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O que a Covid mudou em nossas vidas, em dois anos?

Por Redação
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Moradores de Niterói estão entre os que mais respeitaram as medidas sanitárias e a vacinação
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Paciente recuperado nos primeiros meses da pandemia. Arquivo

De um dia para outro, a vida mudou, radicalmente. Há dois anos, nesta época de carnaval e fim de verão, o Brasil acompanhava o noticiário da China e da Europa assustado com o avanço do Coronavírus no mundo. A chegada da doença era questão de tempo. Aconteceu no dia 26 de fevereiro. Na sauna do Country Club de Niterói um brasileiro recém-chegado da Itália contava o drama que se espalhava com a Covid- 19: a explosão dos casos, a lotação dos hospitais, a falta de protocolo para o enfrentamento da doença, a saturação dos pulmões, a morte sem oxigênio. Poucos dias depois, seria o primeiro morto da pandemia na cidade.

Nada voltaria a ser como antes.  Não havia medicamento capaz de deter a Covid. O desespero dos médicos na linha de frente mostrava os riscos da doença. Era preciso aprender a cada atendimento. Que remédio usar, quando aplicar a sedação, qual a hora de intubar o paciente? Um desafio para o mundo.  No Brasil, foram mais 28,6 milhões de casos e 648 mil mortes, desde o início da pandemia. Nos grupos de risco, considerando pessoas idosas e pessoas com doenças crônicas, as comorbidades, as chances de recuperação, nos casos graves, eram pequenas, menos de 50%.

Os agentes verificam a temperatura de uma mulher usando uma máscara protetora depois que ela desce de um ônibus público. Foto Gustavo Stephan

Não é uma gripe

Nunca foi uma gripezinha, como chegou a declarar o Presidente Jair Bolsonaro, o porta-voz da desinformação, mais tarde investigado por uma CPI e responsabilizado pelo número de casos e mortes no Brasil. A desorganização do Ministério da Saúde e a decisão do Governo Federal de promover tratamentos sem eficácia, como a Cloroquina, fizeram aumentar o número de mortes. Pazuello, o general tornado Ministro da Saúde, virou sinônimo de incompetência e do boicote às recomendações da OMS. Faltavam leitos, faltavam UTIs, faltou oxigênio…

O isolamento social era a melhor proteção, quando ainda se sabia muito pouco sobre a doença. Era preciso quebrar o contágio, diminuir a transmissão da doença. A OMS recomendava o uso de máscaras e a limpeza das mãos com álcool em gel. Governos estaduais e prefeituras lideraram as ações, diante da falta de uma orientação científica e sensata do Governo Federal.

Niterói foi uma das primeiras cidades do Brasil a estabelecer normas de isolamento e a restrição de atividades, como a suspensão das aulas e restrição de atividades não essenciais determinada pelo então Prefeito Rodrigo Neves.

Pouco tempo depois, dia 11 de maio, a cidade entraria em Lockdown, seguindo a orientação de um comitê de científico, formado por especialistas da UFF, UFRJ e da Fiocruz.

Restrições fecharam restaurantes, e delivery teve um boom. Foto: Livia Figueiredo.

As imagens da cidade eram eloquentes, conforme os registros do fotógrafo Gustavo Stephan para o A Seguir: Niterói. Ruas vazias, sanitização, lojas fechadas, controle de público, máscara… a cidade trancada, mantida pelo serviço de delivery.

Foto: Gustavo Stephan

Emergência nos hospitais

A evolução da pandemia aparecia nos gráficos. O Painel da Covid passou a fazer parte da vida de todos. O monitoramento dos indicadores apontava o estágio de alerta, de acordo com o número de casos, mortes e a ocupação dos leitos hospitalares. No meio do ano, a primeira onda da Covid se mostrava devastadora, com a superlotação dos hospitais da rede do SUS e do sistema privado.

A organização dos sistema de Saúde foi uma boa notícia para a cidade. Além da rede pública existente, a Prefeitura foi rápida na construção de um hospital dedicado especialmente para a doença, o Hospital Oceânico. Nas grades do hospital, fitas descoloridas mostram a gratidão de mais de mil pessoas que se recuperaram da Covid, algumas depois de meses de UTI. O hospital hoje foi incorporado à rede pública.

Hospital de referência contra Covid manteve grade com fitas, para cada paciente que se recuperava. Foto de leitor

Os hospitais particulares também deram suporte para a cidade – e também para cidades vizinhas, cerca de 40% dos pacientes internados. Niterói hoje conta com o CHN, da rede Dasa, o Hospital Oceânico, o Hospital de Icaraí e outros serviços confiáveis. Niterói jamais viveu a emergência que se viu no Rio e em outras capitais de hospitais com doentes nos corredores, sem atendimento.

Niterói registrou 32.312 casos e 1.118 mortes em 2020, de acordo com o Painel da Covid na Secretaria Municipal de Saúde.

UTIs e enfermarias ficaram cheias na maior parte da pandemia. Arquivo

As quatro ondas da Covid

A Covid em Niterói, de certa forma, antecipou a curva que a doença registraria em todo país, registrando ondas e picos da doença antes que outras cidades, talvez pelo aparecimento da doença na cidade logo no início da pandemia. Ou pela proximidade com o Rio e outras cidades da região Metropolitana.

Foram quatro ondas da Covid. A primeira em 2020, assustadora, pela falta de conhecimento para o enfrentamento da doença e alta taxa de mortalidade. Os gráficos mostram a evolução do número de casos, ao longo do período.  O mesmo comportamento aparece nas estatísticas referentes ao número de mortes.

Gráfico SIGeo de número de casos, óbitos e vacinados. Atualização 25/02.

Depois do lockdown, em maio, havia a expectativa de  queda da transmissão. Mas nem Niterói, nem o Rio, nem o Brasil conseguiram ter em momento algum controle da doença. Toda a semana a Prefeitura fazia lives na expectativa de que os indicadores saíssem dos estágios de risco mais graves. Mas jamais saímos do amarelo 2, passamos longe do verde. Era o que os especialistas chamavam de platô, um achatamento da curva de casos, num patamar muito elevado, que indicava a permanência do vírus em circulação. No final do ano, em novembro, a doença tem um novo pico.

Dois mil e vinte e um começa com a notícia do desenvolvimento das primeiras vacinas contra a doença. A Coronavac, distribuída pelo Butantan, e a AstraZeneca, a cargo da Fiocruz, foram as primeiras oferecidas no Brasil. Mais tarde, a Pfizer. Depois de consistente boicote do Governo Federal, que atrasou em pelo menos três meses o início da vacinação no país.

A demora permitiu que novas variantes da doença, provocassem uma nova onda de casos e mortes. Primeiro, com a variante brasileira, P 1,  surgida em Manaus, que produziu cenas dramáticas no Amazonas e alguns registros criminosos, segundo a CPI. Depois, com a entrada da Delta, na metade do ano. Foi o ciclo mais mortal da doença, apesar do conhecimento já adquirido no tratamento médico-hospitalar e do início da vacinação.

Uma prova de fogo para o novo Prefeito, Axel Grael, logo no início de seu mandato. Mais lockdowns, comércio e escolas fechados e novamente o medo. E muitas perdas. Niterói perdeu na pandemia 2.671 moradores, gente próxima, personalidades queridas, como o ator Paulo Gustavo, que dá nome à antiga rua Moreira César, para não nos deixar esquecer o que passamos.

Ator Paulo Gustavo foi uma das vítimas da covid. Ele recebeu diversas homenagens póstumas, como as duas estátuas colocadas no Campo de São Bento. Arquivo

Niterói registrou 26.816 casos e 1.435 mortes em 2021. A diferença de um ciclo para outro foi a taxa de letalidade da doença: passou de 3,18 em 2020 para 5,35 no ano seguinte.

Vacina contra a Ômicron

A boa notícia de 2020 foi a vacinação. Depois de um início confuso, em que faltaram vacinas, a população abraçou a ciência, apesar da campanha de desinformação do Planalto questionar a eficácia das vacinas e levantar riscos nunca demonstrados, como o de virar jacaré.

Ninguém virou jacaré e a vacina salvou muitas vidas. As pessoas festejaram a resposta da ciência e em Niterói a adesão foi invejável:  91,8% da população tomaram a primeira dose, 100% do grupo com mais de 18 anos; 83,4% tomaram as duas doses 99,9% do total.

Vacina demorou para chegar. Arquivo

Parecia, no fim do ano, que a vida poderia voltar ao normal. Ou perto disse, chegar finalmente ao novo normal. Pela primeira vez, as taxas de contágio caíram de forma consistente. Nas festas de fim de ano, os hospitais de Niterói não tinham mais que uma dúzia de doentes internados em leitos ou UTIs nas redes pública e privada. Mas não foi assim. Uma nova variante, surgida na África do Sul, ameaçava novamente o mundo, por seu poder de transmissão. Era cinco vezes mais contagiosa que as versões anteriores do Coronavírus. A Ômicron infectou o Brasil em menos de um mês.

A vacina evitou o pior. A rapidez de contaminação foi tanta que não havia testes nem postos de saúde para testar todos os casos suspeitos que se apresentavam. Em apenas dois meses de 2022 foram registrados mais casos do que em todo o ano passado. Apesar da grande procura pelos ambulatórios, o número de internações não foi tão expressivo.  A proteção da vacina fez com que os efeitos da Ômicron fossem menores que os de outras variantes.

Nos hospitais, a maioria dos pacientes não tinha completado o ciclo de vacinação, com as duas doses, eram muito idosos ou tinham comorbidades graves. Pela primeira vez, as crianças sofreram com a Covid e foi preciso ampliar a vacinação até cinco anos de idade.

Niterói teve 12.550 casos de Covid este ano, em apenas dois meses. Foram 48 mortes. Mas a taxa de letalidade que chegara no ano anterior a 5,35%, desta vez, com a vacina, ficou em 0,38%.

Covid será endêmica

Nos últimos dias, os epidemiologistas concordam que a Ômicron está perto de cumprir seu ciclo. Com a mesma rapidez que se alastrou, começa a declinar. Em Niterói e no estado do Rio, de uma forma mais ampla, os indicadores apontam baixo risco de contaminação. Em Niterói, hospitais voltaram a ter baixa taxa de ocupação. A perspectiva é que, depois de dois anos, a Covid deixe de ser uma pandemia para se tornar endêmica. Uma doença que existe como outras e que a medicina sabe como enfrentar, com vacina e nos últimos dias, com o anúncio de uma geração de remédios capazes de conter os efeitos do Coronavírus.

A tendência é que as cidades voltem a funcionar sem as restrições dos últimos anos, como já se começa a ver em diversas cidades do mundo, como Londres, por exemplo, que alcançou altas taxas de vacinação. No Brasil, ainda não dá para ter carnaval, os números ainda são altos. Mas, brevemente, máscaras, controle de público, distanciamento devem ficar para trás. Mesmo assim,  decididamente não seremos os mesmos de antes. Mudamos nossos conceitos sobre moradia, home-office, lazer e entretenimento, gastronomia, viagens… e sobretudo despesas, castigados por uma crise que deixa perto de 14 milhões e brasileiros desempregados e outros milhões com trabalho precário.

Como a vida no Brasil costuma começar depois do carnaval, é o caso de esperar que 2022 seja finalmente o ano do novo normal.

 

 

 

 

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