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Inflação nas alturas leva consumidor a mudar a forma de fazer compras no mercado em Niterói

Por Livia Figueiredo
| aseguirniteroi@gmail.com
Ficar de olho nas promoções e mudar rotina de compras são algumas das estratégias que ajudam a contornar a situação
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O quilo da maçã pode sair a mais de 10 reais o quilo em Niterói: deu a louca nos preços. Foto: Livia Figueiredo

Com os preços nas alturas, porções de paciência, um bocado de  atenção, algum jogo de cintura e uma pitada de criatividade são os requisitos necessários, atualmente, para encarar uma compra nos supermercados em Niterói.

Uma simples ida ao mercado revela que o poder de compra dos brasileiros reduziu drasticamente. A sensação é quase unânime: está tudo caro, para além do normal, nos supermercados. Ficar de olho nas promoções e aceitar mudar a rotina de compras podem ajudar a contornar a situação.

O A Seguir: Niterói mostrou, no início do mês, que um simples combo como café com leite, pão e manteiga pode sair a R$40. Para não ficar sem os nutrientes, a solução é substituir a mercadoria habitual por outra de valor nutricional equivalente. Para muitos, a saída tem sido optar por “sub produtos” como carcaça de frango, soro de leite ou aparas de massa de macarrão. O leite em pó desnatado pode sair a R$22,98. Um pote de requeijão 200g chega a custar R$10; uma garrafa com 1,25 kg de iogurte, R$14. Carne vermelha? Só no início do mês e olhe lá. Carnes menos nobres, como acém, podem sair a R$26,98 o quilo. O peito bovino ultrapassa R$30. Frutas básicas, como banana prata, também está cara: R$7,90 o quilo. A maçã gala é R$12 o quilo.

Carnes variam de R$26,98 a R$31,98,s em contar as mais nobres. Foto: Livia Figueiredo

Arroz, feijão, farinha, óleo, macarrão, um pedaço de frango ou carne, pão, leite, açúcar. Itens da cesta básica acabam ficando muitas das vezes de fora. Nunca pesou tanto a escolha. Isso porque não cabe muita coisa no carrinho para 23 milhões de brasileiros que ficaram abaixo da linha da pobreza nas últimas pesquisas do IBGE. Pesquisa feita pela PUC do Rio Grande do Sul mostra que 25% dos moradores de cidades das regiões metropolitanas, condição de Niterói, vivem com 1/4 do salário mínimo, hoje, cerca de R$ 303.

O quilo do feijão pode sair a 8 reais: cabe pouco na cesta básica do consumidor. Foto: Livia Figueiredo

O A Seguir foi ao supermercado nesta terça-feira (19) para conversar com alguns moradores sobre como tem sido a saga da alta dos preços e quais recursos eles têm recorrido para contornar isso. Cecilia foi direto do trabalho, na falta de horário e já ciente de que levaria mais tempo na fila do caixa que o habitual. Foi com a intenção de comprar o basicão: arroz, feijão, frango e batatas. Mas desistiu. Saiu de lá apenas com um pacote de pão para o café da manhã do dia seguinte.

– Está tudo absurdamente caro. O vale alimentação da empresa não dá conta mais e virou rotina ter que tirar do salário para comprar itens básicos. Tem dia que vale mais a pena pedir uma quentinha mesmo no trabalho. Dá menos trabalho também.

Cecília trabalha no Centro do Rio. Costuma comer fora três vezes na semana e, em dois, leva marmita de casa. Segundo ela, é uma estratégia:

–  Gasto meu VR com almoços e o VA com supermercado. Há um ano conseguia gastar menos no VA. Ele rendia mais. Agora, tive que mudar de comportamento, se não, fica pesado no bolso, já que sempre tenho que tirar parte do meu salário para as compras do mês.

Por falar em compras do mês, Daniel estava habituado a ela. Quando o salário entrava na conta ele já sabia que era hora de fazer sua visita mensal ao supermercado e estocar. Agora, tem adotado um novo hábito: anotar as promoções e complementar o que tiver de mais urgente. Estocar? Só se o produto for possível de ser congelado.

– Outro dia li na internet sobre um cara que estocou leite. Parece mentira, meme ou qualquer coisa do tipo, mas era verdade. Pensei, por que não? O leite tem aumentado de preço há semanas, de forma exponencial, e é algo que se consome muito. Eu gosto de cozinhar, então uso o leite para outras finalidades, como para fazer panquecas e bolos. Além de usar no café também ou em sobremesas. A ideia é simples, mas faz toda a diferença. Nessa linha também, tenho estocado macarrão – contou.

O leite nas alturas. Foto: Livia Figueiredo

Atenta à conversa, passa uma senhora, Tânia, cheia de compras no carrinho. Acompanhada do seu neto, ela comprava legumes para fazer uma sopa para o jantar. Inhame, batata doce, cenoura e agrião. Costumava colocar brócolis e couve flor, mas ultimamente esses itens têm ficado de fora.

– Gostava muito de fazer sopa de feijão, mas agora tenho optado comer apenas no almoço. Aliás, tenho feito isso. Meu almoço é reforçado, lanche da tarde é geralmente café com pão ou uma torrada com geleia, que faço em casa. Jantar evito comer coisas sólidas. Geralmente faço sopa porque é algo que rende. Como moro sozinha, dá para comer três dias seguidos e acabo economizando.

Quanto ao leite, Tânia prefere não estocar. Ela diz que recorre a uma estratégia diferente: reduziu o consumo e completou com alimentos ricos em cálcio, para não perder o seu valor nutricional. O hábito de ver televisão passou a ser regado de ameixas e uvas passas, que também são ricas em cálcio.

Acostumado a comprar em feira de orgânicos, Pedro, de 28 anos, disse que foi obrigado a perder o hábito, por força maior. O motivo? A alta dos preços.

– Ter o mínimo de consciência alimentar nunca foi tão caro. Eu ia todos os sábados na feira dos orgânicos no Campo de São Bento. Agora, tenho ido uma vez por mês e olhe lá. Consumo frutas em mercados mesmo. Voltei ao antigo hábito. E no meio disso tudo me tornei vegetariano. Pelo menos estou contribuindo para o meio ambiente. Me sinto menos mal – afirmou.

Na fila do caixa, um contraste. Enquanto em alguns carrinhos mal comportava as mercadorias de tão cheio, em outros ficava nítido que apenas os itens emergenciais seriam levados para a casa. Em um desses carrinhos, um pedaço de coxa de frango, tomate e uma senhora fazendo as contas na expectativa de achar alguma moeda ou nota perdida pela bolsa. Na mesma fila, um casal de jovens comentava um para o outro: “Nunca pensei que fosse pagar tão caro pelo pão. Um absurdo. Lembro de pagar 5 reais. Agora dobrou. Um pacote é R$10. Isso quando não é mais caro”. Talvez seja a hora de revisitar a célebre música do Titãs e saber: você tem fome de quê?

Um pacote de pão tradicional pode sair a quase 10 reais. Foto Livia Figueiredo

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