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Clube de Tiro Esportivo no Iate Clube Brasileiro divide opiniões

Comodoro do clube defende proposta de investidor para resolver os problemas financeiros do ICB; sócios vêem risco e protestam
Herval Latini aposta no Clube de Tiro Esportivo para investir no clube. Foto- Amanda Ares
Herval Latini aposta no Clube de Tiro Esportivo para investir no clube. Foto: Amanda Ares

Uma prática que não aparece nos estatutos de nenhum clube de náutica pode entrar no quadro de atividades do Iate Clube Brasileiro, em Niterói: um clube de tiro. A proposta faz parte de um plano de reestruturação do clube centenário, que segundo o novo Comodoro, o médico Herval Latini, passa por problemas financeiros graves, que colocam em risco a continuidade das atividades. Mas a possibilidade de ter um stand de tiro olímpico nas dependências ICB preocupa os associados.

A questão ultrapassou os muros do clube, com o surgimento de protestos nas redes sociais, questionando a inadequação do projeto à finalidade do clube e o risco para os sócios. O A Seguir: Niterói visitou o ICB a convite do Comodoro para esclarecer a origem do projeto e condições para a implementação da atividade ali. Segundo ele, por enquanto, não há nada decidido: a decisão final será tomada através de um plebiscito, que vai durar dois dias, com o voto de membros do Conselho do clube, ainda a ser marcado.

Vela, motor e tiros

Na entrada do clube, passando pela recepção, descendo o elevador, chega-se à secretaria, onde uma funcionária oferece álcool em gel para quem vai entrar e sair da área comum. Na parede de vidro que divide o hall e a sala administrativa, alguns avisos chamam a atenção, entre eles uma regra básica: “É proibido entrar armado nas dependências deste clube.” O ambiente agradável da náutica, com uma bela vista para Jurujuba, transmite muita tranquilidade, porém, segundo o Comodoro do clube, a calmaria aparente não reflete a realidade do clube centenário.

Empossado em janeiro deste ano e tendo mais de 30 anos de associado, Herval Latini diz que herdou de gestões anteriores problemas que quase resultaram no fechamento do clube. Além disso, havia muita inadimplência por parte dos sócios, uma consequência da combinação catastrófica de crise econômica e da pandemia do coronavírus, que suspendeu as atividades dos clubes da cidade.

Ele relata que a equipe que o assessora vem pensando em soluções para pagar as dívidas, fazer reformas e atrair novos sócios. A intenção é deixar um legado para o clube pelo qual tem tanto carinho, por onde ele e os irmãos competiram quando jovens. Para tanto, a nova gestão vem propondo atividades desportivas, e buscado fazer reformas na estrutura do espaço, o que custa dinheiro que o clube não tem.

Nova comodoria tem feito obras para recuperar a estrutura do clube. Foto: Amanda Ares

Uma das propostas surgidas para financiar diversas mudanças no espaço foi a de um Clube de Tiro Esportivo. O próprio Latini nunca participou de um. A proposta foi trazida pelo diretor esportivo do clube, um policial federal, e chegou com um investidor que já tem todo o projeto de arquitetura e engenharia prontos. O Comodoro não revelou o nome do investidor.

Publicação do clube parabenizando atiradores esportivos. Reprodução da Internet

A proposta foi apresentada aos sócios e recebeu críticas. Para Herval, a atividade seria mais uma modalidade esportiva e seria economicamente benéfica para o clube, que precisa fazer reformas urgentes para se adequar às determinações do Instituto Estadual de Ambiente (Inea).

Problema ambiental quase fechou o clube

Apesar da inadimplência ser um entrave para as contas do clube, o Comodoro diz que um problema antigo que vinha sendo negligenciado pelas últimas duas gestões foi o que colocou de fato o ICB em uma situação fiscal e legal muito delicada, a ponto de ter data pra encerrar as atividades:

– Uma lancha, que estava por fora da nossa área, não se sabe de quem, afundou e soltou uma mancha de óleo gigantesca. Pela maré, o óleo entrou e lavou isso aqui. Uma pessoa denunciou derramamento de óleo, o Inea veio aqui e até você provar que a lancha não era do clube, o dono não era sócio do clube… – relembra Herval.

O acidente em questão ocorreu em setembro de 2016 e está citado no Relatório Diagnóstico de Vazamento de Óleo na Baía de Guanabara (2016) do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), documento com a análise de ocorrências de derramamento de óleo na Baía de Guanabara entre os anos de 1983 e 2016. Na página 77, há uma citação do episódio mencionado pelo Comodoro. O texto diz:

“Durante a Operação Paralímpica, foi possível identificar a origem de duas manchas de óleo. Uma delas ocorreu no dia 12 de setembro e foi resultado do naufrágio de uma embarcação no Iate Clube Brasileiro, em Niterói. Nesse evento, a mancha, formada por 12 litros de óleo, foi classificada como grande. O outro evento ocorreu no dia 14 de setembro, quando, durante o sobrevoo das 9h30, foi possível observar um rastro de óleo proveniente da Lancha ARX Serviços Marítimos. A mancha, com volume estimado em 55 litros – a maior identificada no período paralímpico –, se estendia do Iate Clube do Rio de Janeiro até a Escola Naval.”

Em 2000, a Lei Federal No 9.966, (Lei do óleo) determinou penas mais severas para vazamentos de óleo. O Inea exigiu a limpeza do local e fez uma série de exigências de reformas que deveriam ser feitas para adequar o clube às normas de segurança ambiental. A Comodora da época não cumpriu as exigências e foi multada, recorreu, mas o Inea não aceitou o recurso. O problema, que já era ruim, foi se tornando uma bola de neve, acumulando uma grande dívida para o ICB e dor de cabeça para Herval, que assumiu em janeiro de 2021:

– Em setembro do ano passado (2020), o então Comodoro recebeu uma notificação do Inea dizendo “olha, vocês não estão arrumando nada, né? Em seis meses, se vocês não se mexerem, vamos fechar o clube”. A firma que começou o trabalho veio aqui em fevereiro – a advogada é inclusive ex-sócia e irmã de sócio, tem amor ao clube – e avisou desse problema notificado em setembro. Ou seja, em março eu estaria com o clube fechado. Aí nós conseguimos a princípio mais seis meses, mas começamos a nos movimentar pra providenciar as documentações. E nós estamos providenciando isso tudo, todas as exigências dentro das normas do Inea.

O polêmico clube de tiro

O projeto de reforma é grande e dispendioso, segundo o gestor, mas o Inea tem tido boa vontade em estender o prazo de resolução e pagamento da dívida. Além disso, há planos de reformar a secretaria, criar um espaço infantil e ampliar a marina, construindo um deque novo, entre outras mudanças com o intuito de atrair mais sócios. Sem recursos para tanto, a solução pareceu vir de um investidor interessado em construir um Clube de Tiro Olímpico no ICB.

Segundo Latini, a proposta inclui a construção do espaço físico sem custos para o clube, a reforma da antiga sala da secretaria, abandonada em outras gestões por problemas estruturais, e também a construção de um espaço para crianças, que hoje não possuem uma área específica para elas no ICB. O clube não irá adquirir armamento nem munição, e a segurança dos alunos também ficará a cargo da empresa. Para Latini, é um acordo que traria ganhos para o ICB:

– Esse investidor que quer fazer o stand de tiro faria essa reforma a custo zero pro clube, e construiria também um moderno “espaço kids”. Além disso, eles pagariam um aluguel mensal pro uso do espaço, 30% da mensalidade dos atiradores inscritos ficaria com o clube, e 70% com os instrutores.

Outra fonte de renda seria a realização de competições e patrocínios. Ele faz questão de ressaltar que só poderão entrar armamentos sem munição e desmontados, que deverão ser montados na frente dos instrutores, e que apenas serão permitidas armas legalizadas. O ICB não irá adquirir esse tipo de equipamento.

Os que discordam da proposta temem pela segurança dos sócios e funcionários e também questionam a atividade, que incentivaria uma cultura armamentista, contrária à proposta original do clube náutico.

Em julho, o assunto foi levado para uma reunião de sócios, em que compareceram 60 pessoas. Latini relembra que a recepção foi ruim e acredita que muitas das impressões das pessoas vêm de informações incorretas sobre o assunto:

– Pessoas dizendo que o contrato teria 30 anos. Uma sócia se levantou na reunião dizendo “quer dizer então que eu estou aqui, batendo papo com meus amigos, e a cada tiro eu vou dar um pulo na cadeira?”, a gente precisa ler, precisa se instruir pra não falar bobagem.

Sócios discutem sobre a proposta de ter um Clube de Tiro Esportivo, em postagens do ICB Reprodução da internet

Sobre o medo de conviver com o som dos estampidos, Latini esclarece que o plano apresentado pela empresa que montaria o stand inclui isolamento acústico. Também haveria uma saída separada da área social e que, portanto, ninguém poderia circular armado, como já prevê o regimento interno. Não sócios também poderão fazer a atividade, como já ocorre em outras modalidades como o judô e a vela. Sócios que quiserem fazer a atividade e tiverem uma arma, deverão deixar o equipamento desmontado e trancado no stand antes de se dirigir à área comum, e apenas poderão retirá-lo quando forem sair do clube.

Latini: local destinado para stand de tiro esportivo fica atrás do clube. Foto: Amanda Ares

– A Segurança que eu tenho é que esse stand seria completamente isolado da entrada social, ele é atrás do clube, com entrada e saída exclusivas. Porque é permitido um delegado, um policial federal que queira vir participar do clube.

Se não for sócio, ele vem com a arma dentro da maleta, sem munição. Chega, pratica o tiro, termina, o instrutor desmonta e retira a munição da arma, e vai embora. Se for sócio, a arma fica guardada ali dentro, até a hora de ir embora. A segurança lá dentro é de responsabilidade da concessionária – explica Latini.

Espaço seria reformado pelo investidor interessado no empreendimento, sem custos para o clube. Foto: Amanda Ares

Ele diz que não acredita que a atividade irá incentivar a compra de armamentos, uma vez que são equipamentos caros, e ainda de difícil acesso no Brasil. Segundo o Estatuto do Desarmamento, é proibida a posse de arma em espaços públicos e privados de todo o território nacional, salvo exceções muito específicas, como para agentes do Exército e policiais militares no exercício da função e seguranças de empresas privadas, também no exercício da função. Outra exceção é para pessoas que comprovarem a necessidade do equipamento, e mesmo assim, é preciso passar por diversos testes além de não ter antecedentes criminais.

A arma mais vendida no Brasil atualmente é a G2C da americana Taurus. No site da empresa, a descrição diz que ela é uma arma “de entrada”, para novos compradores. Custa R$ 5.400. Mesmo sendo um hobby tão dispendioso, no ano passado, o número de novas armas adquiridas por civis no Brasil foi de 186.071, um aumento de 97,1% em comparação com 2019.

O Comodoro diz, ainda, que outros dois clubes náuticos de Niterói estariam sondando a possibilidade de implantar clubes de tiro esportivo, mas o A Seguir não conseguiu confirmar a informação.

Falsa sensação de segurança

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), as polícias Civil e Militar apreenderam 82.969 armas de fogo no estado do Rio de Janeiro na última década. Destas, 3.784 eram pistolas e 2.878, revólveres. No ranking com os dez fabricantes com o maior número de armas apreendidas, a Taurus liderou: foram 2.913 apreendidas, que haviam sido compradas legalmente e que acabaram indo parar na posse do crime organizado.

O balanço de 2020 ainda não foi fechado, mas segundo o ISP, entre janeiro e setembro, foram registradas 4.858 apreensões, sendo 2.213 pistolas, e 1.766 revólveres, ainda sem informações sobre as fabricantes.

Decisão será do Conselho de Sócios

Latini esclarece que nenhuma decisão será tomada de cima para baixo e que a palavra final será do Conselho de Sócios, um grupo com poder de voto em tomadas de decisões de interesse coletivo. Um dos regimentos do clube é o respeito ao debate e à democracia, que o Comodoro garante que serão cumpridos, mesmo que isso signifique a rejeição ao projeto:

– O resultado vai sair através de um plebiscito. Vou fazer em um sábado e domingo, de 8h às 18h. Se ninguém for a favor, se não quiserem, não vai ter o stand de tiro. Se forem a favor, já tem o projeto pronto.

O Clube tem passado por reformas e pretende reabrir o salão principal tão logo a situação sanitária permita. Como médico, Herval Latini compreende a importância da interrupção de festas e aglomerações e vem tentando adaptar as atividades do clube, para evitar que se torne um ponto de contaminação. Caso o Clube de Tiro não seja possível, ele se apega à possibilidade de que a retomada dos eventos possibilite a estabilidade financeira do ICB:

– Estamos saindo de uma fase muito crítica e estamos conseguindo fazer um “avançozinho”. Iniciei em janeiro com uma taxa de inadimplência de 20%, e agora a taxa caiu para 12%. Esperamos conseguir fazer mais coisas por aqui – conclui.

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