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Desafio em mar aberto: atleta com deficiência física de Niterói nada 16 km

Por Sônia Apolinário
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O advogado niteroiense Guilherme Gomes nadou 16 km, em 6h40. Ele não tem um braço e sofre de semiparalisia em uma das pernas.
Guilherme Gomes
Guilherme, de 43 anos, se impôs o desafio da travessia e ganhou medalha. Fotos: Thaís Pacheco

Na manhã de sábado, 10 de dezembro, o advogado niteroiense Guilherme Gomes, de 43 anos, nadou em mar aberto do Leme à Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O percurso de 16 km foi realizado em 6h40. Um feito e tanto para qualquer desportista, ainda mais para ele que é um atleta PcD (pessoa com deficiência): Guilherme não tem um dos braços e sofre de semiparalisia em uma das pernas.

Nadar esse percurso foi um desafio que ele se impôs. Para realiza-lo, treinou uma média de 1h30, diariamente, nos últimos três meses, na praia de Camboinhas, na Região Oceânica de Niterói.

Foi por conta de um acidente de moto, sofrido em 2003, aos 26 anos, que Guilherme precisou amputar o braço. Ainda restou como sequela a semiparalisia da perna, quebrada quando um carro desgovernado, em alta velocidade, o atingiu.

A Seguir conversou com Guilherme poucas horas após sua vitória. Um momento que misturou alegria, emoção e uma incrível confiança no futuro. Tanto que ele já tem um novo desafio, ainda maior, pela frente.

Guilherme Gomes no início da travessia.

Confira:

Por que decidiu fazer essa travessia?

Ano passado, por pura diversão, eu, minha mulher e dois amigos nos inscrevemos para nadar do Leme ao Pontal. São cerca de 34 km. Nadamos em revezamento: 1 hora para cada um. Quando terminamos, acabei chamando a atenção por ter sido o primeiro PcD a fazer esse percurso. A partir daí, comecei a pensar em uma forma de me desafiar.

Desde quando você nada em mar aberto?

Nado no mar, sem compromisso, há quatro anos. Comecei a nadar por necessidade. Sobraram poucas modalidades esportivas para mim. Quatro anos após o acidente, fui nadar na piscina. Nessa época, eu andava de bengala e não tinha muita disposição física para andar. Foi quando vi que precisava fazer exercícios. Primeiro, fui para a piscina, depois para o mar. Fiquei cinco anos na piscina até ir para o mar. No mar, nunca fiquei com medo, mas, no início, tive muita dificuldade para nadar porque não é um ambiente controlado como na piscina. Comecei nadando pequenos trechos. Percebi que tinha resistência e fui aumentando o percurso.

Você usa algum equipamento para ajudar a flutuar?

Não uso qualquer instrumento de adaptação. Quando comecei a nadar, achava que seria o tempo todo empurrado para o lado ou que nadaria em círculos, por só ter um braço. Porém, com o tempo, o corpo vai se adaptando. Hoje, consigo nadar reto, mas nado de uma maneira diferente dos meus amigos que não têm deficiência.

Como se preparou para o desafio de nadar do Leme à Barra?

Eu já treino há tempos, em Camboinhas, com a BF Swim, que é uma assessoria esportiva de Niterói voltada para treinamento de natação em águas abertas. Para esse desafio, foi cerca de uma hora e meia, diariamente. Nos últimos três dias, só comi massa. Hoje (sábado, 10), acordei meia-noite e meia e comi uma banana, pasta de amendoim e pão com cream cheese. Às 2h, cheguei em Jurujuba para pegar um barco e seguir para o Leme. Às 4h, pulei na água, lá no canto, na altura da pedra.

Sentiu medo?

Não, mas não dormi bem, fiquei ansioso. O desafio vinha sendo remarcado há semanas, por conta do mau tempo. O mar estava agitado, com  correnteza contra. Quando a correnteza melhorou, marcamos a data. Dei sorte. Hoje, o dia estava lindo, o mar estava calmo, a água em torno dos 23 graus. Tudo perfeito. Nadei o tempo todo a cerca de dois mil metros da areia. Não sei qual era a profundidade do mar naquele ponto. Na altura de Ipanema, como a água estava muito cristalina, deu para ver a areia no fundo e pedras.

Cruzou com peixes grandes ou tartarugas?

Não. Apenas, em vários momentos, cardumes de peixes nadaram por baixo de mim. Eram muitos cardumes, mas os peixes eram pequenos.

Guilherme ao chegar na praia da Barra da Tijuca.

Acompanharam você de barco?

Sim. Um barco da Associação do Leme ao Pontal me acompanhou durante todo o trajeto. Essa associação dá suporte para desafios de nados nesse percurso. No barco, estavam o presidente da Associação, Aderbal  Oliveira; minha esposa Thaís Pacheco e meu técnico Bruno Ribeiro. Depois de completar o percurso, teve uma premiação, na Urca. Recebi uma medalha e um certificado. A associação chancelou minha travessia e, agora, vai informar para instituições internacionais. Para a prova valer, existem regras. Por exemplo, eu não posso subir no barco e ninguém pode me ajudar. Como estratégia, parei a cada 30 minutos para me hidratar e comer algum carboidrato, dentro da água, mesmo. O pessoal no barco me passou as coisas com a ajuda de uma vara. Terminei a prova no Quebra-mar. Saí na areia, um pouco depois do canal da Barra. De lá, fui de barco até a Urca, para a premiação.

Quando você treina, entra no mar furando as ondas ou mergulha de alguma embarcação?

Eu entro no mar normalmente, furando as ondas. Faço isso mais devagar do que as outras pessoas, mas faço. Na hora de sair, também não consigo sair rápido, então, tenho que ter paciência para esperar o melhor momento para sair, para o mar não me puxar de volta. Não costumo levar muitos caldos, não. Em Camboinhas, quando o mar está muito forte, treino em Itaipu.

Se você consegue fazer essas coisas é porque decidiu que superaria o acidente. Quando tomou essa decisão?

Eu decidi que iria superar o acidente quando percebi que eu tinha passado a ser o termômetro da minha família. Se eu ficava feliz, todos ficavam; se eu ficava arrasado, todos também ficavam. Entendi que passar por cima era algo que eu precisava fazer para aceitar o que tinha acontecido comigo. Decidi também que não queria ficar sentado. O curioso é que nunca me identifiquei com nenhum esporte. Nunca tinha tido vontade de fazer coisas além do limite. Eu fiquei dois meses no hospital. Depois, foram seis anos de cirurgias corretivas na perna (Guilherme perdeu 10 cm do Fêmur e teve que fazer um crescimento ósseo por cerca de um ano). Não foi fácil, não. Um ano depois de sair do hospital, quando comecei a andar, fiz exame para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ter passado me animou. Foi aí que começou a minha decisão de não me entregar.

Como era o Guilherme de antes do acidente?

Até o acidente, eu era uma pessoa que não tinha interesse por esporte. Tinha acabado de me formar e minhas metas eram profissionais. Era extrovertido, tinha muitos amigos e adorava motos.

Pensa em se profissionalizar como atleta?

Nunca cogitei de me tornar um atleta paralímpico. Atualmente, esses atletas são de ponta, é uma grande dedicação e eu já estou com 43 anos.

Acredita ter superado completamente o acidente?

Ainda tem momentos que sinto que não foi totalmente superado. Tenho dificuldades para fazer coisas básicas e isso me lembra o acidente. Acho que superar, nunca supera. Você tolera, convive bem, mas não supera.

Qual seu próximo desafio?

Meu próximo desafio é ser pai. Minha esposa, que é fisioterapeuta e ajuda a cuidar de mim, está grávida de seis meses. Teremos uma filha. Vai se chamar Marina, um nome que vem do mar. Tenho certeza que esse desafio vai ser muito mais difícil por ser um desafio que vou passar por toda a minha vida: todas as fases da minha filha, todas as encrencas de cada idade, todas as dificuldades. É como se eu fosse fazer, agora, uma prova, para o resto da minha vida, que vai ter várias intensidades e percursos. Certamente, esse desafio será muito maior do que o desafio que fiz hoje.

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