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‘É certo que teremos variantes do coronavírus. A questão é como controlamos isso’, diz especialista

Por Livia Figueiredo
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Médico e professor da Uerj, Mario Dal Poz, fala de reinfecção da Covid, os cuidados com o autoteste e recomenda o retorno do uso de máscara, especialmente em locais fechados, e da importância das doses de reforço contra Covid
Os agentes verificam a temperatura de uma mulher usando uma máscara protetora depois que ela desce de um ônibus público, com o Pão de Açúcar em backgorund
Especialista recomenda o retorno da máscara para reduzir riscos de contaminação. Foto: Divulgação/Prefeitura de Niterói

A flexibilização das medidas de proteção contra a Covid somada às variantes mais transmissíveis do coronavírus têm sido a equação perfeita para o aumento de casos da doença. Niterói, assim como boa parte do país, já observada o que está sendo classificado como a quarta onda da doença.  Isso pode ser visto no aumento das filas de testagem e na abertura de um novo posto de vacinação e teste pela Prefeitura de Niterói nesta terça-feira, numa tentativa de suprir a alta demanda.

Postos em Niterói voltam a ficar cheios. Foto de leitor

Devido à alta cobertura vacinal, os indicadores mostram que não há grande reflexo no número de hospitalização. De acordo com o boletim divulgado pela Sindhleste (Sindicato dos Hospitais Clínicas e Casas de Saúde de Niterói), nesta terça-feira (21), Niterói segue, pela segunda semana consecutiva, com 64 pacientes internados em quartos e UTIs. A taxa de ocupação dos leitos não se compara ao vivido pela variante Delta, quando ainda não havia grande cobertura vacinal.

Leia mais: Niterói teve 1.131 novos casos de Covid na semana – e moradores voltam a usar máscaras

Porém, os números de notificação assustam. E as sequelas, em alguns casos, também. A semana passada foi mais curta, com o feriado de Corpus Christi, mas mesmo assim o número de novos casos de Covid registrados em Niterói manteve a tendência de alta: foram 1.131 notificações, contra 889 da semana anterior – um crescimento de 27%, mantendo uma tendência de aumento de contágio que já dura um mês e entra para as dez piores marcas de toda a pandemia. O resultado aparece no Painel da Covid da Secretaria de Estado de Saúde neste domingo (19) e acende todos os sinais de preocupação, marcando uma nova onda da doença, depois da explosão da Ômicron em janeiro deste ano. Agora, ela retorna com mais força, com as subvariantes que se mostraram ainda mais transmissíveis.

Um recente estudo feito na Dinamarca indica que, com a Ômicron e suas subvariantes, a reinfecção pode acontecer em apenas 20 dias. Pesquisadores do Instituto Statens Serum concluíram que reinfecções pela variante BA.2, da Ômicron, podem ocorrer em um período de apenas 20 a 60 dias após uma infecção pela variante BA.1. Atualmente, o Centro Europeu de Prevenção e Controle das Doenças define reinfecção como um diagnóstico positivo para Covid-19 pelo menos 60 dias após um resultado positivo anterior. As reinfecções neste estudo foram observadas principalmente entre jovens com menos de 30 anos, não vacinados, e causaram sintomas leves. Não houve, felizmente, óbitos e nem hospitalizações.

Vacina, máscara e testagem

Embora a pessoa não vacinada esteja mais vulnerável a contrair o vírus, o médico Mario Roberto Dal Poz – que trabalhou como coordenador de recursos humanos na Organização Mundial da Saúde na Suíça entre 2002 a 2012 – reforça os cuidados, como a volta da obrigatoriedade de máscara, a flexibilização, que deve ser revisitada, e a importância das doses de reforço em dia de acordo com o calendário vacinal:

– As doses de reforço, como apontou o estudo feito na Dinamarca, amenizam as chances do desenvolvimento da forma mais grave da doença. Para reduzir ainda mais o risco, é recomendado o uso de máscara, evidentemente. E em espaços fechados, principalmente. São poucas as cidades do mundo em que é obrigatório o uso de máscara e a apresentação do comprovante vacinal. Isso, associado a grandes eventos de aglomeração e à permanência sem máscara em transporte público, contribui para o aumento dos riscos da contaminação. Ainda temos uma parte significativa da população que ainda não possui as doses de reforço e por isso estão com uma proteção reduzida – destacou.

‘As doses de reforço, como apontou o estudo, amenizam as chances do desenvolvimento da forma mais grave da doença.’, diz médico. Foto: Reprodução/Internet

Imunidade rebanho caiu por terra

Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Dal Poz não descarta a possibilidade de novas variantes surgirem. Ele explica que os vírus, de forma ampla, tentam se reproduzir para sobreviver. E é natural que isso ocorra, pois o vírus, como o caso da Covid, continua em circulação. Mas, devido à vacina, ele produz formas mais leves da doença.

– É certo que teremos novas variantes. O problema está em como controlamos isso e o que elas exigem em termos de medidas de saúde pública. Ao contrário de alguns vírus, a imunidade rebanho se mostrou como furada quando o assunto é Covid. Só a vacina consegue uma proteção adequada em relação à doença.

Cuidados no autoteste

O especialista ressalta ainda os cuidados redobrados com os autotestes, que têm sido muito adquiridos nos casos de falta ou de longa espera de testes em farmácias e postos de saúde, ou também, pelas pessoas que preferem fazer em casa, pela comodidade. Ele alerta para o falso diagnóstico, que pode ocorrer em duas situações:

– O autoteste pode produzir um falso negativo em dois casos: quando o teste está vencido ou quando a técnica não foi bem executada. Quando o paciente estiver sintomático e o resultado for negativo, a recomendação é que ele repita o autoteste e, mantendo-se o negativo e os sintomas, deve-se aguardar dois dias e fazer o teste RT-PCR em laboratórios.

O autoteste é recomendado para pessoas sintomáticas ou em caso de contato com algum infectado. Nos casos sintomáticos, a orientação da Anvisa é que ele seja feito entre o 1 e o 7 dia dos sinais. Alguns  especialistas ressaltam que a sensibilidade do exame é maior no terceiro dia da apresentação dos sintomas.

Já em caso de exposição a alguém contaminado, mas sem aparecimento de sintomas, a orientação é que o exame seja realizado a partir do 5 dia do contato. A testagem é importante, pois evita a disseminação do vírus em larga escala, além de prevenir um possível contágio.

Como fazer o teste

Caso a pessoa siga a bula à risca, os autotestes podem chegar à precisão de 95%. Para isso, é necessário ficar extremamente atento para não cometer nenhum erro no meio do caminho. Na hora de realizar o exame, o primeiro passo é retirar todos os elementos da embalagem: o swab (cotonete), com cuidado para não encostar na ponta, o frasco com o líquido reagente e o dispositivo de teste. Feito isso, a pessoa deve assoar o nariz e inserir o swab (cerca de 2 cm) nas duas narinas (uma de cada vez), com a cabeça levemente inclinada para trás. É importante conferir a distância necessária, pois há variações.

O swab deve ser devolvido no frasco com o líquido reagente, que depois será pingado no dispositivo. Depois de 15 minutos, é possível ler o resultado. Caso apareça um traço na letra C, é sinal que o teste deu negativo. Caso esse traço apareça na letra T, é sinal de que a pessoa está com Covid.

Cuidados com o kit

A Anvisa recomenda que embalagem do autoteste seja aberta apenas quando a pessoa for realizar o exame. O produto deve ser guardado em ambientes que não sejam úmidos ou com excesso de calor e frio. É válido também checar a validade antes do uso, uma vez que o kit expirado perde a eficácia.

A agência recomenda também que não seja feita a testagem em outra pessoa, já que há risco de contaminação.

Atualmente há 32 testes com registro na Anvisa e todos eles atendem a critérios de ao menos 80% de sensibilidade. Em média, o índice para detectar a doença é em torno de 90%. O falso negativo pode ser fruto de uma limitação de coleta, como a secreção insuficiente ou o vírus pode estar no período de incubação.

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