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Do Oiapoque ao Chuí: niteroiense planeja expedição inédita de canoa polinésia por toda costa brasileira

Por Amanda Ares
Raysa Ribeiro busca tripulação para se juntar a ela no percurso de mais de 7 mil quilômetros
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Raysa quer ser a primeira a remar todo o litoral brasileiro. Foto: Amanda Ares

Uma corajosa remadora de Niterói planeja a aventura de sua vida: uma expedição de canoa polinésia por toda a costa brasileira. Como toda embarcação, a de Raysa Ribeiro, 31 anos, também tem nome: Coragem, onde há lugar para mais três pessoas nessa ousada viagem de quase 7.500 quilômetros. Para encontrar mais remadores, no dia 22 de fevereiro, mais ou menos às 22:22, Raysa publicou um vídeo em seu canal fazendo um convite a qualquer pessoa que queira se juntar a ela – qualquer mesmo: “Estou procurando pessoas dispostas a viver algo incrível”.

Para entender essa história, o A Seguir Niterói conversou com Raysa sobre o planejamento dessa grande expedição, com potencial para entrar no Guiness Book, o livro dos recordes.

Se conseguir concluir o percurso, poderá ser a primeira vez que uma equipe de canoa polinésia percorre toda a costa nacional. Atualmente, o recorde de maior percurso navegado no Brasil de canoa polinésia é da Expedição Anamauê, que percorreu mil e sessenta quilômetros, fazendo o percurso de Arraial da Ajuda, na Bahia, até Jurujuba, em Niterói. O trecho que Raysa quer fazer é sete vezes maior, e seria um feito inédito. Não é a toa que ela se planeja há seis anos para isso.

Oiapoque e Chuí são a maior extensão entre dois pontos do Brasil. Raysa quer fazer o percurso remando em sua canoa polinésia, Coragem. Google Images

Mas expedições longas não são uma novidade na vida dela. Em 2016, ela fez sua primeira grande travessia, sozinha, de Itaipu até a Ilha Grande, em Angra dos Reis. Antes de se lançar no mar aberto, Raysa conta que participou de diversas competições desde que começou no esporte, além de surfar desde os 14 anos.

Em 2012, ela até morou no Hawaii. Um programa de intercâmbio de verão para universitários levou a jovem estudante de direito para perto das ondas que ela tanto queria conhecer e desafiar. Ela conta que foi uma grande experiência:

– Sempre fui do mar, de natureza, via aqueles realities de natureza, e amava. Aí vendo esses filmes sobre o Havaí, eu resolvi ir pra lá. Entrei num programa de Work Experience, de férias da faculdade, nos Estados Unidos. Eu tava decidida em ir só se fosse pro Havaí. Consegui ir, consegui um emprego lá para fotografar baleias. Foram três meses fotografando as baleias quando elas apareciam, do barco de passeio. Dalí mesmo, a gente imprimia em papel fotográfico, e as pessoas pagavam. A gente ficava umas duas horas navegando, a galera aprendia sobre a vida das baleias, como elas chegavam ali, os tipos de saltos que elas dão… Eu amava aquele trabalho.

Foto de Raysa, quando trabalhou como fotógrafa em saídas turísticas no Havaí

Foi no Havaí que Raysa viu pela primeira vez uma canoa polinésia, ou canoa havaiana, já que estava lá.

– Eu via a canoa. Mas fiz aquele passeio mais clichê do Havaí, que os turistas fazem, em uma canoa pra seis pessoas. Aí minha amiga falou que eles até tinham a canoa como atividade física, mas eles levavam muito a sério, não levavam turista… E tudo bem. Achei que não era coisa pra mim, que era coisa de havaiano.

Era para ficar só três meses, mas ela ficou nove. De volta ao Brasil, só em 2014 ela foi apresentada de verdade ao esporte, por um amigo que a convidou para remar em um sábado na praia de Itaipu. Desde então, não quis saber de outra coisa.

– Era um aulão experimental do clube Surf Hoe, que eu descobri ali na hora. Cara, achei o máximo. O primeiro livro que eu li na vida foi o do Amir Klink “100 dias entre céu e mar”. Acho que isso mexe com a sua cabeça a longo prazo. E eu achei incrível aquilo, ainda mais fazendo em comunidade, eu já tinha a ideia de comprar um kaiak de pesca, pra eu poder ficar no mar. Eram a Luiza Perin, que era instrutora, eu e mais quatro pessoas. Na segunda-feira, eu voltei pra começar de verdade.

Cheia de energia, pouco tempo depois começou a entrar em competições:

– Acho que no final de 2014 eu entrei numa competição, de brincadeira, pra ver qual era. Mas eram poucas. A canoa era muito nova no Brasil. Acho que a primeira vez que uma canoa polinésia chegou no Brasil foi de 1999 pra 2000. E hoje, a gente vive um grande boom. Niterói virou a capital da canoa no Brasil. Coisa de louco.

Raysa também oferece passeios de canoa, a partir da praia de Itaipu. Foto: Amanda Ares

Uma após a outra, foi ficando mais experiente e conquistando o respeito dos outros remadores. Mas faltava alguma coisa. Competir parecia não ser o objetivo, afinal. Ela percebeu isso quando viu outra grande remadora de Niterói fazendo algo muito diferente:

– A Luiza Perin, que é fundadora do clube [Surf Hoe], tinha acabado de fazer uma expedição de Niterói até Ilha Grande sozinha, numa canoa individual. São 130 quilômetros. Aquilo foi “Uau! Ela é uma mulher e fez isso!”. Não que fosse coisa de homem, mas eu nunca tinha pensado em fazer isso sozinha… História incrível. Um dia, numa roda de conversa no clube, a Luiza levou um livro da Simone Duarte, uma mulher que remou a Rio-Santos, saindo de Copacabana, e foi indo, remando. E eu falei “uau, é possível, e sem gastar muita grana”.

Inspirada por Luiza , ela própria fez o mesmo trajeto, de Itaipu a Ilha Grande, também sozinha, em 2016.

Hoje, Raysa oferece passeio e aulas de canoa, de forma independente, e o que era um hobby se transformou em fonte de renda e também forma de vida. Se desafiar também virou uma rotina, e depois de algumas travessias, acompanhada e também sozinha, Raysa sentiu que talvez estivesse pronta para planejar um desejo antigo: a maior das travessias, remar por todo o litoral brasileiro, em seus nada humildes quase 7.500 quilômetros.

Do Oiapoque ao Chuí

Raysa adquiriu uma canoa maior, a Coragem, que possui quatro lugares: um é dela, e os outros três estão vagos. Toda a viagem deve durar um ano, e ela não acha viável, nem seguro, fazer um percurso tão longo sozinha. Por isso, em uma data que parecia ser um sinal da numerologia, ela publicou um vídeo em seu canal Profissão: Aventureira, contando sobre seu projeto, e fazendo um convite a qualquer pessoa que queira acompanhá-la nessa aventura. Segundo ela, é qualquer pessoa, mesmo:

– No formulário que eu botei, tem uma pergunta: “Por que fazer isso”, e “Me diga três motivos que te tornam especial”. Eu tenho recebido tantas respostas, e cada um tem um porquê pra fazer isso. Outro dia recebi inscrição de uma criança de 10 anos, que foi meu aluno, e a mãe também se inscreveu. Uma mulher de 53, que os filhos já saíram de casa e ele queria fazer alguma coisa pra se empoderar… sabe?

Perguntada sobre quais os atributos ela estaria procurando nos tripulantes, que serão poucos, ela responde que o mais importante é ter vontade de fazer alguma coisa desafiadora. Ela esclarece que apesar de ter só mais três assentos na canoa, bem mais pessoas poderão participar do percurso, fazendo revezamento, desembarcando e embarcando em diferentes pontos ao longo da costa. A única remadora fixa será ela própria.

– Você tem que ter entre 7 e 77 anos, e saber respirar. O litoral é muito grande, então se a gente dividir direitinho, vai ter parte que uma criança de 10 anos rema, por exemplo aqui no Rio de Janeiro. Outra, eu não vou poder ter uma criança, por exemplo o Amapá, no Norte, tem 500 quilômetros de costa, tem rio amazônico, tem mar, então eu preciso de pessoas experientes ali. Às vezes, dar oportunidade a uma pessoa que nunca viu o mar, já pensou?

“Quero aproveitar minha juventude, minha saúde, pra fazer algo incrível.” Foto: Amanda Ares

Raysa é filha de servidores públicos, e sabe que seus pais temem pela sua segurança – ou a falta dela – por causa de seu estilo de vida. Porém, no ano passado ela pôde provar para a família, e para si própria, que é capaz de enfrentar ambientes hostis e ir além dos limites do próprio corpo. Raysa participou da primeira edição do reality Largados e Pelados Brasil, série famosa por deixar pessoas comuns literalmente largadas e peladas em lugares como um deserto ou uma floresta, sem recursos básicos ou comida.

No reality, os participantes precisam caçar, procurar água potável e construir o próprio abrigo para se protegerem do frio e do sol. Vence quem não desistir do desafio e ficar até o último dia. Foram 20 dias no meio da floresta Amazônica que fizeram Raysa emagrecer 13 quilos.

– Quando vi o programa pela primeira vez, foi na travessia de Itaipu a Ilha Grande, em 2016. Por coincidência encontrei uma amiga em uma das paradas que fiz, e à noite, na TV estava passando o Largados e Pelados, de outro país. Eu não conhecia e eu disse: O quê? As pessoas fazem isso? Que maneiro! Corta para cinco anos depois, estou eu lá, naquela situação. Fiquei lá os 21 dias, foi sofrido.

Raysa e sua dupla, outro niteroiense metido naquela roubada, saíram como os grandes vencedores. Apesar de o programa não oferecer um prêmio em dinheiro, ganhar despertou em Raysa a confiança de que ela precisava – e silenciou qualquer dúvida que alguém pudesse ter sobre sua capacidade. A edição ainda não está disponível no canal.

– Eu acho que como mulher, isso me deu muita força. Agora eu acho que sou capaz de fazer muitas coisas que eu não me achava capaz. E meu deu credibilidade. Agora eu não sou mais aquela garota que rema. Eu agora sou a mulher que venceu o Largados e Pelados.

Próxima parada, Oiapoque

No dia 22 de fevereiro, (22/02/2022), pouco depois das 22:22 da noite, Raysa publicou o vídeo em seu canal falando sobre a proposta da expedição pela costa brasileira, e fazendo o convite a quem quiser se juntar a ela. A proposta é passar o ano se planejando, juntando dinheiro, buscando patrocínio e selecionando a equipe que irá fazer parte do percurso. Não há favoritos, e até o namorado de Raysa, que também é remador, vai ter que passar pela seleção que ela irá fazer. Ele vai ter que se esforçar, porque já foram mais de 70 inscritos de todas as idades e com todo o tipo de motivação, que Raysa diz ser o mais importante de tudo:

– Eu tô procurando pessoas dispostas. Dispostas a viver, mesmo, a vida que a gente tem, que é terrena; pessoas que queiram ter a chance de viver algo incrível, uma história legal, que se proponham a remar um pouquinho junto comigo, porque sozinha eu não vou conseguir. Sonho que a gente sonha sozinha, é só sonho, mas quando a gente sonha junto, vira realidade.

O vídeo e o formulário de inscrição para a expedição estão disponíveis no link. Para participar da seleção, é preciso preencher um formulário disponível seu canal no Youtube. Raysa oferece aulas de canoa em Itaipú, e é possível contatá-la pelo @ribeiroraysa.

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