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Da cadeira de rodas para o título mundial: niteroiense campeão de jiu-jitsu conta história de superação

Por Amanda Ares
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Paulo Vítor Martins superou as sequelas da chikungunya para voltar aos tatames e se consagrar campeão
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Paulo Victor vem de família de lutadores, mas diz que o segredo de um lutador é a sensibilidade. Arquivo pessoal

Ferdinando era o touro mais forte da cidade. Todos temiam seu tamanho, e evitavam confrontá-lo, com medo do que ele seria capaz de fazer. Em contrapartida, Ferdinando era também o mais gentil dos touros, e sua força de verdade estava no tamanho de seu coração. A história de 1936 é do autor americano Munro Leaf, mas em Niterói um personagem igualmente notável mostrou que ser forte vai muito além do físico.

O atual campeão mundial de Jiu Jitsu no-gi, o niteroiense Paulo Victor Martins, tem 110 quilos e 1,86 de altura, e luta desde os seis anos de idade. Quem viu seu desempenho no Campeonato Mundial de Jiu Jitsu no-gi (que é a modalidade sem kimono) de 2022, não imaginava que ele havia estado na cadeira de rodas alguns anos antes, em consequência de uma chikungunya.

Multitarefas, Paulo é dono de uma academia de luta na Região Oceânica de Niterói e também guarda-vidas. Alguns desafios cruzaram seu caminho nos últimos anos, como o domingo histórico – e quase trágico – em que seu grupo realizou 112 salvamentos em Itacoatiara, em janeiro deste ano. Porém, foi em 2016 que enfrentou seu maior antagonista: o próprio corpo. Paulo teve chikungunya, doença transmitida pelo mosquito Aedes, e que causa muitas dores nas articulações. Ironicamente, de uma hora para a outra ele não podia mais treinar, correr ou trabalhar, e ficou em uma cadeira de rodas por três semanas.

A recuperação foi lenta, e por três anos, Paulo conviveu com dores fortes por todo o corpo. Após deixar a cadeira de rodas, passou para as muletas. Depois, voltou a andar sem ajuda, mas ainda com certa dificuldade. Porém, nada que derrubasse o coração corajoso do niteroiense, que tirou forças a partir das lições que aprendeu ao se ver naquela situação, e também das histórias de outras pessoas, e que acredita que ser sensível o faz um lutador melhor:

– O que me motivou muito também foi a luta da vida, né, a gente faz uma reflexão de quem você era antes dos altos e baixos, e depois deles. Você vê a sua luta e a de pessoas queridas também, aquilo te sensibiliza. Você fica mais sensível, mais humano, então quando entro no tatame, na luta, eu fico mais leve.

Ao A Seguir: Niterói, Paulo Victor falou com carinho de como a família influenciou seu começo na luta, das motivações para voltar aos tatames, e da vitória no campeonato no ano passado. Agora, ele se prepara para diversas competições que vão ocorrer esse ano, pela Federação Internacional Brasileira de JiuJitsu (IBJJF):

Você é guarda vidas e também lutador, o que veio antes?

Sou formado em Educação Física desde 2009, na Universo. Fiz pós em treinamento esportivo e personal. Guarda vidas eu sou desde 2015. Trabalhei sete anos na praia de Itaipuaçu.

No dia dos 112 salvamentos [em Itacoatiara], eu fui à praia de manhã, e o guarda vidas me chamou perguntando se eu podia ajudar ali naquele dia. Eu fui pra casa, peguei minha roupa, o apito, as coisas, e fui.

Paulo registrou em sua rede social o feito épico de 23 de janeiro.

Foi surreal. 112 salvamentos, um atrás do outro. O bicho pegou geral, uma menina quase morreu, veio helicóptero. Mas ali as pessoas passaram a sentir que a coisa era real, que se podia morrer ali. Mesmo com as bandeiras vermelhas, as pessoas não respeitam. Tirei um cara pelado, que perdeu a roupa no mar.

Paulo, você é o atual campeão mundial de Jiu Jitsu no-gi, mas antes disso, qual sua história na luta?

– Comecei no judô, minha família é do Judô, a família Velozo. Meus primos são judocas, meu tio é faixa preta, e tinha até uma academia.

Eu comecei com 6 aninhos no judô. Eu era muito hiperativo, mas apanhava muito na escola. Aí minha mãe me colocou na academia do meu tio, lá no Fonseca. Meu primo Igor, minha irmã, Monique, a Isabela, minha prima, todo mundo treinava lá. Aí cresci na academia.

Eu parei porque meu tio foi dar aula numa academia de jiu jitsu na região oceânica. Eu tinha 12 pra 13 anos, e fui treinar jiu jitsu com ele. Fui até campeão niteroiense de judô quando era novinho.

Eu fui vice campeão brasileiro de base (CBJJ), em 2002, juvenil, eu tinha 16 anos. Fui vice Campeão nos EUA, em 2013 ou 2014, na modalidade com kimono, categoria pesadíssimo. Com 16 anos, eu pesava mais de 90kg.

Paulo Victor, em sua primeira vitória, aos 16 anos. Arquivo pessoal.

Agora eu sou da franquia Greice, e estou com essa academia aqui na Região Oceânica. E tem todo um legado, estamos em cinco continentes. A casa, ganhei da minha avó, que faleceu há 10 anos atrás. Antes de ela falecer, ela brincou que eu iria abrir uma academia ali na casa que era dela. Aí eu brinquei ainda, falei “Pô, vó, pq esperar? Deixa eu abrir a academia agora”, mas ela dizia que não. Depois que ela faleceu, eu perguntei ao meu pai o que ele achava, e ele disse que tudo bem. Eu tinha 32 anos. Decidi quebrar a casa toda e fazer a academia.

Paulo Victor, com a medalha do último campeonato, e os alunos de sua academia na Região Oceânica. Arquivo.

Fala um pouco da sua modalidade, o Jiu jitsu no-gi. Qual a diferença dele para o com kimono?

– O com quimono tem as partes de agarrar o adversário, o que dá uma queda com mais facilidade. A sem quimono, você pega nas articulações. É parecida com o wrestling, que os jovens fazem nas escolas nos EUA. No Brasil, nós chamamos de jiu jitsu no-gi, sem kimono. Lá é Luta greco romana.

Na final do Campeonato Mundial de Jiu Jistsu No Gi 2022. Arquivo.

Você teve chikungunya em 2016 e passou por alguns anos sofrendo com as sequelas. Quando isso aconteceu e como você se sentiu?

– Eu morava nos EUA, dava aula de jiu jitsu, e em 2015, depois de eu ter sido campeão, eu voltei. Em 2016, eu peguei chikungunya. Aí, fiquei 2016, 2017 e 2018 mal. Em 2016, fiquei 3 semanas muito mal, de cadeira de rodas, depois de muleta…

Como foi sua recuperação, e o que te impediu de desistir da carreira na luta?

– Minha recuperação eu fiz com muita natação, muita corrida na praia de Icaraí. Eu sentia muita dor nas articulações do pé, aí eu trancava a articulação com esparadrapo pra fazer caminhada, corria… Eu não queria desistir. Eu pensava que nem que eu fosse rastejando, eu não queria desistir.

Me motivou acreditar que tinha uma coisa no meu corpo que não era meu e que eu precisava reagir. Eu não me conformava com aquilo, e eu comecei a fazer coisas leves, a beber muita água, comer coisas leves, inhame, porque fazia bem pro sangue… E continuei trabalhando como guarda vidas, mesmo. As pessoas estranharam, não acreditaram, achavam que era mentira, notavam que eu estava mancando e não acreditavam.

Como você voltou aos tatames depois disso?

– Em novembro, competi em um campeonato com kimono, e fiquei em 3o lugar na minha categoria e 3o lugar absoluto, aí me animei.

Foi o primeiro campeonato depois de anos afastados por causa das dores causadas pela chikungunya. Arquivo.

Treinei forte, e fui competir no mundial no sem kimono no Campeonato Mundial No Gi, em São Paulo, no Ibirapuera, que ganhei.

E como foi?

– Tava muito cheio, e é muito bonito, a arena parece aquela de gladiador. Nunca tinha lutado lá, e achei fantástico. É diferente de qualquer lugar do mundo. E só atletas de ponta. Eu lutei só com brasileiro, porque os gringos foram todos derrotados.

A primeira luta foi muito difícil, porque peguei um adversário de 140 kg e 2 metros de altura. Ele era faixa preta, e tinha uma estratégia muito boa. Mas eu montei a minha, fiz uma guilhotina nele, aí ele fraquejou, e eu decidi não fazer mais força porque teria as outras lutas. Então pulei para as costas dele. Ganhei.

Na segunda luta, lutei com um cara muito forte, que colocava a mão no meu pescoço, me jogava pra longe. E assim foi, lutadores muito rápidos, muito fortes.

No pódio, com os outros competidores, recebendo a medalha de ouro. Arquivo.

O que mudou na sua vida depois disso, e o que você espera fazer no futuro?

– Consegui um patrocínio da Noi. Conheço os donos há muito anos. Eu sou daqui, e eles são amigos dos meus avós e tal. Um dia eu brinquei “Po, será que dessa vez rola um patrocínio”. Aí eu ganhei o mundial, e eles resolveram me patrocinar.

Agora, estou me preparando para os campeonatos que vão rolar esse ano. Tem um na Califórnia, daqui há alguns meses, e quero perder algum peso. Estou 110 quilos, e 1,86 de altura. Quero perder uns 10 quilos, ficar um pouco mais leve, a pesar de 100kg também ser bastante pesado, mas é a minha categoria.

Depois de anos afastado, pandemia, e outras dificuldades, você ficou inseguro quando foi competir? O que passou pela sua cabeça nessa hora para se motivar?

– Na verdade, quando saí de casa, fui pensando que treinei muito, dei o meu melhor, dei muitas aulas por muitos anos, sabendo que eu tinha entendimento corporal, experiência, e tudo, e fui pensando “Seja o que Deus quiser”. O que me motivou muito também foi a luta da vida, né, a gente faz uma reflexão de quem você era antes dos altos e baixos, e depois deles. Você vê a sua luta e a de pessoas queridas também, aquilo te sensibiliza.

Eu me sinto mais forte quando eu vejo uma luta da vida, que é mais pesada que a luta do tatame, como perder alguém querido, estar desempregado, sem grana, perder um relacionamento de muitos anos, e não é fácil. Aí você vê a vida dessa forma e vai canalizando. O mundo não precisava ter guerra, como essa que está tendo na Ucrânia.
Então, você ser mais sensível, mais humano, quando entro no tatame, na luta, eu fico mais leve. Eu sou um casca grossa, mas eu tenho amor ao próximo, tive uma boa família.

Após receber a medalha, ele comemora deixando uma mensagem de perseverança. Redes sociais.

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