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Mostra do fotógrafo Vicente de Mello chega em Niterói com obras inéditas

Por Livia Figueiredo
| aseguirniteroi@gmail.com
Fotógrafo reúne 32 fotogramas recentes produzidos sem câmera e sem negativo. Curadoria é do poeta Eucanaã Ferraz
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O artista, que viveu em Niterói por 20 anos, inaugura a mostra “Monolux”, em versão expandida na cidade. Foto: Zuleika de Souza

A exposição “Monolux” do fotógrafo Vicente de Mello, que viveu em Niterói por 20 anos, chega com obras inéditas, em versão ampliada, na cidade. Nesta sexta-feira, 3 de junho, o Sesc Niterói inaugura a mostra com 32 fotogramas recentes e inéditos  produzidos pelo artista sem câmera e sem negativo, através do contato de objetos com a superfície do papel fotográfico.

O poeta Eucanaã Ferraz assina a curadoria da exposição e participará da abertura que contará, ainda, com visita guiada também com a presença de Vicente de Mello. A mostra reúne imagens únicas, produzidas nos últimos seis anos, em um processo que remonta a origem da fotografia e vai na contramão da grande reprodução de imagens digitais dos dias atuais.

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Em conversa com o A Seguir: Niterói, Vicente de Mello explica que o título da exposição, “Monolux”, remete à lembrança do nome de um telescópio japonês de uso amador dos anos 1970. Também tem relação com um aspecto físico, pois para imprimir os fotogramas, uma única fonte de luz é utilizada: a lâmpada da cabeça do ampliador.

Confira os melhores trechos da conversa:

A SEGUIR: NITERÓI: Uma das propostas da mostra é refletir sobre a relação entre fotografia e ficção científica, ao promover a releitura de objetos domésticos. Essa releitura dos objetos chega em um momento em que a população estabeleceu uma nova relação de tempo/espaço com a casa devido à pandemia. Nesse contexto, a mostra ganha uma nova camada?

VdM: A série MONOLUX foi pensada exatamente nesta linha tênue entre objetos reais e suas abstrações formais. Quando nas imagens as formas e volumes desaparecem como referência, tudo se transforma e remete à perspectiva que tivemos, estando em casa, para nos proteger de algo não tátil, mas de extremo perigo. Também está relacionado à ideia de que nem tudo o que vemos pode ser aquilo que nos parece, deste modo as imagens da série são a síntese do invisível, pois somente o “corpo ” dos objetos impressos sobre o papel fotográfico significam algo real e a imagem toda por si só é este enigma de extremas indagações.

No total, quantas obras serão expostas?

– São 32 fotogramas no formato 50 x 60 cm, fotografias realizadas sem negativos e, por isso, irreprodutíveis, ou seja não consigo fazer outra idêntica.

Astro Nau – Série Monolux, de Vicente de Mello

O artista explica que os materiais utilizados têm uma relação particular entre si: objetos simples do cotidiano, como madeiras, álbuns, câmeras, slides, porta-retratos, tampinhas de garrafa e até nós de aço da operação cardíaca de seu pai, são utilizados para criar as formas gráficas das imagens, em obras que fazem não só uma homenagem à fotografia, mas também à história da arte, com fotogramas em alusão a artistas como Lasar Segall (1889 -1957), Oscar Niemeyer (1907-2012), Joaquim Torres Garcia (1874-1949) e Édouard Manet (1832-1883).

A exposição no Sesc Niterói chega 22 anos depois de sua primeira mostra individual na cidade, no MAC, em 2010, quando cobriu todas as paredes do salão principal do museu com lambe-lambe, enquanto um duo de trombonistas tocava para o visitante. “Monolux” foi apresentada no MAM- RJ, em 2018, e foi ampliada durante os anos seguintes. Agora, a mostra chega ao Sesc Niterói em outra configuração de montagem para o público.

Como é seu processo criativo? Houve algum critério de escolha na seleção dos objetos ou foi algo mais orgânico?

– Todo o dia e o dia todo estou vendo referências na minha frente, em situações mais diversas, as “coisas” se apresentam e eu as aceito. Juntando a este fato, minhas anotações, prints e recortes, vou moldando o estrato visual das séries, procurando não deixar para o lado mais óbvio da concepção, negando e aceitando tudo em uma decupagem detalhada.

Quando sinto que a estrutura da mensagem imagética está bem, começo as experiências. Assim, em todas as minhas séries, dos objetos escolhidos, até a sua utilização no meio o qual vou finalizá-los (digital ou analógico), o processo é longo e maduro.

Metalux – Série Monolux, de Vicente de Mello

Você diz que ao reproduzir digitalmente as imagens dos fotogramas, todo mundo terá acesso, com a difusão das redes sociais, enquanto o original não pode ser duplicado. Qual a importância da ocupação de espaços culturais, principalmente em uma era em que há uma supervalorização do que é mais acessível e mais imediato? 

– Há uma ideia no universo da arte que é a “experiência do olhar”, você só poderia reconhecer a coisa real, se você as vivenciasse. Deste modo, para se entender MONOLUX, não adianta ver sua reprodução em uma tela, não adianta ver arte, em todos os seus aspectos, reduzidos a um retângulo iluminado. Os centros culturais, são polos difusores de ideias, aquelas que não se imagina poder existir e é esta a experiência: vendo um original você se encontra com algo que lhe toca profundamente.

Por fim, por que “Monolux”?

– Mono significa um só, e Lux vem da expressão latina Fiat Lux (faça-se luz). É uma palavra criada e também o nome de um telescópio doméstico japonês, que remete ao ato de realizar um fotograma em laboratório, quando se acende a luz do ampliador fotográfico diretamente sobre o papel, sem nenhum obstáculo de filtros ou negativos, deste modo uma luz única é projetada e realiza o ato de queimar os grãos de prata do papel.

SERVIÇO

“MONOLUX”

Abertura e visita guiada: sexta-feira, 3 de junho, das 14h às 17h

Data: 04/06/22 a 06/08/22

Horário: Terça a sábado das 10h às 16h

Local: Sesc Niterói

Endereço: Rua Padre Anchieta, 56, São Domingos.

 

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