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Do Cicle São Bento à Amazonas Bike: conheça a família que fez Niterói pedalar

Por Amanda Ares
| aseguirniteroi@gmail.com
Relação de Niterói com a bicicleta se confunde com as memórias de quatro gerações da família Santos
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Cicle São bento funcionava na Rua Gavião Peixoto

A Rua Barão do Amazonas, no Centro de Niterói, é uma das vias com maior movimento de ciclistas da cidade. E na terceira quadra, depois da Saldanha Marinho, fica o maior e um dos mais tradicionais cicles locais, a Amazonas Bike, de onde a toda hora saem mais pessoas guiando sobre duas rodas. A loja foi fundada há 37 anos por Claudio Santos e dois primos, mas sua história vem de muito antes, além-mar até, e se mistura com a criação e popularização da cultura da bike em Niterói.

Primeiras pedaladas

Tudo começou em 1957, quando o então jovem Manoel Santos, de 17 anos, deixou um trabalho simples em Portugal para tentar a vida no Brasil. O tio dele, lembrado até hoje como Sr. Rezende, já era dono de uma rede de cicles em Niterói, o Cicle São Bento, e achou que poderia aproveitar as habilidades do sobrinho, que era soldador desde miúdo. Quem conta a história é Claudio Santos, filho de Manoel e fundador da Amazonas Bike:

– O Cicle São Bento tinha sete lojas em Niterói, a primeira era em frente ao Campo de São Bento, por isso o nome.

Quem vive Niterói há mais tempo se lembra das histórias do cicle, que marcou uma geração. O estabelecimento era um dos patrocinadores do cinema de rua da cidade.

“Pedalando, pedalando

A favor ou contra o vento,

Tenha sua bicicleta

Compre no Cicle São Bento”

Tirando as rodinhas

No fim dos anos 1960, o negócio de Rezende começou a entrar em declínio, que o levaria à falência e ao fim de uma era. Pouco depois, Manoel decidiu começar o próprio cicle na Rua Sete de Setembro, enquanto seus dois irmãos mais velhos, Antônio e Joaquim, eram donos do Cicle Dois Irmãos, na Rua Barão do Amazonas, próximo à Saldanha Marinho.

– Tudo português: Manoel, Joaquim e Antônio – ri Claudio ao pensar no assunto.

Mas, como é comum aos negócios familiares, Antônio e Joaquim acabaram se desentendendo e desmanchando a sociedade. Manoel, muito espertamente, passou o ponto e resolveu se associar a Antônio. O ponto era muito bom, e o empreendimento deu muito certo ao focar no fornecimento de peças a lojistas de outras cidades:

– Aqui [no Centro] era melhor porque aqui ele vendia no atacado, lá era só varejo. Como a rodoviária é aqui pertinho, os lojistas do interior do Rio de Janeiro vinham pra cá, compravam as peças em quantidade e iam pegar o ônibus embora pra casa.

Marcha pesada

Os negócios iam muito bem, até que uma tragédia obrigou a Manoel seguir sozinho com os negócios da família:

– Em 1970, no dia da final da Copa, meu tio faleceu em um acidente de carro. Aí meu pai ficou sozinho e na época passou a sustentar a nossa família e a do meu tio, então passou a ter seis filhos: eu e meus irmãos, mais meus dois primos. Mas Português gosta de trabalhar, e meu pai perseverou, mudou de loja para um ponto bem maior e mudou de nome, de Dois Irmãos para Central de Bicicletas.

As lembranças das lojas antigas e dos tios trabalhando ficaram só na memória da família, já que o tempo não preservou as fotografias dos três irmãos.

Claudio cresceu vendo o pai trabalhar e acabou se interessando pelos negócios. Seguindo a tradição da família, ele se juntou com um dos primos para fazer do depósito do pai um cicle novo. Em 1984 fundaram a Amazonas Bike no mesmo local onde funciona até hoje. Coincidência ou não, Claudio também tinha só 17 anos:

– Éramos só quatro funcionários à época. Eu, meu primo Julio Cezar, um funcionário nosso muito antigo, o Benilton, e uma funcionária que ficava no caixa.

Fachada da loja na rua Barão do Amazonas. Foto: Amanda Ares

Pegando velocidade

O que começou pequeno passou a absorver os clientes de Manoel, que acabou cedendo à pressão do tempo e do mercado e resolveu se adaptar, transformando a Central de Bicicletas em uma loja de borracha:

– A gente percebeu que 90% dos clientes estavam aqui, só 10% ficavam lá. E aí não valia mais a pena, e meu pai transformou em uma loja de borracha. Depois que ele parou de trabalhar, quem ficou tomando conta foram meu cunhado e minha sobrinha.

Claudio deve o sucesso rápido da Amazonas Bike à promoção de um estilo de vida sobre duas rodas que a loja incentivava, com eventos e passeios produzidos pelo estabelecimento. As iniciativas criaram um público orgânico, o que deu muito certo:

– A gente fazia passeios de bicicletas e em um só evento a gente chegou a juntar dez, quinze, vinte mil ciclistas. Teve um que chegou a juntar vinte e quatro mil, e isso atraia um público gigante aqui pra loja.

Claudio e a equipe organizaram eventos ciclísticos. Foto: Divulgação Amazonas Bike

Os eventos também incluíam encontros de estrada, de downhill, mas o que atraía muita gente eram os passeios ciclísticos na cidade, que reuniam famílias em peso. Essa estratégia aproximou uma clientela que hoje tem a loja como referência não só pelo produto, mas pelo estilo de vida. A Pandemia interrompeu as atividades momentaneamente, mas a equipe de ciclismo chegou a despontar atletas de projeção internacional:

– O maior atleta hoje no Brasil, líder do ranking mundial, Henrique Avancini, ele começou na nossa equipe, com 11 anos. A Amazonas patrocinava ele com treinamento, equipamento, idas a competições, tudo. Hoje, ele é um fenômeno.

Julio Lopes (esq.), Henrique Avancini (centro) e Claudio Santos (dir.)no lançamento do livro “Bicicleta: a cara do Rio”. A foto está no livro “O Rio Pedala”

Claudio tem dois livros publicados, “Bicicleta: a cara do Rio” (2010, Editora Réptil) e “O Rio Pedala” (2012, Amplifica Comunicação) e tem mais um a caminho. Um tempo depois que a loja abriu, ele cursou Administração da Universidade Federal Fluminense, mas tudo o que aprendeu aplicou na Amazonas Bike, e hoje sua família também trabalha na loja:

– Eu só falo sobre bicicleta, minha vida toda foi sobre bicicleta.

A Amazonas Bike

Loja monta dezenas de bicicletas por dia, e emprega 43 funcionários Foto: Amanda Ares

A Amazonas Bike funciona em dois endereços, um no Centro e outro em Icaraí, e emprega 43 funcionários, além de entregar para o país todo. Boa parte dos funcionários é ntiga na casa, alguns com mais de 20 anos trabalhando ali, como o Luis Carlos, 43 anos. Ele está há exatamente duas décadas na linha de montagem de peças das bibicletas Amazonas, marca da própria loja. A fábrica funciona ali mesmo, no galpão:

– Só eu estou há 20 anos. Trabalho aqui no estoque e na montagem. Já passei por três empregos antes de chegar aqui, e aqui foi onde eu mais me adaptei. Bicicleta, eu tenho em casa uma Caloi, mas uso pra andar no bairro, porque moro longe do trabalho, em Santa Isabel.

Luis Carlos trabalha na montagem de bicicletas há vinte anos. foto: Amanda Ares

Depois da primeira montagem, as bicicletas vão para a segunda linha, onde os clientes podem ver do balcão o produto sendo montado e regulado para exposição: quadro, guidão, selim, rodas.

Quem também é antigo na casa é o Carneiro, há 24 anos na empresa que foi seu primeiro e único emprego. Ele mostra a parede de fotos com todos os funcionários que já passaram por ali:

Carneiro trabalha há 24 anos na Amazonas bike e diz “foi meu primeiro e único emprego”. Foto: Amanda Ares

No galpão de 60 metros de profundidade, centenas de bicicletas de todos os tipos e tamanhos se acumulam, formando um paraíso para quem gosta do esporte. Há também corredores e mais corredores de caixas de peças, capacetes, e acessórios. Outro atrativo para os clientes é o serviço de reparos.

Claudio e seu universo de bicicletas Foto: Amanda Ares

Uma curiosidade revelada por Carneiro é que muitas vezes os clientes deixam as bicicletas quebradas ali, pedem um orçamento, e não voltam nunca mais:

– Tem bicicleta aqui há mais de ano.

Depósito onde ficam as bicicleta deixadas para reparo. Algumas estão ali há mais de um ano esperando o dono voltar. Foto: Amanda Ares.

Perspectivas

Manoel dos Santos, o filho Claudio, fundados da Amazonas Bike, e o neto Yan, que cuida do marketing digital da loja. Foto: Arquivo pessoal

Claudio faz questão de manter a família trabalhando. A mulher dele, Danielle, também atua na administração, e o filho mais velho, Yan, cuida do marketing digital:

– Ele gosta. Não é o que ele quer fazer pra sempre, mas enquanto ele quiser, ele pode trabalhar aqui.

Cláudio relata que o ramo teve um crescimento surpreendente com a pandemia, com pico de vendas em maio de 2020, na primeira reabertura do comércio, e depois ao longo dos meses até o Natal. Ele atribui a demanda ao fato de a bicicleta possibilitar uma distância entre o ciclista e outras pessoas na rua:

– A bicicleta, ela proporciona um distanciamento, então a pessoa não corre o risco de se contaminar no transporte público, por exemplo, fora que é um meio de transporte barato, e com o preço da gasolina, acaba valendo a pena.

Ele espera que com a vacinação avançando, ele possa voltar a produzir os passeios ciclísticos que se tornaram marca registrada da Amazonas Bike. Enquanto isso não acontece, o dia a dia na loja não o deixa entediado, sempre há o que fazer, e a todo momento saem novos ciclistas pedalando pelas portas, mantendo vivo o legado dos irmãos Manoel, Antônio e Joaquim.

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