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Niterói convive com ‘preços de guerra’ na venda de alimentos

Por Redação
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Preços explodem nos supermercados e deixam carrinhos vazios e consumidor desorientado
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Os preços nos supermercado: difícil achar qualquer coisa por menos de R$ 5. Foto: leitor

É como se fosse uma grande onda, uma tsunami. Os preços aumentam sem que seja possível encontrar uma razão. Seca, entressafra, alta do dólar, preço do petróleo, guerra na Ucrânia… As explicações se misturam, mas não explicam como os preços podem subir tanto, nos alimentos, por exemplo, bem acima dos 10% da inflação anual. Até a banana, que já foi símbolo de preço baixo no Brasil, já apareceu nas feiras e mercados a R$ 8, o quilo.

É preciso ter um consultor econômico para entender a lógica dos preços. Que a gasolina a R$ 8,299, o litro,  na Estrada da Cachoeira impacta os transportes e toda a atividade econômica. E que o dólar atinge produtos importados, como o azeite, que chega a R$ 30 reais, 500 ml.  Ou o trigo que encarece o pão e as massas.  E que a demanda global pela carne faça o filé mignon ser vendido acima de R$ 70… E que as chuvas de Petrópolis fizeram o preço do chuchu que era mato na serra chegar a R$ 6, o quilo. Mas, diante do caixa, a constatação é uma só: o orçamento ficou pequeno diante da alta dos preços.

Banana prata agora vale ouro. Especialista explica o que causa o aumento de preços nos alimentos. Foto de leitor

Não importa em que bairro seja o mercado, em qualquer região de Niterói é possível sentir o baque. A dona de casa Mara Lagoas foi ao supermercado Pomar, em Icaraí, na semana passada, e pagou R$ 4,80 na banana maçã. Voltou nesta segunda-feira (14), e o quilo da fruta subiu mais de um real, e ela teve que pagar R$ 5.90 pelo mesmo peso da semana anterior. Ela não entende o motivo do aumento repentino, e deduz que deve ter sido o aumento da gasolina.

Aluna de mestrado, Maíra Ingrid mora com o namorado em São Lourenço, e os dois praticamente não comem carne. Mesmo assim, boa parte do salário dos dois ficou no mercado em fevereiro, pois fazer a feira ficou muito mais cara:

– Tem sido frustrante. Tenho a mesma renda desde 2019, então para mim é fácil perceber que o carrinho cada mês está mais vazio e o poder de compra bastante reduzido. Moro com meu noivo que é vegetariano e percebemos que está cada vez mais difícil para nós nos alimentarmos com qualidade, pois tanto os produtos de origem animal quanto os vegetais estão com preços exorbitantes.

O insubstituível arroz e feijão ficou mais salgado. Foto de leitor.

A vendedora Rita de Cássia ainda tenta escolher os dias da semana para fazer as compras quando há promoção, nos mercados do Engenho do Mato. Mesmo assim, ela diz que muita coisa tem ficado de fora do carrinho:

– A gente reduziu a quantidade de tudo. Mas  legumes e frutas  a gente só compra o que está no preço menor.

De onde vem essa alta de preços?

José Silvestre (66) é diretor adjunto no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, (Dieese) e explicou ao A Seguir: Niterói como Rússia, alta do dólar e o preço do barril do petróleo impactaram nos preços dos alimentos em fevereiro.

– Então, primeiro, para contextualizar essa história da inflação, vamos voltar um pouco no tempo, em agosto de 2020. A partir daí a inflação começou a acelerar, a ponto de em setembro de 2021 bater nos dois dígitos. Naquele momento, já havia alguns produtos contribuindo para esse aumento, que foram a energia elétrica, os combustíveis e, também, alguns produtos alimentícios. Desde então, a inflação se manteve nesse patamar.

Segundo o especialista, no começo de 2022, o Governo Federal esperava que a inflação deste ano ficasse em torno de 5,5%. Mas aí, veio o conflito na Ucrânia e novo aumento no barril de petróleo. Situações de guerra lá fora que fazem os supermercados, depósitos de gás e postos de combustíveis virarem fronts de batalha:

– Além do impacto no mercado de petróleo internacional, o conflito impactou o consumo de produtos daqui; A Rússia, por exemplo, é um grande exportador de fertilizantes para o Brasil, quando a Rússia aumenta os preços do fertilizante, aumenta o custo da produção aqui.

Chuva na região serrana aumentou o preço de legumes e hortaliças. Mas essa não é a única explicação para a alta nos preços. Foto de leitor.

Outro fator que pesou muito foi a alta nos combustíveis. Segundo o especialista, embora a Petrobrás e o Governo Federal tentem culpar o ICMS pelo valor elevado nos derivados de petróleo aqui, é a política da própria estatal que vem fazendo o consumidor brasileiro pagar uma conta alta, que só beneficia investidores estrangeiros, ao invés do interesse nacional. Silvestre explica:

– Essa inflação do mês de fevereiro, de 1,01%, aconteceu muito em razão da política de preços adotada pela Petrobrás, desde 2016, que seguem aquela política de paridade dos preços internacionais, e acaba aumentando os combustíveis aqui.

Isso significa que, toda vez que o petróleo aumenta de preço lá fora a Petrobrás aumenta os preços aqui, e isso impacta no bolso dos consumidores brasileiros. Ele continua:

– Esse aumento tem impacto não somente nas pessoas que têm carro. Ele tem um efeito em praticamente todos os preços na economia, porque no Brasil mais de 60% dos bens são transportados por via terrestre. Então, o aumento dos combustíveis impacta no frete.

Em 2016, antes dessa política de pareamento dos preços dos derivados do petróleo, um botijão de 13kg representava, aproximadamente, 6% do salário mínimo, hoje representa 11%.

A tendência não é melhorar

Segundo o especialista, dois fatores seriam fundamentais para frear os efeitos da inflação nos alimentos: o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia e também a revisão por parte da Petrobrás da atual política de pareamento de preços de produtos derivados do petróleo. Em bom Português, isso significaria a diminuição do preço nos fertilizantes e também o fim dos constantes aumentos nos combustíveis e no gás de cozinha, cada vez que o preço do barril de petróleo aumentasse.

– Uma das formas de atenuar o aumento dos preços seria uma alteração dessa política de paridade ao dólar. O que acontece que essa gestão da Petrobrás adota essa política que prioriza o lucro de dividendos para os acionistas internacionais, ao invés do interesse internacional. Na ponta do lápis, quem paga esse lucro que vai para fora são os trabalhadores e consumidores brasileiros.

O último aumento anunciado pela estatal, no dia 11, ainda não entrou no IPCA. O resultado disso só irá aparecer no índice de março. Segundo o professor Silvestre, a expectativa é que a inflação continue alta no mês que vem. O Governo Federal tenta aprovar o congelamento no Imposto sobre Circulação de Mercadores e Serviços (ICMS), com o o argumento de que isso seguraria o preço dos combustíveis nas bombas dos postos. Segundo Silvestre, a tentativa é puro teatro, e além de não resolver o problema, poderá causar outros:

– Essa tentativa do governo Bolsonaro de congelar o ICMS, primeiro é uma tentativa para responsabilizar os administradores governamentais na alta dos preços, o que não é verdade. Isso pode causar um impacto pequeno nos preços [dos combustíveis], mas pode causar um impacto grande na economia dos estados. E se a Petrobrás continuar com essa política, isso não vai resolver o aumento dos combustíveis.

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