que há pelo menos 112 eventos desse tipo na cidade do Rio de Janeiro.
Dos 112 eventos do tipo mapeados na cidade pelo Instituto Ensaio Rua, mais de 70% surgiram nos últimos cinco anos.
Já um levantamento da Rede Carioca de Rodas de Samba aponta para um público mais jovem: a maioria dos frequentadores (62%) tem idade entre 20 e 39 anos.
– Há pretensão de algum outro projeto voltado para o samba na cidade? O mais recente foi a primeira edição do Festival Niterói de Samba…
O festival é um evento pré-carnavalesco, que ocorre no Caminho Niemeyer. É promovido pela Secretaria de Participação Social, com uma programação diversa com DJs, escolas de samba de Niterói, rodas de samba e shows de Maria Rita e Xande de Pilares. E com entrada gratuita.
No Festival, a Prefeitura disponibilizou pontos de coleta para doação de alimentos não perecíveis para o programa Niterói Solidária que apoia famílias em situação de vulnerabilidade social.
– Na sua opinião, o que é necessário para uma roda de samba de sucesso?
Uma roda de samba da maior responsabilidade.
– Quais são os principais nomes e expoentes (artistas) do samba na cidade?
O jornalista e pesquisador Ari Vasconcelos, escreveu nos anos 1960 uma frase que ficou famosa: “Se você dispõe de 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe de apenas uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha”. E eu escrevo depressa: Ismael Silva.
Aliás, consagrou-se a versão de que a utilização do termo “escola de samba” teria sido uma invenção do cantor e compositor niteroiense Ismael Silva.
– Você mesmo é fundador e comanda uma roda de samba tradicionalíssima na Rua do Mercado, no Centro do Rio. Ano passado contou com presenças imponentes como Moacyr Luiz e Roberta Sá. Como surgiu a ideia desse projeto e o que ele representa para você?
Há cerca de 20 anos, eu promovo rodas de samba, no Rio e em Niterói. Vou te contar uma história. Foi um dos grandes momentos da minha vida.
Certa vez, recebi um recado de Josimar Monteiro, violão de sete cordas da Velha Guarda da Mangueira: “André, mês que vem seu Carlos Cachaça completa 96 anos. A Mangueira não pretende fazer nada para homenageá-lo. Acho um absurdo. Que tal fazermos uma festa aí na Cantareira? Seu Carlos merece…”.
Estávamos em 1998. Já tinha certa experiência pelo circuito do samba e passei a ligar pessoalmente para convidar os artistas. Percebi que Seu Carlos era muito querido pelas pessoas. Conheci seu Carlos em sua casa, no Buraco Quente, lá na Mangueira.
Fechamos a participação de João Nogueira, Luiz Melodia, Moacyr Luz, Dorina, Monarco, Pedro Amorin, Augusto Martins, Wilson Moreira, Noca da Portela, Nei Lopes, Velha Guarda da Mangueira, Nelson Sargento, Guilherme de Brito e Ivone Lara. Confesso que me surpreendi com a adesão. A coisa pegou. A festa foi linda. Cinco horas de samba. Uma loucura.
Quando a van do Seu Carlos ia saindo com a família, me aproximei, agradeci e deixei nas mãos de sua filha Inês a sobra da bilheteria. Missão cumprida. No ano seguinte, no dia 16 de agosto, Seu Carlos completou no céu o panteão de fundadores da Mangueira.
– Em relação às escolas de samba, de que forma esse bom desempenho da cidade (Viradouro, campeã de 2024, e a Acadêmicos de Niterói, se classificando para o Grupo Especial do Carnaval 2026) pode ajudar a captar recursos para outros eventos voltados para o samba?
Em 2026, por exemplo, teremos duas escolas de samba de Niterói no Grupo Especial das Escolas de Samba. É claro que isso representa uma visibilidade enorme para as escolas de samba e as rodas de samba da nossa cidade.
– Qual o impacto econômico para a cidade de um festival do porte do Festival Niterói de Samba?
O impacto econômico é representativo. Outro ponto importante é público mais jovem. O que representa uma renovação do gênero na cidade.
– Ao mesmo tempo que Niterói tem muita variedade de samba, o Rio tem uma cena e a sensação é que tem opção de samba todo dia. Como Niterói pode estimular a migração inversa?
Creio que não é adequado fazer uma comparação. Temos em Niterói uma história potente quando tratamos de carnaval, rodas de samba, blocos e escolas de samba.
Conheço muita gente que atravessa a ponte para assistir os desfiles de rua da Viradouro (na rua Amaral Peixoto) ou passar uma tarde ou noite no Quilombo do Grotão, no Candongueiro, na Toca da Gambá ou no Terreiro da Vovó.
– Niterói dá samba?
Niterói dá muito samba.
Sobre André Diniz
André Diniz é professor, escritor e gestor público, nasceu em Niterói no dia 20 de novembro de 1969.
É filho único de Maria de Lourdes Diniz e Izaquiel Inácio da Silva. Viveu sua infância nos bairros do Caramujo e no centro da cidade. Estudou no primário entre o ensino público e particular, especificamente nos colégios Alberto de Oliveira, Centro Educacional e Externato São Jorge. No ensino médio frequentou os colégios Gay Lussac, Plinio Leite e Itapuca. Todos na cidade de Niterói.
Em 1989, entra na PUC-Rio para o curso de História, onde ganha o apelido de Mangueira – fruto de sua paixão pela escola e por usar constantemente as cores da agremiação.
No ano seguinte faz novamente vestibular e passa a cursar História na Universidade Federal Fluminense (UFF). Se forma em 1995 ao defender a monografia sobre “História e narrativa em La muerte de Artemio Cruz”, livro do escritor Carlos Fuentes. É no começo dos anos 90 que começa sua militância no movimento estudantil.
Em 2002, com Godofredo Pinto prefeito de Niterói, assume a Subsecretaria de Cultura que era ligada à Secretaria de Educação na gestão da professora Maria Felisberta Trindade. Com a recriação da Secretaria de Cultura, continua subsecretário de Marcos Gomes. Em 2004 é eleito vereador pelo PT. Vira líder da bancada, Presidente da Comissão de Cultura e Educação e, posteriormente, Presidente do PT.
Em 2007, assume a Secretaria de Cultura. Na gestão da pasta, cria o Conselho Municipal de Cultura, descentraliza as atividades culturais na cidade, inaugura o Teatro Popular Oscar Niemeyer e implanta uma política de editais. Disputas as prévias do PT para candidatura de prefeito em 2008 com o então Deputado Estadual Rodrigo Neves.
Em 2011, é convidado pela Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, para assumir a chefia do Ministério no Rio de Janeiro e no Espirito Santo. Reorganiza todas as funções do Prédio do Capanema, inclusive dando início ao seu restauro. Seleciona as cidades para receberem as Praças do CÉU (Centro de Arte e Esporte Unificados) e cria um corpo de profissionais para dar suporte aos pontos e pontões de cultura. A pedido do candidato a prefeito Rodrigo Neves, sai do Ministério e volta para Niterói. Perde a eleição de vereador e é nomeado pelo novo prefeito Presidente da Fundação de Arte de Niterói (FAN).
À frente da FAN durante as duas gestões do Prefeito Rodrigo Neves, entre 2012-20, por onde passaram os secretários de cultura Arhur Maia, Marcos Gomes e Vitor de Wolf, reinaugura o Teatro Popular Oscar Niemayer, retoma as atividades da Companhia de Balé, inaugura o Reserva Cultural, uma parceria público-privada – a primeira na história de Niterói -.
Reforma o Museu de Arte Contemporânea (MAC), inaugura a Sala Nelson Pereira dos Santos, inaugura o CÉU (Centro de Artes Unificadas), consolida a política de editais para todas as linguagens artísticas, implanta o sistema municipal de cultura, lança o programa “Niterói: cidade do audiovisual”, cria um histórico circuito de apresentações na cidade de musicistas e músicos renomados no país e inaugura e amplia o fomento aos pontos e pontões de cultura.
Em 2020, com a eleição do prefeito Axel Grael, vira Secretário de Ações Estratégicas e Economia Criativa.
A carreira acadêmica e de escritor se manteve paralela às atividades da vida pública. Seu primeiro livro é resultado das aulas que ministrava de história da música nas universidades Candido Mendes e Universo, o Almanaque do Choro, lançado pela Editora Zahar, em 2003.
Com o êxito do lançamento, a Editora encomendou o Almanaque do Samba que figurou durante semanas entres os mais vendidos na lista do Caderno B, suplemento cultural do Jornal do Brasil.
É coautor das biografias infanto-juvenis de Pixinguinha, premiada como altamente recomendável pelo Instituto Nacional do Livro, Braguinha, Noel Rosa, Paulinho da Viola e Adoniran Barbosa, proferiu palestras durante dois anos sobre música e história do Brasil em quase todos os Estados do país. Foram centenas de palestras e conferências em universidades, escolas e espaços públicos.
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