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De garçom a empresário, dono da Kátia Decorações é um apaixonado por Niterói

Por Fabiana Batista
Português, Orlando chegou ao Brasil de navio aos 16 anos e depois de outros trabalhos abriu as lojas, onde a família também trabalha hoje
Sr Orlando e o filho Luiz Filipe Pimentel  Cerveira Francisco na loja Katia Decorações do centro |Foto: Fabiana Batista
Orlando e o filho Luiz Filipe Pimentel Cerveira Francisco na loja Katia Decorações do Centro de Niterói | Foto: Fabiana Batista

Na Rua José Clemente  31, no  Centro de Niterói, está localizada uma das três Kátia Decorações, uma loja de tapetes, cortinas, papel de parede e outros artigos de decoração. Foi lá que o dono, Orlando Cerveira Francisco, de 82 anos, recebeu A Seguir: Niterói para uma entrevista.

Na conversa ele falou sobre sua origem portuguesa, a chegada de navio ao Rio de Janeiro, sua breve estadia no alto do Pão de Açúcar, a paixão pela mulher e a construção da loja que, atualmente, é gerida por ele, os filhos e uma neta.

Orlando e o filho Luiz Filipe Pimentel Cerveira Lope | Foto: Fabiana Batista

Orlando tem a fala calma e se emociona fácil. Ainda no início do papo, seus olhos marejaram ao relembrar quando, em 1957, dentro do navio, ainda menor de idade, avistou terras brasileiras:

– Ao avistar o Rio na entrada da Baía de Guanabara, vi o Forte São João, na Urca, o Forte Santa Cruz, em Niterói, o Pão de Açúcar, no Corcovado e fiquei encantado e deslumbrado. Nunca vi coisa mais linda, e, olha, conheço a Europa e o Brasil quase inteiros. Não há lugar, em belezas naturais, igual ao Rio de Janeiro. Fico numa emoção quando falo desse Brasil. Desculpa estar emocionado. Eu amo este país,  conta enxugando o olho.

Ao chegar, o então jovem subiu o Pão de Açúcar e se deparou com um restaurante e uma vista “deslumbrante”, como ele mesmo adjetifica. Pediu um emprego e ficou ali por três anos. Garçom e cozinheiro foram duas de suas funções neste período.

Namorada da Rua Nossa Sra de Copacabana

Katia Decorações da Gavião Peixoto, em Niterói | Foto: Amanda Ares

Quase nunca saía do alto do morro, mas em um dia de folga aproveitou para passear por Copacabana e conheceu uma moça, também portuguesa, com quem se casou anos depois. A jovem mulher, Laura Augusta Pimentel Francisco, não lhe deu bola no início, mas depois da insistência do galanteador aceitou conversar com Orlando e tempos depois se casaram.

Ele lembra que, naquele dia de folga, a viu entrando no prédio onde morava e ele, um jovem romântico, chegou em casa esbaforido, pegou uma agenda telefônica e ligou para todos os apartamentos do prédio até encontrá-la. 

– Marquei um jantar, mas, receosa, ela apenas conversou comigo e foi embora, relembra rindo.

Algum tempo depois ele arrumou um emprego de representante de bebida do Rio de Janeiro e saiu da Urca. Guardou parte do dinheiro que ganhava e, além de pagar a dívida da passagem de navio que ainda devia, comprou, junto com a esposa, um terreno no Rio de Janeiro.

Entretanto, o casal não ficou muito na cidade maravilhosa e, devido ao trabalho do português decidiram mudar-se para Niterói na década de 1960. Neste mesmo período, Orlando passou a vender joias de luxo e sustentou a mulher, que deixou de trabalhar logo no início do casamento. 

Dez anos depois, estabilizados e com a família crescendo, três amigos o convidaram para uma nova empreitada. Abrir uma loja de tapetes, cortinas e artigos de decoração. Receoso, ele recusou de inicio.

–  Eu não queria, eles insistiram e eu acabei aceitando. Entramos quatro sócios, eu falei que não ia participar nos primeiros anos porque não sabia se ia dar certo. Dei o prazo de um ano para isso e depois íamos abrir outra loja e eu assumiria. E assim foi. Inauguramos a primeira, que é minha matriz até hoje, na Gavião Peixoto (em Icaraí). Depois abrimos na esquina da Rua Otávio Carneiro com a Moreira César (nova Paulo Gustavo), esta aqui da José Clemente e em Itaipu, explica.

Filha do Orlando, Otília Regina Cerveira Pimentel Francisco e neta Laura Cerveira Oberlaender Cunha | Foto: Amanda Ares

Negócio de família

Com os anos, o negócio de amigos tornou-se da família Cerveira. Os filhos foram crescendo e assumiram, ainda novos, as tarefas das lojas. A falta de mais um filho, são três no total, fez com que a loja de Itaipu fechasse por falta de alguém da família para gerenciar. 

Em uma de suas histórias, Orlando relembra que em suas idas a Portugal, em visita à família, os filhos, ainda com 13/14 anos, eram os responsáveis pelas lojas sem supervisão do pai. E, segundo ele, este talvez seja o principal motivo para que, mesmo formados em outras áreas, o trio decidisse seguir o ramo de decorações.

Orlando demonstra, durante toda a conversa com A Seguir: Niterói, sua paixão pelo país, mas, sobretudo, por Niterói. Seus filhos e ele decidiram permanecer na cidade e aumentar a família, que já conta com mais cinco netos. Uma, inclusive, pegou no batente cedo e administra uma das lojas.

– Niterói é um cantinho do céu, calmo, tranquilo. em todos estes anos, nunca fui assaltado. Na pandemia foram um ano e poucos meses fechados e sem funcionar e a reabertura está regular, conta ele.

Entusiasta da vida, Orlando, aos 82 anos, continua aquele rapaz de 16, que chegou ao Brasil, se deslumbrou e aqui permaneceu. 

– Deus quer, o homem sonha e a hora nasce. Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Fernando Pessoa, escritor e poeta português. Foi uma experiência muito boa desde que cheguei aqui, rememora o português.

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