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“Ano que vem eu vou…” Como equilibrar as eternas metas de Ano Novo?

Por Camila Araujo
| aseguirniteroi@gmail.com
Em entrevista, a psicanalista Maria Prisce Cleto Teles Chaves explica que criar expectativas muito elevadas é que tendem a causar frustrações
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Novo ano, novas metas, novas apostas – Arte: Sônia Apolinário

Encontrar um grande amor, ganhar mais dinheiro, aprender uma nova língua, fazer aquela viagem, começar uma dieta, finalmente entrar para a academia.  Todo final de ano, é comum as pessoas criarem metas para o ano seguinte. Geralmente, a lista é longa e, por isso mesmo, nem sempre é possível realizar tudo. O resultado pode ser uma frustração, na hora de se fazer o “balanço do ano”, outro hábito comum nessa época.

Será que dá para estabelecer metas de forma mais saudável para que isso não crie tanta ansiedade? Foi sobre esse tema que o A Seguir: Niterói conversou com a psicanalista Maria Prisce Cleto Teles Chaves.

Com formação na Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro, ela é mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade e docente de pós-graduação do Instituto de Ensino e Pesquisa do Centro Universitário Filadélfia (UniFil, Londrina, no Paraná). A psicanalista tem consultório em Niterói.

Confira suas orientações 

A Seguir Niterói – Por que as pessoas tendem a fazer resoluções de ano novo?  

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – Porque é exatamente o entendimento de que é o fim de um ano.  É como se você pudesse fazer uma renovação dos seus votos. Geralmente, as pessoas fazem um balanço do que foi alcançado, do que não foi, dos desejos realizados, dos não realizados e criam novas expectativas, fazem novas apostas. Isso não é uma coisa ruim, porque envolve esperança. Como diz o ditado popular, “a esperança é a última que morre”, ou seja, enquanto há esperança, há vida, há Eros, há possibilidades e desejos possíveis. O ruim é o excesso.  Todo excesso é danoso para as pessoas. Com as expectativas muito elevadas, as pessoas começam a fantasiar demais e aí a frustração tende a ser muito grande.

A Seguir Niterói – Criar expectativas é inevitável?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – Não. É saudável criar expectativas. Inevitável é muito determinista, é como se todas as pessoas criassem expectativas, o que não é verdade. As pessoas que não conseguiram realizar seus lutos do que não foi alcançado, por exemplo, melancolizam e não conseguem, muitas vezes, criar expectativas, não têm muitas esperanças.

A Seguir Niterói – Qual é a diferença entre esperança e expectativa?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – Uma está sempre associada a outra. Quando você vê que uma pessoa tem uma baixa esperança é porque ela não crê no que ela está desejando, a expectativa dela é frágil. A expectativa é sempre da realização de um desejo. A esperança é de que esse desejo possa ser realizado. Um exemplo: a gente tem a expectativa de que no ano de 2022 acabe a pandemia. É uma expectativa. A esperança é de que as vacinas possam ser aplicadas a todo mundo para que esse desejo possa ser realizado. Porque enquanto houver pessoas que não forem vacinadas, enquanto a vacina não for aplicada mais intensamente, pelo menos na grande parte da população mundial, a gente corre o risco de a pandemia persistir, uma vez que as variantes vão ocorrendo.

A Seguir Niterói – Como lidar com expectativas de forma que isso produza menos sofrimento psíquico?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – Quanto mais você tem noção de limite, quando mais você pode entender que as suas expectativas estão em acordo também com os limites que a vida pode impor, quanto mais você suporta as frustrações, menos sofrimento psíquico. Um dos grandes indicadores de saúde mental é como a pessoa lida com a frustração. A vida não é só princípio do prazer, ela também envolve desprazer. Saber harmonizar essas duas coisas é uma condição que lhe dá mais possibilidades. Quanto mais o princípio de realidade está em harmonia com o princípio do prazer, maior é possibilidade de reagir melhor à frustração.

A Seguir Niterói – Como você avalia mais essa virada de ano, de 2021 para 2022, ainda em pandemia?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – A gente tem passado por muitas perdas. O mundo está sob uma nuvem que abafa as expectativas e tende a abaixar a esperança das pessoas. É Tânatos que está em vigor – na mitologia grega, a personificação da morte e da destruição, ou seja, a pulsão de morte está muito violenta. A desgraça é muito impactante, porque é da ordem do real, que destitui a condição do imaginário e do simbólico. Sem esses dois, você não tem muitos recursos. Nada é mais substancial para lidar com a vida do que o simbólico. Quanto mais um povo tem o simbólico fortalecido, mais saudável ele é. Então, por exemplo, o povo que tem a cultura, a arte, a leitura e a possibilidade de criação mais incentivadas, menos violento tende a ser esse povo; mais ético, mais respeitoso com o outro, muito mais criativo e, com isso, pode ser muito menos sofrido. É isso que nos dá possibilidade de escolher, de poder lidar com as palavras, com os significantes, de se posicionar de forma diferente para a vida e de mirar de forma diferente o mesmo ponto. Quando você segue a Tânatos, você está a dizer “nada presta, nada serve, é tudo uma porcaria, não tem esperança, é uma droga mesmo, a vida é morte”. Porém, a vida não é só morte. Então, quanto mais você puder dar a Eros – enquanto energia e potência de vida – mais poder do que a Tânatos, ou seja, dar à vida mais poder do que à morte, mais condição você tem de estar elaborando melhor e lidando melhor com os entraves que a vida pode lhe trazer. Como diz (Sigmund) Freud, “a vida é árdua” e a gente precisa ter recursos para lidar com ela.

A Seguir Niterói – Essa época do ano também acaba sendo um período depressivo para muitas pessoas e, com a pandemia, isso se intensificou mais ainda. A que se deve essa angústia em datas festivas, como Natal e Ano Novo?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – São épocas em que você está mais próximo da família, que é de onde partem os grandes ferimentos, porque os nossos afetos estão muito mais envolvidos ali. Tudo o que nos afeta fala de muita proximidade. Estou referida a coisas que estão em algum ponto do nosso ideal, as nossas amizades, relações afetivas. É preciso saber lidar com essas dinâmicas que a cultura impõe. O Leandro Karnal tem um livro chamado “O dilema do porco espinho”, que mostra o quanto é importante saber manter um certo distanciamento. Porque para viver com um outro é preciso estar próximo sem estar colado. Daí a questão do Natal e do Ano Novo serem momentos de conflito para muitas pessoas. Há outros casos, no entanto, de pessoas que estão, de fato, muito solitárias, muito sozinhas, porque perderam seus entes familiares, ou estão em outro país, onde não conhecem quase ninguém. São situações que exigem dessas pessoas serem uma boa companhia para si mesmas, serem o seu próprio  acolhimento. Quanto mais adulto você é, quanto mais crescido você é, quanto mais forte você esteja em seu psiquismo, mais você consegue se acolher.

A Seguir Niterói – Como é possível transformar as resoluções de ano novo em desejos mais conscientes? Existe algum caminho para traçar metas de forma mais realista, que gere menos frustração ou não tem receita?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – O que você está falando é sobre como é possível ser feliz, é isso? (risos) Eu sempre lembro das pessoas que vêm ao consultório, geralmente pais, e eu pergunto: “o que você quer para o seu filho?” E eles respondem: “que ele seja feliz”. Ser feliz? Como assim? O que é isso? E aí eles respondem: “ah, não quero que ele sofra” – numa ideia de que felicidade é não sofrer. Isto é uma expectativa da ordem do impossível, porque a gente estaria formando um perverso, um sujeito que está pouco se importando com o outro, um egoísta, uma pessoa que não se importa com o sofrimento de ninguém, que pode perder porque não vai sofrer. É um desejo perigoso esse desejo da felicidade, porque é de uma fantasia que não tem a ver com a vida e nem com a relação com o outro. Para você estar dentro de uma cultura, de uma civilização, você precisa conter suas pulsões, principalmente as pulsões de morte. Quantas e quantas vezes a gente contém uma pulsão imensa de ira, de ódio? Porque a gente convive e tem um freio, porque a gente entende que a gente tem limites, que a gente não é onipotente, onipresente e nem que tem o direito sobre a vida e a morte. A gente tem até um pouco desse direito sobre a nossa vida, mas não sobre a do outro. É muito sério isso de “não quero que meu filho sofra”. A psicanálise não é o lugar ideal para procurar tratamento. Imagine: esses pais querem, então, que quando um deles morra ou o cachorrinho dele morra, o gato morra, a criança não tenha o menor sofrimento? Agora, se esses pais vierem me pedir “ah, eu quero que o meu filho possa saber elaborar melhor os lutos que a vida vai infringir a ele”. Ah, legal, isso é bom, é possível e muito saudável. A vida vai impor momentos de dor, a questão é poder saber lidar com isso.

A Seguir Niterói – Então, está liberado criar metas, resoluções e objetivos para o ano seguinte, desde que se esteja pronto para lidar com as frustrações e as dinâmicas da vida?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – A questão toda é não colocar isso como responsabilidade do outro para me satisfazer. Não é o outro que tem que realizar, sou eu. O desejo é meu. Ssair dessa posição vitimista ou de uma aposta fadada ao fracasso que é a de que o outro pode nos trazer essa felicidade. Então, por exemplo, que o outro governo, que o outro amor, que qualquer outro, é ou vai ser o outro que vai nos trazer a felicidade… Isso sim vai ser de imensa frustração, porque a expectativa fica muito grande, a dor vai ser muito maior se não conseguir. Ou, se consegue, se o outro faz algo que promove essa satisfação, a coisa fica muito perigosa, porque você dá ao outro um poder que os grandes manipuladores utilizam muito, que é dar muita satisfação e depois se aproveitar desse lugar que foi colocado. E aí, ele manda, né? Porém, quem manda no seu desejo é você, não é o outro. Enquanto o outro manda no seu desejo, a sua posição é infantil. Enquanto você está esperando que o outro vai trazer o que você quer, é infantil. Acreditar em Papai Noel é necessário, até certo ponto da vida. Em algum momento, você tem que por isso em questão, porque senão você vai estar sempre esperando que o outro lhe traga o objeto desejado, a expectativa desejada e aí a frustração é muito grande porque não vai ter. Quando você está grande, você está senhor em sua própria casa. Nesse momento, você já tem uma condição mais realista de lidar com a expectativa e a esperança. Não perdê-la, de jeito nenhum, mas poder lidar com ela com mais efetividade, com mais possibilidade.

A Seguir Niterói – Há algo que não perguntei que gostaria de dizer?

Maria Prisce Cleto Teles Chaves – Feliz Ano Novo! (risos)

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