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‘Eu sou mega niteroiense’, diz a atriz Chan Suan, que faz sucesso no streaming

Por Camila Araujo
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Nascida na China, mas criada em Niterói, atriz estreia este ano em novo filme de Glória Pires e Maísa “Desapega”
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Chan Suan passou por produções como o filme “O Ornitólogo” (Netflix dos EUA), “Lulli” (Netflix Brasil), além de novelas e outros seriados. Foto: Arquivo Pessoal

Ela é chinesa de nascença, mas niteroiense de criação. A atriz Chan Suan, de 39 anos, nasceu em Hong Kong, na China, e veio para o Brasil, especificamente, para Niterói, aos 5 anos de idade, com os pais. Há pouco menos de um ano, ela se mudou para a Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Entre as diversas atuações, está a personagem Lin do filme “O Ornitólogo”, dirigido por João Pedro Rodrigues, disponível na Netflix dos Estados Unidos. O filme rodou o mundo e fez sucesso em diversos festivais internacionais, sendo indicado a vários prêmios.

Ela também aparece em “Lulli”, produção da Netflix Brasil, com Larissa Manoela, e no Globoplay, atua em “As Five”, e na série “Ringue”, além de novelas e atuações no teatro. Os planos para o futuro são as gravações do filme “Desapega”, de Glória Pires e Maísa, onde foi chamada para uma participação.

Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Chan Suan compartilha um pouco sobre sua história de vida, como chegou até a cidade e ao atual momento da carreira. Confira.

 

A Seguir: Niterói – Você nasceu na China, mas veio para o Brasil ainda criança. Conta um pouco da sua história.

Chan Suan –  Eu nasci em Hong Kong e vim para o Brasil com 5 anos. Meus pais trabalhavam em Hong Kong e na época em que a gente saiu, em 1988, estava um pouquinho complicado economicamente. A gente tinha uns parentes aqui que aceitaram nos ajudar e meus pais resolveram migrar para cá para tentar uma vida melhor, porque naquela época o Brasil tinha oportunidades para a nossa família e eles resolveram vir para cá. E foi esse o motivo da vinda.

A Seguir: Niterói – Como você chegou a Niterói?

Chan Suan – Eu cresci aqui em Niterói, foi o primeiro lugar onde eu cheguei no Rio. Meus parentes são do Rio, mas a gente acabou ficando em Niterói. Eu sou mega niteroiense. Vai fazer quase um ano que eu me mudei para a Tijuca, mas a minha vida inteira foi Niterói. Sou mega niteroiense! (Risos) A gente acabou ficando em Niterói porque tinha mais facilidades para ficar aqui do que no Rio.

A Seguir: Niterói – Você foi criada em Niterói e morou a maior parte da sua vida aqui. Como é a sua relação com a cidade? Como ela se situa na sua história?

Chan Suan – Praticamente uma vida, né? Eu frequentei muito o Saco de São Francisco, aquelas caminhadas na Praia de Icaraí, Praia de Itacoatiara – muitos caixotes em Itacoatiara e Piratininga também (risos) –, muito Barkana, muito Bar do Meio… E mais para trás ainda, nossa, eu lembro que a minha primeira noitada na vida foi no Madame Kaos, nossa – eu estou com 39, né? Tinha o Bartô aquela época.

Minha adolescência foi mais para a galera rock, metal, grunge, o cenário nerd. Então eu gostava de lojas de RPG, lojas de rock, eventos de anime, que eventualmente tinha, muito pouco. Mas teve o Posto BR de São Francisco, o Cinema de Icaraí etc. etc.

A Seguir: Niterói – Quais são seus lugares preferidos em Niterói? Qual dica daria aos amigos de fora para visitar na cidade?

Chan Suan – Meus lugares preferidos de Niterói, sem dúvida: praias. Camboinhas, Itacoatiara, Praia do Sossego. A Praia de Icaraí, muito boa para caminhar, muito bonita. O MAC, a orla da Boa Viagem, que tem as pedras, eu adoro aquele lugar, é um lugar de paz, você olha para o mar, tem uma vista incrível. O meio de Icaraí também é uma gracinha para passear; o Parque da Cidade! Que vista que tem o Parque da Cidade! Eu amo.

A Seguir: Niterói – Conta um pouco da sua trajetória profissional. Como você descobriu que queria ser atriz?

Chan Suan – Na verdade, o meu primeiro sonho era ser aeromoça, ser comissária de voo. Eu cheguei a fazer faculdade de Marketing etc. mas meu coração estava no avião. Então eu passei um bom tempo da minha vida voando, foi o primeiro sonho da minha vida que eu tive e consegui realizar, graças a Deus. E foi muito bom! Depois de algum tempo eu senti que precisava de alguma coisa diferente, alguma coisa apareceu, eu pensei “não, pera, acho que eu estou precisando tomar outro caminho”. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas a aviação não estava me suprindo naquele momento. Veio uma intuição de que eu sempre quis atuar, sempre achei muito fascinante o mundo do cinema, de ser o ator ali e tal, achava incrível. E aí eu comecei a devagar entrar no teatro. Eu ia em cursinhos de teatro pequenos, começando, depois eu ia fazendo mais e mais e mais. É aquela coisa, você coloca o pezinho primeiro par ver o que você acha e aí depois eu descobri que era aquilo, mesmo! E aí eu super me apaixonei por teatro e assim fui. A gente vai trabalhando, vai fazendo teatro, vai surgindo as coisas.

A Seguir: Niterói – Como foi o processo de formação?

Chan Suan – Primeiro eu fiz um cursinho pequeno em Niterói, que foi aquela primeira experiência do tipo “vou testar, vou tentar para ver o que eu sinto”. Foi maravilhoso! Foi num lugar supersimples, mas muito bacana, achei aquilo incrível. Nunca eu pude me expressar tanto. E aí eu falei “pô, é aqui mesmo” – o teatro, no caso. Depois eu fui para outros cursos. Decidi fazer um profissionalizante para ter um registro de ator, porque a coisa é séria, né? Depois que eu tirei o registro de ator eu fui fazendo outros cursos, no meio disso eu fui fazendo peças, eu também já trabalhava no meio, através da Publicidade, acabava que eu tinha certa familiaridade. Depois fui fazendo outros cursos também, inclusive no Rio, muitos workshops: a vida do ator é workshop para sempre continuar aprendendo.

A Seguir: Niterói – Em 2021 você participou do filme Lulli, com a Larissa Manoella, na Netflix, e já passou por novelas da Globo, além do cinema. Onde mais as pessoas podem encontrar Chan Suan atuando?

Chan Suan – Olha, além desses produtos do filme “Lulli” e de novelas na Globo, tem disponível também na Globo Play a série “Ringue”, que foi uma série que era para o canal Brasil e que foi para o Globo Play. É uma série sobre kung fu e, realmente, tem tudo a ver comigo: eu faço kung fu desde 2011, 2012. Eu fiz [o papel de] uma mestra da arte marcial. Foi uma série muito engraçada porque ela misturou comédia com um deboche (risos), com coisas mágicas. Eu adoro o mundo fantasia. Eu cresci jogando vídeo game, RPG, vendo anime, o universo da fantasia sempre me interessou muito.

Tem também o filme “O Ornitólogo”, que foi um filme que eu fiz em Portugal, já está disponível na Netflix, mas dos Estados Unidos, eu acredito que em algum lugar da internet as pessoas consigam ver. E tem também “As Five”, onde eu fiz uma participação, também disponível no Globo Play. Também fiz o filme “De Perto Ela Não É Normal”, que é dirigido pela Sininha de Paula e protagonizado pela Suzana Pires.

A Seguir: Niterói – Como você percebe a representatividade de pessoas asiáticas no meio artístico atualmente?

Chan Suan – Você sabe que eu amei essa pergunta? Porque todos os artistas amarelos, que é como o pessoal tem chamado, assim como os artistas negros também estão brigando pela representatividade, para deixar de ser só mais um oriental na história, que a gente pode ser sim um personagem oriental, mas ela tem que ter uma história, né? O problema é não representar quem a gente é. A gente sabe quem a gente aparenta ser, a gente sabe que a gente aparenta ser asiático sim, mas que tem uma história. O problema não é representar um chinês, um japonês, um coreano, não. Mas tem que ter uma história, sabe? O branco não tem uma história? E graças a Deus, hoje, o negro não tem uma história, além de ser empregado ou escravo? Ele tem uma história, certo? E é por isso que os artistas amarelos estão brigando, discutindo cada vez mais sobre isso e sobre como esse artista pode tornar-se protagonista ou mesmo ter uma participação maior nos produtos – porque muitas vezes são reduzidos a uma apariçãozinha e acabou. Por que o artista amarelo não está ocupando um papel de maior destaque, entende? A gente tem falado muito disso pelo “Somos brasileiros”, no Instagram, que fala muito sobre representatividade amarela.

Até hoje, por falta dessa representatividade nas telas, nas mídias, o povo brasileiro não conhece o próprio povo, não conhece os asiáticos que moram no próprio Brasil, vê os asiáticos como o brasileiro é lá fora, que joga futebol e samba, e não é isso. A imigração japonesa, que é uma das maiores aqui do Brasil, está aí para mostrar tudo o que aconteceu com a miscigenação, de como o sangue asiático já se enraizou no Brasil e como muitos nascem aqui e são filhos de brasileiros, e não são representados. Como ele não é visto na mídia, as pessoas não sabem, não é normalizado. As pessoas ainda colocam o asiático numa roupinha de gueixa. O estereótipo nem é o problema, mas que história você vai dar para esse estereótipo? Como você vai normalizar a imagem de uma pessoa de olho puxado e cabelo preto na tela? Por que até então a gente era considerado praticamente E.T. Eu, muitas vezes, ando na rua, e me sinto E.T. ainda, até hoje, porque em muitos lugares as pessoas ainda acham que os asiáticos são de outro mundo porque não veem na TV, na mídia, no cinema. Quando veem, é rapidinho, vendendo pastel, fazendo uma gueixa, sabe? E isso é pelo que a gente está brigando.

A Seguir: Niterói – O que você gosta mais de fazer: cinema, streaming ou novela? Tem alguma preferência?

Chan Suan – Eu adoro fazer todos eles, realmente eu gosto de todos eles. Teatro é uma coisa que tem um lugar especial no meu coração, mas eu confesso que fazer teatro no Rio é um desafio de sobrevivência e eu bato muita palma para todo mundo que ainda consegue viver do teatro. Mas eu gosto muito do cinema. Eu não excluo o streaming do perfil cinema. A novela eu adoro fazer, é muito gostoso, meu Deus, é muito bom! (risos) Todos são muito bons e podendo exercer o cargo de atriz isso já é muito incrível. Mas assim, esses três que você colocou, cinema, streaming, novela são meus preferidos mesmo.

A Seguir: Niterói – De todos os trabalhos que você já fez, tem algum que tenha sido mais marcante para você?

Chan Suan – Sem dúvida, um dos trabalhos mais marcantes para mim foi “O Ornitólogo”, que foi um filme que foi filmado em Portugal e na Itália, superpremiado mundialmente, esteve em festivais em vários países. O diretor João Pedro Rodrigues e foi uma experiência muito forte para mim, intensa, porque eu pude participar de um filme que mistura religião com misticismo, fantasia, suspense e o filme também é LGBT. Ele tem uma abertura mental fora da caixinha tão bom, tão grande e eu adoro coisas fora da caixa. A vivência com o grupo foi muito, muito boa. A gente passou dias na floresta filmando. É como se fosse praticamente um BBB, porque você fica direto com aquelas pessoas, cria uma vivência, uma experiência e a gente viajava junto. Era um filme que eu atuei em chinês e inglês, então, foi um filme que me marcou muito. Mas eu também quero deixar claro que “A Dona do Pedaço” também me marcou muito. Foi uma novela impressionante, porque o Walcyr [Carrasco, o autor da novela] é um gênio que pensa para fora da caixa e foi uma das primeiras personagens que eu fiz que não precisava ser oriental, não precisava ser asiática, e isso me marcou muito. E eu falo isso com muita gratidão, foi muito incrível para mim.

A Seguir: Niterói – O que vem pela frente? Tem algum projeto em andamento?

Chan Suan – A vida do ator é assim: entre testes e esperas, tanto fora do set quanto dentro do set. A gente está sempre tendo que buscar, porque acabou um trabalho, a gente já tem que pensar no próximo. Eu tenho alguns projetos rolando que eu ainda não posso dizer, mas eu tenho certeza que ainda vão ter muitas novidades bacanas. Mas um eu posso contar: eu vou estar no próximo filme protagonizado pela Glória Pires. Eu fui chamada para uma participação, no “Desapega”, filme em que a Glória faz a mãe da Maísa. Eu não sei para quando está previsto, mas esse eu já posso falar.

 

 

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