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Especialista explica as possíveis razões da mortandade de peixes na Lagoa de Piratininga

Presença de lodo no água, despejo de esgoto e microalgas tóxicas são algumas causas; Prefeitura anuncia testes tecnológicos para recuperação
Mortandade de peixes na Lagoa de Piratininga. Foto- Reprodução : Redes Sociais
Mortandade de peixes na Lagoa de Piratininga. Foto: Reprodução / Redes Sociais

Ponto impotante da cidade, no entorno do qual a Prefeitura de Niterói está construindo um parque, a Lagoa de Piratininga pede socorro. No último fim de semana, em mais um triste episódio, uma enorme quantidade de peixes foi encontrada morta no espelho d’água. São diversos os fatores que podem contribuir para esse tipo de ocorrência: tubulação lançando esgoto, a presença de lodo – sedimento terroso no fundo das águas – e a floração de microalgas tóxicas. Com a falta de oxigênio, os peixes pulam fora d’água e podem apresentar comportamentos estranhos, como a letargia.

Ao A Seguir: Niterói, o professor da UFF e Coordenador da Rede UFF de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e oceonógrafo da Uerj, Júlio Wasserman, explica que a presença do lodo ocorre diante de condições climáticas específicas (ventos e mudanças bruscas de temperatura), quando a matéria orgânica presente nessa “lama” torna-se mais disponível na coluna d’água e acaba por consumir o oxigênio que falta para os peixes. O problema é mais grave na Lagoa de Piratininga, uma vez que Itaipu conta com uma maior troca de águas com o mar. A solução, porém não é simples, pois o objetivo é evitar a dragagem, ação de altíssimo impacto ambiental, que possui dificuldade de local para a disposição do material.

Wasserman explica que a medição das concentrações de oxigênio na água com equipamentos bem calibrados permite confirmar a ocorrência do processo. Já a floração de microalgas tóxicas, outra possível causa, é mais difícil de detectar. Segundo o especialista, isso ocorre devido à necessidade de estudo mais custoso da água, a fim de identificar se há células de algas tóxicas (estas, bem conhecidas) e se há toxina na água. Às vezes é possível distinguir ambos os processos pelos próprios sintomas nos peixes.

– Foram feitos poucos estudos a fim de se entender os processos que promovem a mortandade de peixe. Antigamente, as mortandades eram causadas pela anoxia, provocado pelo vento sudoeste com revolvimento do lodo. Hoje, com a construção do túnel, que ao meu ver foi um erro, pode ser até uma conjunção de fatores. Para resolver o problema, é necessário estudos de longo prazo, com recursos mais contínuos – reforçou o especialista.

Wasserman trabalha com pesquisa aplicada a problemas ambientais na UFF. Em 1990, o especialista participou de um extenso estudo na laguna de Piratininga e identificou que a presença de nutrientes no lodo contribuía para o surgimento de florações algais cada vez mais intensa, independente dos esgotos que eram continuamente lançados. Na época, ele propôs o manejo da alga que existiam no lago, pois sua retirada anual permitiria a redução de concentração de nutrientes do lodo. Com três ou quatro anos, a lagoa teria reduzida sua produção a um décimo em relação ao início do processo e, com a remoção das entradas de esgoto, a tendência seria que ela retomasse a seu caráter natural.

– Infelizmente pouca coisa foi feita na época e tiveram a ideia do túnel. Fui contrário, pois o problema da laguna não era simplesmente hidráulico, já que os lodos eram muito ricos em nutrientes e a entrada de água do mar mataria as macroalgas. Assim, a laguna passaria a ser dominada por microalgas, que dão aquela horrível coloração esverdeada à água e em situações específicas podem causar as mortalidades. Mas o que aconteceu foi que o túnel foi construído e as mortandades se intensificaram – completou.

Recentemente, o especialista propôs à Prefeitura o plantio de Ulva (outra macroalga muito comum chamada alface do mar) a fim de reduzir a carga de nutriente presente na lagoa, as quais poderiam produzir a Ulvana, substância de alto valor utilizada pela indústria farmacêa. O projeto, de custo extremamente baixo, é fruto de uma parceria com pescadores.

Prefeitura irá realizar testes de tecnologia para recuperação da lagoa

O Prefeito de Niterói, Axel Grael, afirmou em uma rede social nesta terça-feira (18), que a Prefeitura irá buscar soluções tecnológicas capazes de processar o lodo. O objetivo é a instalação de equipamento, com a adoção de procedimentos técnicos inovadores, de modo a permitir a redução da camada de lodo na Lagoa de Piratininga, o que substituirá a dragagem convencional.

A pesquisa integra os estudos inéditos para a recuperação ambiental do sistema lagunar da Região Oceânica de Niterói, que terão participação da UFF e serão realizados também por empresas especializadas no setor. Ainda de acordo com o Prefeito, foi lançado um edital para que o maior número de técnicas alternativas para a redução da camada de lodo da Lagoa fossem apresentadas.

A Prefeitura afirma que recebeu várias propostas, analisadas por uma comissão de especialistas, que selecionou os três projetos mais promissores apresentados pela UFF, a Biotecam e a Sisnate. O município ainda recorreu a uma empresa especializada, contratada por licitação, que desenvolveu um completo estudo sobre as condições ambientais das lagoas, inclusive a batimetria (medição profunda de lagos) e a qualidade do sedimento nas lagoas.

Agora, a Prefeitura custeará os testes in loco das três tecnologias para verificar a técnica mais eficiente, em busca da redução do lodo na Lagoa de Piratininga. O prazo para a realização dos experimentos e a comprovação da eficácia é de seis meses. Antes do inicio dos experimentos, será feita uma amostragem para caracterização da origem do lodo.

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