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Conheça a história do clube de Martine Grael, o Sailing, um dos celeiros da vela do país

Berço de alguns dos maiores velejadores do Brasil, clube onde não entram lanchas foi dos primeiros a dar visibilidade a mulheres no esporte
Martine Grael e Kahena Kunze com as medalhas de ouro. Foto- Livia Figueiredo
Kahena e Martine no Rio Yacht Club após bicampeonato em Tóquio/ Foto: Livia Figueiredo

“Um patrimônio imaterial”. É como uma das organizadoras do livro de ‘100 anos do Rio Yacht Club’, a museóloga e também velejadora Maria Cristina Mitidieri, define o clube. O legado é enorme e a história do clube, berço da vela em Niterói, ajuda a explicar o sucesso de Martine Grael nas Olimpíadas do Rio e, agora, em Tóquio, ao lado de Kahena Kunze.

O Rio Yacht Club, originalmente Rio Sailing Club, é um grande celeiro de velejadores: os gêmeos Axel e Éric Schmidt, os primeiros a vencer um título internacional, a irmã Margrete Schmidt, o nosso maior campeão olímpico, detentor de cinco medalhas, Torben, e seu irmão Lars Grael, Marco, Marcelo Ferreira, Clínio de Freitas, Isabel Swan, Claudia Swan de Freitas, Norman MacPherson, Antônio Paes Leme… apenas para citar alguns nomes que consagram o clube como um dos maiores celeiros da vela de Niterói e do mundo.

O Sailing, no início de tudo

A pesquisadora conhece de perto a vida do clube. Foi o contato com as histórias que ouvia na piscina, no restaurante e nas saídas de barco, que despertou o seu interesse por por resgatar a memória do Sailing, como o clube ainda é chamado pelos sócios. Maria Cristina no clube é Kiki e costuma velejar sempre que pode com o marido Guilherme. O interesse em documentar a paixão pela vela na cidade foi tanto que se especializou no assunto e a pesquisa virou tese de curso.

O clube foi pioneiro em diversos aspectos. Foi o percursor da vela. O primeiro a se dedicar exclusivamente ao esporte. Em 1920, foi criado o primeiro barco a vela projetado e construído no Brasil, o Haggen-Sharpie, por sócios do Rio Yacht Club, em um momento em que a importação de materiais não era tão viável. A tecnologia, inteiramente local, foi criada em 1920. O projeto original sofreu algumas alterações e foi reformulado, em 1936, com a colaboração do experiente velejador e sócio do clube, o dinamarquês Preben Schmidt, bisavô de Martine Grael, que também ajudou na construção da sede nova do clube.

Sede Rio Yacht Club, anos 30 / Foto: Divulgação

As mulheres na vela

Em 1921, o clube organizou a primeira regata feminina do Brasil, numa época em que as mulheres ainda não tinham muita representatividade e muito menos oportunidade para ocupar espaços e escrever suas histórias em um esporte, até então, protagonizado por homens.

– A Margrete Schmidt, irmã do Erick e Axel, competia de igual para igual. Foi cinco vezes campeã de vela e inspirou diversas gerações. Ela pegou um período muito complicado, que era a época do governo de Getúlio Vargas, super nacionalista. O clube não podia ser registrado porque ele era entendido como entidade estrangeira. Havia muita repressão ao esporte feminino nessa época e foi justamente a época em que a Margret competia. Ela se destacava muito na vela e deixa um legado enorme. Infelizmente, morreu muito nova, aos 28 anos, em uma acidente aéreo – destaca Mitidieri.

Cristina conta que a família Grael sempre foi muito apegada à tradição e à história. Dão enorme valor à sabedoria dos que vieram antes. Além da Margret, Martine Grael, atual campeã olímpica, se espelha em outra figura feminina muito próxima, que é a sua mãe, Andrea Grael.

– A Andrea velejava ainda grávida da Martine, com 9 meses. Além de incentivar a Martine ao esporte, ela é uma grande velejadora. O clube sempre deu muito espaço para mulheres. A vela é um esporte que você compete junto, tem a tripulação mista. Outro exemplo também é a Claudia Swan, que participou das Olimpíadas em 1992. Tem a Isabel Sawn, sobrinha da Claudia, primeira velejadora brasileira a ganhar uma medalha, nas Olimpíadas de Pequim em 2008. Então, tudo isso acaba criando um ambiente para que surja uma Martine. As pessoas buscam no passado a tradição e se sua família já veleja também acaba tendo um envolvimento com aquilo – ressaltou.

Sheila e Margrete / Foto: Acervo RYC

O pioneirismo

Em 14 de abril de 1914, às vésperas da I Guerra Mundial, o Rio Sailing Club foi fundado em Niterói. Embora o contingente de ingleses no Yacht Club Brazileiro fosse significativo, os ingleses decidiram formar um novo clube, sobretudo porque, junto com os sócios escandinavos, preferiam que o foco das atividades do clube estivesse voltado para o esporte.

Na época, Niterói era a capital do Estado do Rio de Janeiro e sede de diversas empresas inglesas, como bancos e companhias ligadas a serviços de infraestrutura. O município atraiu diversos profissionais ingleses e famílias que trabalhavam e desejavam viver na cidade.

– Niterói foi capital do Estado até 1975 e isso fomentou as atividades econômicas daqui. Bancos, infraestrutura, transportes, eletricidade, gás e seguradoras eram inglesas, por questões antigas, que remetem ao Império. Facilitava muito para empresas e cidadãos se estabelecerem aqui no Brasil. As pessoas acabaram sendo atraídas para aquele ambiente do clube. No começo, existiam várias condições favoráveis para o surgimento de clubes aqui em Niterói, a própria geografia da cidade é um exemplo. Aqui os clubes estão muito próximos aos bairros residenciais, enquanto no Rio, eles ficam mais afastados. Além de condições econômicas, claro, muito alavancadas pela presença dos estrangeiros – conta Mitidieri.

São vários os marcos que ajudam a consagrar o local que formou diversos atletas medalhistas. O primeiro barco a vela projetado e construído no Brasil foi da primeira classe de barcos monotipo do Brasil, que marcou presença nas águas da Baia da Guanabara, em competições e passeios, por mais de 30 anos. Desde 1930, o clube esteve também envolvido na formação das principais associações e ligas esportivas ligadas ao iatismo no país.

Restrições

O clube sofreu muitas restrições, ao longo do Estado Novo, por conta de seu perfil “estrangeiro”. A dificuldade de reconhecimento do clube como entidade esportiva se deu, principalmente, por conta das restrições impostas pelo governo às entidades “estrangeiras”, que aumentaram ao longo dos anos 1935 a 1945. Fato que obrigou o clube a mudar seu nome, uma vez que “Sailing” não era uma palavra reconhecida neste país. Foi então que o clube passou a ser chamado de Rio Yacht Club.

Sede Antiga do Rio Yacht Club, 1948 / Foto: Divulgação

Conquistas

A partir dos anos 1950, o Rio Yacht Club começa a se sobressair como potência campeã de competições à vela, para além dos limites do Rio de Janeiro, com atletas vencedores de campeonatos nacionais e sulamericanos. Em 1965, os irmãos e atletas do clube Axel e Erik Schmidt conquistaram o tricampeonato mundial da classe Snipe tornando-se os primeiros brasileiros tricampeões mundiais em um esporte – título que a seleção brasileira de futebol só alcançaria cinco anos mais tarde.

Ao longo das últimas cinco décadas, o Yacht Club continua escrevendo sua história no cenário do iatismo nacional e internacional, por meio da constante participação em competições, em associações esportivas e na organização de regatas. Além das medalhas olímpicas conquistadas até o momento e, considerando as medalha de ouro de Martine Grael, os atletas do clube participaram, no total, de 19 olimpíadas. Desde 1968, o clube conquistou mais de 40 títulos mundiais em classes diversas de barcos, além de cerca de 260 títulos entre campeonatos pan-americanos, brasileiros, europeus, norte americanos e sul-americanos. O atleta mais vitorioso do clube, o iatista Torben Grael, pai de Martine, é considerado um dos maiores velejadores em atividade no mundo.

O Rio Yacht Club atualmente / Foto: Eduardo Guedes

Torcida Martine

Devido ao horário ingrato do fuso horário de Tóquio, Cristina não pode assistir às regatas desta Olimpíada, mas guarda com muito carinho as lembranças do Ouro conquistado pela dupla Martine e Kahena nas Olimpíadas do Rio, em 2016.

– Nas outras Olimpíadas a gente pode curtir mais. O pessoal do clube se organizou e no dia da final da vela nós fomos à Marina da Glória. A tia avó da Martine, Moema, quase desmaiou de emoção. Todo mundo gritando. Foi muito legal. Uma festa. Esse ano, foi tudo online. Ficamos mandando mensagem nos grupos de vela. Fiquei mais isoladinha. Foi diferente. Eu não sou “raiz”, como eles costumam falar. Entrei para o clube em 2007, mas sou muito acolhida – concluiu.

A dupla bicampeã olímpica Martine e Kahena / Foto: Reprodução Instagram

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