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Encontro de Educação e Cultura aborda a importância do intercâmbio da arte

Por Livia Figueiredo
Diretora do GayLussac, Luiza Sassi afirma que um dos desafios da escola é que a arte seja cada vez menos fragmentada
GayLussac promove 3º Encontro de Educação e Cultura. Foto- Divulgação
GayLussac promove 3º Encontro de Educação e Cultura. Foto: Divulgação

Com a proposta de compartilhar experiências práticas e promover ideias que fomentem o diálogo entre as duas áreas, o Instituto GayLussac realizou o 3º Encontro de Educação e Cultura na manhã deste sábado (25). O evento, voltado para educadores, artistas, pais e público em geral, foi aberto e contou com a participação de professores de Arte da instituição, da diretora geral Luiza Sassi, do Secretário de Educação de Niterói, Vinicius Wu, do Secretário de Cultura, Leonardo Giordano, e do Diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC), Victor de Wolf. Esta é a primeira vez que a escola traz para o debate a exposição de práticas pedagógicas de professores. O objetivo era apresentar trabalhos que demonstrassem como a arte pode ter valor consistente no cotidiano da escola. O debate trouxe à tona questões como o papel do teatro na escola e o lugar do Patrimônio Cultural no currículo.

A diretora do colégio, Luiza Sassi, abriu o evento e afirmou que a arte possui uma desvalorização histórica, mas que assume um papel primoroso na educação, mesmo levando em consideração que todas as áreas de conhecimento são importantes para o desenvolvimento e formação do aluno na escola. Sassi afirma que o papel da arte é ainda mais crucial atualmente devido ao avanço da tecnologia, que exige um conhecimento mais crítico.

A diretora Luiza Sassi ao lado das professoras do Instituto. Foto: Divulgação/ GayLussac

– Com a invasão do mundo tecnológico, cada vez mais a leitura de mundo é fundamental. Há sete anos, o GayLussac vem colocando holofote na área da arte. Pela primeira vez, estamos incluindo no debate as práticas pedagógicas que vêm sendo desenvolvidas pelos professores. Durante muito tempo, a arte foi vista na escola sob o viés das artes plásticas, então a dança, o teatro e a música acabaram ficando em segundo plano. Um dos desafios da educação é que os espaços da arte sejam cada vez menos fragmentados – destacou.

Abrindo a mesa de debate, a professora do 4º ano do Ensino Fundamental do GayLussac e Contadora de Histórias no grupo Parangolê, Andrea Ferrassoli, abordou o lugar do Patrimônio Cultural no currículo. Ela fala do projeto “Por um mundo melhor”, em que cada sala de aula com sua professora elege um tema para que se tenha uma ação posterior efetiva. Pode ser uma Instituição ou uma causa. Um dos trabalhos tinha como proposta analisar como estava a representatividade do Patrimônio Histórico de Niterói. A turma visitou os monumentos da cidade e perceb

A professora do 4º ano do Ensino Fundamental no Instituto GayLussac e Contadora de Histórias no grupo Parangolê, Andrea Ferrassoli. Foto: Divulgação/ GayLussac

– As crianças fizeram um levantamento dos principais bustos da cidade e as alunas perceberam que não eram representadas. Fizemos uma pesquisa e convidamos a professora de artes Barbara para destacar as mulheres que mereciam esse reconhecimento. Até que surgiu a ideia de realizar um ato político na Câmara Municipal com faixas e cartazes. Acabamos entregando também um documento à Câmara com essas reivindicações.

O segundo debate foi sobre o valor do teatro na escola. Helena Marques, atriz integrante do Teatro Alegretto, que funciona há mais de 40 anos no Instituto GayLussac, falou do papel de transformação que o teatro assume dentro e fora da escola e afirmou que frequentar o teatro permite ao cidadão fazer parte da vida cultural da cidade, além de promover senso crítico e estimular a criatividade.

– O Teatro Alegretto permite com que a escola realize espetáculos periódicos. São sete a oito espetáculos ao longo do ano e eles fazem parte da grade curricular. Quando cheguei aqui, a linguagem do teatro era de fantoches e, conforme o tempo foi passando, fomos incluindo outras linguagens. Agora trabalhamos com outros universos, como o boneco feito de jornal, de manipulação direta, por atores, que interagem com eles. Isso dá uma outra perspectiva. A criança vê o trabalho artístico sendo escancarado ali na frente delas. Também realizamos teatro de sombras, formas de letras animadas de espuma, máscaras de blocos de papel. A ideia disso tudo é estimular a provocação, criar hipóteses. As crianças estão muito acostumadas a receber conteúdo de forma passiva – destacou.

O Professor de Arte dos 8º e 9º anos do Instituto GayLussac, Lucas Leal, contou sua experiência com o teatro e como ela foi crucial em sua trajetória profissional. Ele afirmou que, com o teatro, aprendeu que tem condições de falar e de ouvir. Por fim, ele cita como a arte é fundamental para o autoconhecimento e também para o conhecimento do outro.

– O teatro me permite olhar e ser olhado, pensar antes de falar, instigar a expressão antes de acontecer. Faço esse exercício com os alunos em salas, de se olhar, olhar o outro, no sentido mais amplo que esse verbo pode alcançar. Olhar não é encarar. O teatro permite ver, sonhar, imaginar e criar. Minha função como professor de teatro é mediar criações, estruturar imaginação e coordenar sonhos. Acredito que o papel do teatro na escola é esse: olhar com atenção determinadas coisas que talvez na correria do dia a dia nós esquecemos de fazer.

Professora de Arte das turmas do Ensino Fundamental 2 no Instituto GayLussac, Deborah Bivar, falou sobre o projeto “Impressões do livro Capitães de Areia”, de Jorge Amado. O projeto se desenvolveu durante as aulas com a proposta de trazer questionamentos e ideias sobre a pandemia. Alguns pontos levantados foram a epidemia vivida pelos personagens ao longo da trama, o olhar do expectador diante da sociedade marginalizada e a esperança de um futuro melhor através da união de um grupo organizado.

– O livro fala da reclusão, da peste que assola, mas o objetivo era falar de uma discussão ampliada, de ética, da cidadania… falar sobre perda, sobre dor. Nas aulas de artes, fizemos uma leitura visual. O desafio proposto para os alunos era como eles podiam transformar todos os assuntos discutidos para uma imagem produzida através de colagens. Alguns escolheram fazer colagens manuais e outros digitais. Foi uma troca muito bacana.

A professora também reforçou a importância da leitura interdisciplinar entre as artes e explicou um pouco da proposta do projeto “Contos africanos de países de língua portuguesa”, cujo objetivo era apresentar para os alunos um pouco da cultura e das histórias africanas a partir da leitura interdisciplinar ativa e crítica de contos em língua portuguesa.

O segundo momento do evento consistiu em uma mesa redonda que abordou Niterói como uma cidade educadora imersa na Cultura. Os convidados foram o Secretário de Educação de Niterói, Vinicius Wu, o Secretário das Culturas de Niterói, Leonardo Giordano e o Diretor do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC) Victor de Wolf. A mediação foi da Diretora Geral do Instituto GayLussac, Luiza Sassi, que afirmou que Niterói tem tido uma intervenção importante tanto na área de Educação quanto na área de Cultura.

Para o Secretário de Educação de Niterói, Vinicius Wu, a ideia de uma cidade educadora imersa na Cultura está apoiada em três pilares. O primeiro está relacionado à compreensão de que a escola pode e deve ser um espaço primordial de ocupação e do direito da cidade. A segunda premissa é pensar o planejamento territorial entendendo que a cidade é múltipla e composta por vários ambientes que coabitam no espaço urbano. A terceira é a compreensão de que o Estado é uma expressão da cultura, mas a responsabilidade de sua construção é da sociedade civil.

– A solução para cada uma das escolas é construída a partir da realidade de cada uma. A gente deve promover uma maior integração da escola entre os equipamentos culturais da cidade, possibilitar efetivamente essa integração territorial. É impressionante como as escolas públicas possuem uma relação precária com os equipamentos públicos culturais e esportivos da cidade. É importante pensar em políticas públicas para a integração plena entre a escola e a cidade.

O secretário de Educação de Niterói, Vinicius Wu. Foto: Divulgação/ GayLussac

O Secretário das Culturas de Niterói, Leonardo Giordano, afirmou que a cultura é um direito e que ela está relacionada à geografia do espaço, à tradição e à memória. Ele fala da importância da integração cultural com outros eixos da cidade:

– Entender a importância da integração das ações culturais no cotidiano da educação é uma forma de valorizar nossa identidade, história e memória. O direito à cidade é um direito à cultura. As desigualdades de uma cidade expressam-se, inclusive, nos seus equipamentos culturais. Em Niterói, todos os centros municipais culturais são no eixo centro-sul e nenhum está localizado no eixo norte. Esses centros culturais precisam se integrar com as escolas e com os territórios.

O Secretário das Culturas de Niterói, Leonardo Giordano. Foto: Divulgação/ GayLussac

O diretor do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), Victor de Wolf, encerrou o segundo e último momento do debate. Ele abordou a importância da participação popular para construir um debate integrado sobre o plano e a gestão do museu e reiterou que a cultura é uma narrativa construída a partir de visitas ao museu, da experiência e da desconstrução de uma classe predominante. Wolf destaca que o museu deve expressar diversas linguagens, povos, etnias, gêneros e orientações sexuais.

– O museu não pode ser apartado da sociedade. É importante que as pessoas frequentem o museu. O Museu de Arte Contemporânea é uma expressão da sociedade. Quando você entra no museu, você deve entender o papel que ele desenvolve para a sociedade. Quando assumi a função de direção, vi que a exposição permanente é composta 85% por artistas contemporâneos brancos e homens. Para que seja integrado à sociedade é necessário que exista diversidade artística e representatividade. O museu não pode ser apenas abrigo da poética da arte. Precisamos também que o morador de Niterói veja parte da sua cultura no museu, se reconheça.

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