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Marcas da escravidão africana em debate em Niterói

Por Por Amanda Ares
Fotógrafo brasileiro Cesar Fraga conversou com o A Seguir: Niterói sobre a mostra que apresentará na Semana de Africanidades no La Salle
Expedição procurou resquícios do período escravista no continente africano. Fotos: Cesar Fraga

O dia 13 de maio de 1888 encerrou o período escravagista no Brasil, ao menos papel. Mas ficaram muitas marcas, aqui e também nos países de onde foram trazidas 9 milhões de pessoas escravizadas. O fotógrafo carioca Cesar Fraga foi atrás de vestígios dessa história, registrando os lugares onde a diáspora africana começou. Na exposição “Sankofa – Memória da Escravidão na África”, que ele apresenta no dia 17 de maio na Semana de Africanidades da Universidade La Salle, Fraga mostra as marcas da escravidão nos lugares e na alma das pessoas nos países que visitou.

– Sankofa significa que, se você deixou algo importante no passado, você não pode seguir adiante sem voltar para buscar. Foi isso o que eu fui fazer lá – disse o fotógrafo.

Veja trechos da entrevista ao A Seguir: Niterói:

Você tinha uma agência de publicidade e uma carreira em Marketing. Como foi parar na fotografia documental e artística, em um projeto de resgate da memória da diáspora?

Cesar Fraga: Sou um afrodescendente que sempre foi curioso pra entender como é que vive meu primo que ficou do outro lado do oceano há 150 anos atrás. Uma coisa que me incomoda profundamente é a falta de referência que a gente tem da África. As referências negativas chegam o tempo todo, mas e as positivas?

Então, em 2012 eu criei um projeto em que eu ia percorrer os 9 países de mais relevância no tráfico de escravos para o Brasil. Passei dois anos captando recursos para realizar, e consegui viabilizar na última semana. E fui com o historiador Maurício Barros de Castro, que foi quem fez os textos do livro. Publiquei em 2014, e em 2015 fui selecionado no edital da Caixa Cultural para fazer a exposição Sankofa – Memória da Escravidão na África, na Caixa Cultural em dezembro de 2016.

Fotos da exposição Sankofa. Acervo pessoal do fotógrafo Cesar Fraga

Foi sua primeira viagem ao continente africano?

– Eu morei na cidade do Cabo em 2009, depois de ter perdido tudo na crise de 2008. Tinha uma agência de publicidade. Aí tirei um ano sabático. Eu sou designer, então sempre fotografei, mas com os olhos dos outros. E nessa viagem, em 2009, desenvolvi meu olhar.

Quais aspectos dessa memória remanescente você quis registrar?

– Eu tinha três focos: memória material (o pelourinho, os objetos), imaterial (religiosidade, o sagrado) e a vida contemporânea, que é essa visão de como é a vida do meu primo que ficou lá.

O nosso apelo era muito legal… Sankofa significa que, se você deixou algo importante no passado, você não pode seguir adiante, você tem que voltar e buscar. Eu ouvi isso da boca de um guardião do templo dos Ashanti, em Gana… Eu ouvi isso e percebei que era o que eu estava fazendo ali, e comecei a chorar. Ficamos abraçados, esse senhor e eu, como se fossemos parentes.

Afinal, existem marcas do período escravista similares aos que vemos no Brasil?

– No primeiro dia, fomos a Cabo Verde, e encontramos um pelourinho, similar aos pelourinhos que temos aqui no Brasil, mostrando que essa memória estava viva lá. E ele estava bem preservado. Mas faz parte do cotidiano das pessoas, como o pelourinho de Salvador.

Fotos de Cesar Fraga do pelourinho de Cabo Verde

O interessante é que ele fica em frente à praia, onde embarcavam as pessoas escravizadas, e hoje nessa praia há pescadores, criança brincando na areia… a vida seguiu.

Na exposição, tem uma foto muito bonita de duas crianças em uma praia, no Togo. Essa praia tem alguma história relacionada ao embarque de escravos?

– O tráfico de pessoas era o motor da economia mundial. Era fonte de riqueza para os bancos, o ciclo do açúcar, do ouro, do café, e tudo no Brasil se deu por causa disso. Essa praia onde essas duas crianças estão, eu não posso te afirmar que era um porto de escoamento de escravizados, mas é muito provável.

E o aspecto imaterial dessa memória? Você conseguiu encontrar algum vestígio?

– Quando eu estava em Savalu, no interior de Benim, paramos na beira de uma estrada onde teria sido montado um entreposto de escravizados, por onde as pessoas passavam para serem vendidas em outros lugares. Percebe-se que era uma logística muito organizada. Estávamos em um desses pontos, que eram umas árvores na beira da estrada… tinham uns tecidos manchados, um material bem gráfico… e chegou um casal com alguns animais, indo fazer um ritual, e eles nos deixaram fotografar. São fotos muito plásticas, que eu gosto muito.

O que pra muitos é bizarro, no sacrifício de animais na religião, é um momento sagrado, e feito com muito cuidado (pelas pessoas). Eles tratam o animal com muito respeito e muito cuidado, encostam a testa na testa do animal, conversam com ele e explicam para o animal o que está acontecendo.

Os animais estão presentes em diversas celebrações. Na imagem, um guardião do Tempo das Píton. Foto: Cesar Fraga

Outro dos nossos focos também eram brigas entre etnias rivais. Muitos dos escravizados vendidos para as Américas eram prisioneiros de guerra entre etnias. Então, fomos procurar o registro dessas guerras. Visitamos Abomé, capital do Império Daomé, que era o mais poderosa da época… Chegamos pra visitar o palácio dos antigos imperadores.

Aí, chegamos lá, e não podíamos fotografar. Tentei negociar, eu mandava o argumento de que meu sangue era o mesmo sangue que o deles. Às vezes rolava, mas dessa vez, não. Então, apareceu uma procissão colorida de mulheres, eu comecei a fotografar. Quando terminei, o historiador que me acompanhava me procurou desesperado perguntando se eu sabia quem eram essas mulheres que eu tinha acabado de fotografar. Elas eram as mulheres devotas e sacerdotisas de Dan, e aquela celebração só acontece a cada 24 anos. E nós estávamos lá, bem no momento certo.

Sacerdotisas de Dan, em celebração que só acontece a cada 24 anos em Benin. Foto: Cesar Fraga

A expedição rendeu um livro e uma exposição. Que impacto você espera causar nas pessoas ao expor essa história?

– Apesar de ser afrodescendente, antes desse projeto, eu não era muito envolvido com essa história. Quando voltei, fiz uma palestra em uma escola pública, e no final veio uma menina dizendo que ela gostou muito da palestra, porque ela mostrava as origens da religião dela, porque os amigos não respeitavam sua religião. Eu ia sortear dois livros meus, e acabei dando um pra ela. Perguntei se ela se considerava afrodescendente, e ela ficou reticente…

Perguntei para a turma: quem aqui se considera afrodescendente? E quase ninguém levantou a mão. E fiquei muito triste, porque ninguém sabe ou tem vergonha de dizer que os antepassados vieram da África.

Aí viajei, fiz outros projetos, e depois de muito tempo, recebi um e-mail da professora dessa escola dizendo que as crianças tinham muita dificuldade de reconhecer suas origens afro, afro-brasileiras, mas que depois da exposição eles passaram a debater o assunto, fizeram a própria pesquisa e montaram a própria exposição. Quando ela disse isso, eu chorei igual criança.

Porque, realmente, quem quer dizer que é parente daquele cara que veio forçado pra cá, foi acorrentado, maltratado, nunca pode ter nada, era considerado feio, horroroso, a religião era ruim… ninguém quer. Agora, quando você descobre a outra face dessa história, aí você começa a gostar e a querer se identificar com essa história. Eu fiquei muito feliz com isso, e fico emocionado quando falo nesse assunto.

Capa do livro O Outro Lado, resultado da expedição de retorno ao continente africano. Se encontra esgotado, sem previsão de nova edição. Reprodução

Livro, série e evento

As belas imagens da expedição de retorno de Cesar ao continente africano estão no livro “Do outro lado”, com fotos de Fraga, e texto dos historiadores Ana Maria Gonçalves e Maurício Barros de Castro, que vendeu três mil cópias e se encontra esgotado. Fraga diz estar empenhado em fazer uma reedição em alguns países, e que o projeto está em processo de captação de recursos.

A Netflix produziu uma série documental de 10 episódios a partir do roteiro seguido pelo fotógrafo, chamada “Sankofa – A África que te habita”. Nela, depoimentos de outros especialistas na história do continente e convidados ilustres como a atriz Zezé Motta aprofundam a pesquisa de Cesar e mostram toda a beleza e história do continente africano, e diversos aspectos que o ligam ao Brasil.

Cesar tem presença confirmada na Semana de Africanidades, da Universidade La Salle, que acontece entre os dias 17 e 21 de maio. O fotógrafo irá fazer palestra no primeiro dia do evento sobre sua expedição e as descobertas que fez com seu trabalho.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no link bit.ly/3africanidades

Também é possível conferir a exposição virtual Sankofa – Memória da Escravidão na África através do link https://cartola360.com/panoramas/20161104-Sankofa/

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