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Especialista da Fiocruz alerta para riscos da variante Delta em Niterói

Cepa do vírus é mais transmissível, tem sintomas similares ao da gripe e reduz a eficácia das vacinas; especialista esclarece as principais dúvidas
Segunda dose da vacina pode ser agendada. Foto- Divulgação:Prefeitura de Niterói
Vacinação contra Covid. Foto: Divulgação Prefeitura de Niterói

A variante Delta do coronavírus, mais transmissível, já está em circulação em Niterói, segundo relatório da Subsecretaria de Vigilância e Atenção Primária à Saúde. De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado, foram confirmados 63 casos em 12 municípios, num total de 380 amostras (16% do total) no último sábado (17). Estudos preliminares já apontam que a variante Delta reduz a eficácia dos imunizantes disponíveis. Preocupados com a variante mais contagiosa originária da Índia, especialistas fazem o alerta e reiteram os principais cuidados que devem ser adotados para amenizar o risco de transmissão da Covid-19.

Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o pesquisador de saúde pública da Fiocruz que atua no desenvolvimento de métodos estatísticos aplicados à epidemiologia das doenças transmissíveis, Leonardo Bastos, explica os riscos da variante, os principais sintomas e a importância da segunda dose para a imunização completa.

Confira abaixo:

A Seguir: Niterói: Em relação à transmissibilidade, o que se sabe até agora sobre a variante Delta? Quais são os principais sintomas?

Léo Bastos: Já existem estudos apontando a variante Delta como mais transmissível que a variante original. Ainda não sabemos se ela é mais transmissível que a variante Gama, que é a dominante no Brasil. No entanto, dados do México, onde a variante Gama estava dominando, têm revelado aumento expressivo de casos associados à Delta. Ela tem alguns sintomas diferentes da variante original, sendo mais próxima de uma gripe, e foi identificada pela primeira vez na Índia, onde causou um elevadíssimo número de casos e óbitos. E está se espalhando pelo mundo, provocando alto número de casos em países do sul da Ásia como Indonésia e Tailândia, e chegando à Europa e aos EUA.

Um estudo inglês sugere que os principais sintomas mudaram. Agora os cinco sintomas mais comuns são, nessa ordem: dor de cabeça, dor de garganta, coriza, febre e tosse. A perda de paladar, que era muito comum, não é tão comum com a variante Delta.

Quais os cuidados que a pessoa precisa adotar por serem sintomas similares ao da gripe comum?

– Se aparecerem sintomas, a pessoa deve reforçar o uso de máscaras para reduzir a transmissão caso esteja infectada. Deve testar e, se for positivo, se isolar e tentar comunicar às pessoas com quem teve contato para que se testem a fim de tentar reduzir a transmissão. A redução da transmissão deveria ser uma política pública, mas infelizmente não é.

Sabemos que a variante é bem mais transmissível, mas não há ainda comprovação de que provoque maior número de internações. Isso procede ou ainda é prematuro? Como está o andamento desse estudo?

– Ainda não há uma relação de que ela seja mais agressiva. Ela causou muitas hospitalizações por ser mais transmissível, já que quando muita gente se infecta, veremos um número maior de pessoas evoluindo para fases graves da doença. No entanto, as vacinas nos dão alguma proteção.

Ela contribui para hospitalização, mas não para internação de casos graves, é isso?

– No nível individual, as chances de evoluir para um caso grave depende de vários fatores, e temos pouca ou nenhuma evidência para dizer que a variante Delta altera essa chance de evolução para um caso grave. Já no nível populacional, a variante Delta, por ser mais transmissível, vai implicar mais pessoas infectadas e por consequência mais pessoas precisando de atendimento médico, internação, etc. Uma cobertura vacinal pode reduzir o impacto no sistema de saúde, pois as vacinas podem fornecer alguma proteção contra a Delta, e assim podemos ver muitos casos e poucos óbitos, que é o que tem acontecido na Europa neste momento.

Mais de 60% da população de Niterói já tomaram a primeira dose da vacina contra a Covid. É o suficiente para ter maior controle da variante Delta?

– É uma ótima cobertura vacinal, mas ainda não é o suficiente para garantir a chamada imunidade coletiva. Esse valor já não era suficiente para a variante original. Para a Delta, estudo iniciais sugerem que a cobertura precisa ser maior que 80%.

E Niterói vacinou 25,4% de sua população com a segunda dose…

– É muito importante que as pessoas completem o esquema vacinal, pois a efetividade da vacina com uma dose só é baixa. Se muita gente abandonar a segunda dose, vamos ver muitos casos, hospitalizações e até mesmo óbitos completamente evitáveis.

A vacinação mais lenta em municípios vizinhos, como Rio e Maricá, coloca Niterói em risco?

– Sim, com certeza. Pois a mobilidade entre esses municípios é grande. Mas, naturalmente, por ter uma cobertura vacinal maior, Niterói sofre menos o impacto que seus vizinhos.

Nesse caso, é prematura a permissão do retorno da música ao vivo em bares e horário de funcionamento normal? Por ser mais transmissível, mesmo com a cobertura vacinal que temos no momento?

– Mesmo que a ‘imunidade coletiva’ fosse 60%, eu acho que é prematuro demais permitir música ao vivo em bares. Em ambientes abertos e pessoas com máscaras, talvez, mas acho difícil isso acontecer em um bar, com pessoas comendo e bebendo. Sei que há o problema da economia, que as pessoas precisam relaxar ou até mesmo esquecer da pandemia, mas não é hora para isso, ainda mais com a chegada de variantes mais transmissíveis como a Delta. Ainda não temos uma cobertura vacinal alta o suficiente.

Léo Bastos é pesquisador associado do Programa de Computação Científica, Fiocruz. Atua no desenvolvimento de métodos estatísticos bayesianos aplicados à epidemiologia das doenças transmissíveis. Tem graduação pela UFMG, mestrado na UFRJ e doutorado na University of Sheffield, no Reino Unido, em Estatística. Fez estágio de pós-doutorado em epidemiologia de doenças infecciosas na London School of Hygiene and Tropical Medicine, Reino Unido.

É membro eleito do International Statistical Institute (ISI) e membro associado da Associação Brasileira de Estatística (ABE). É professor permanente dos programas de pós- graduação em Epidemiologia em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) e Biologia Computacional e Sistemas (IOC/Fiocruz). Tem experiência em modelos hierárquicos bayesianos, computação bayesiana e modelos espaço-temporais.

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