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Editorial: Manifestação de 7 de Setembro não pode ser ameaça à democracia

Nenhuma manifestação de rua dará ao Presidente qualquer poder a mais do que foi dado pelo voto em 2018 e que exige respeito à democracia
O Presidente Jair Bolsonaro. Foto- Agência Brasil: Fábio Rodrigues Pozzebom
O Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Agência Brasil/ Fábio Rodrigues Pozzebom

Um jornal é a livre expressão de uma sociedade. Uma página em branco preenchida a cada dia pelos fatos mais relevantes na vida da comunidade. Reflete a jornada do homem e por definição estará ligado de forma orgânica ao relato dos fatos, a sua missão. Não por outra razão, carrega a bandeira da liberdade de expressão, sem a qual não existiria. Nem o jornal nem a sociedade. Tão importante que na maioria dos países é o preceito fundador da organização social; nos Estados Unidos, a Emenda Número 1 da Constituição.

A página, ou tela, que se abre a cada momento para o jornalista – e para o leitor -, embora esteja em branco não começa do nada. Ela se baseia na história, no conhecimento, nas conquistas da humanidade. A palavra jornal deriva do dia, não é raro que os jornais sejam chamados de diários ou periódicos, quando o dia era o marco de nossas vidas, antes que a internet impusesse a urgência de notícias a cada instante. As grandes marcas do jornalismo carregam essa ideia do tempo. Times, Diário, Correio, Folha… Jornal. Os jornais também costumam carregar no nome seu endereço: New York Times, Washington Post, Folha de S.Paulo, Diário de Minas… E a data. É a primeira informação que o jornal apresenta. Assim começa cada edição de um jornal, relembrando a comunidade que representa e o tempo em que vivemos.

O Brasil vai escrever amanhã, 7 de setembro, uma nova página. Não é o jornal que vai escrever – é sempre importante ressaltar isso: é a sociedade que produz os fatos. Uma data emblemática, associada ao surgimento da pátria, ainda que a história já tenha desvendado as articulações e interesses que tornaram a nossa Independência uma continuação do Império português, sob o comando da mesma família imperial. A história sempre poderá nos guiar.

Mas não será um momento de celebração. Será uma data que se anuncia tensa e cercada de ameaças, quando o Presidente Jair Bolsonaro convoca seus seguidores a se manifestarem contra os poderes constitucionais, demonizando a política e a Justiça. Na convocação não há proposta construtiva, mas uma demonstração de força que se anuncia pela referência nos discursos a tanques, fuzis e ultimato…

O Brasil reconhece este discurso. O autoritarismo é uma ameaça recorrente em nossa sociedade. Algumas vezes, golpes foram apoiados e até aplaudidos. A ditadura de 64 foi apresentada como Redentora. Estes movimentos são fundados no medo, na construção de ameaças nem sempre reais, pautados pela difusão de mentiras que se propagam por redes de ódio e robôs, como a invasão do comunismo, quando o comunismo desapareceu da Terra desde a queda do muro de Berlim em 89.

O jornal de amanhã trará notícias que podem marcar a vida do país.

As pessoas que pretendem sair à rua nesta terça-feira vestirão camisas amarelas e carregarão bandeiras. Costumam falar em Pátria, usarão o nome de Deus. Há notícias tanto da mobilização de policiais militares, quanto da saída de ônibus de igrejas evangélicas para os locais de concentração. Em alguns momentos dirão que defendem a liberdade. É preciso cuidar para que enganos não se repitam.

Sair às ruas, expressar uma opinião, defender ideias é um direito inalienável do cidadão. Um jornal sempre estará ao lado da liberdade de expressão. Mas um jornal se pauta pelos fatos e pelo compromisso com o seu tempo e a sociedade que representa. Tem, portanto, a obrigação de alertar para os riscos que corremos, diante das informações de que dispomos. Seja o NY Times, a Folha de S.Paulo ou o A Seguir: Niterói. E os fatos apontam para a necessidade de enorme cuidado com a preservação da democracia e respeito à Constituição, a nossa maior garantia de que a sociedade poderá escrever novas páginas a cada dia.

Jair Bolsonaro ganhou nas urnas em 2018 o direito de conduzir o país durante quatro anos, dentro da ordem constitucional, com respeito aos poderes da República. Não recebeu nenhuma outra concessão e nenhuma manifestação de rua poderá lhe conferir poder maior. Em 2022, caberá à sociedade dizer se deseja que continue ou não. Neste Sete de Setembro a única coisa que podemos fazer é defender o respeito à lei e à história do Brasil.

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