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‘Adolescência’: diretora de escola e especialista da UFF analisam série que expõe a radicalização dos jovens

Por Livia Figueiredo
| aseguirniteroi@gmai.com

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Série que figura no topo das mais vistas retrata impacto das mídias sociais na vida de crianças e na construção do discurso de ódio
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“Adolescência” tem provocado debates intensos em todo o mundo. Reprodução/Internet

Um estudo pioneiro no Brasil, realizado pelo IBGE e pela UFMG, revelou que 13,2% dos jovens já sofreram cyberbullying. A pesquisa aponta que esses números vêm crescendo a cada ano e que as mulheres/meninas são as principais vítimas.

O estudo traz à tona uma discussão que tem tomado conta das redes sociais e da mídia nas últimas semanas, após o sucesso da série da Netflix, “Adolescência“, assistida por mais de 66,3 milhões de pessoas, de acordo com a plataforma, até o dia 25 de março.

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A série figura no topo da lista das mais vistas nas últimas semanas e foi tema de artigos de jornais no Brasil e no mundo todo. É reconhecida como uma das mais inovadoras, seja pela forma como foi filmada (plano-sequência), como na maneira que aborda um assunto que vem causando um profundo incômodo nas famílias, instituições de ensino e na sociedade como um todo.

Ao longo de quatro episódios, a trama retrata os problemas da contemporaneidade, em um ambiente virtual sem supervisão, e estimula a reflexão de como essa prática pode ser nociva na faixa etária dos jovens. O desafio da parentalidade, nesse contexto, é um ponto de atenção da série ao retratar um abismo geracional, assim como a participação da escola na formação do aluno. A radicalização dos jovens aponta um cenário desafiador da série, que explora as influências tóxicas e misóginas às quais os jovens são expostos na internet.

O alcance foi tanto que o governo britânico anunciou que a série será transmitida gratuitamente nas escolas de ensino médio do Reino Unido.

Foto: Reprodução/Internet

Em Niterói, essa discussão já chegou nas escolas. No final de maço, o Instituto GayLussac abriu as portas do teatro para receber pais e responsáveis de alunos para um debate da série. No encontro, as famílias tiveram a oportunidade de assistir trechos da série e refletirem junto com professores, com a equipe de psicologia e com a direção geral da escola.

Os responsáveis relataram que, assim como na série, observam um enfraquecimento das relações com seus filhos e que também sentem que não conseguem acompanhar as novas linguagens utilizadas pelos filhos e os avanços das redes.  A escola fez um alerta aos pais sobre como crianças e adolescentes, mesmo dentro de casa, estão expostos a perigos.

O encontro, no GayLussac debateu as principais questões da série “Adolescência”. Foto: Divulgação/GayLussac

No centro da trama da série Adolescência, há uma pergunta – um tanto desconcertante – que perdura toda a narrativa: O que leva um adolescente de 13 anos a assassinar sua colega de escola? O que atitude carrega além de uma covardia desenfreada?

Uma das respostas pode ser estar atrelada ao avanço de grupos masculinos que propagam discurso de ódio contra mulheres. Movimentos, conhecidos como “RedPill” e “Incel” têm ganhado cada vez mais força na internet.

Formados por grupos com um variado espectro de ideologias — desde acreditar que os homens não têm poder institucional até visões mais extremas e misóginas, os jovens acabam incorporando na vida real os vocabulários que encontram nas redes. Esse conteúdo de viés extremista é recompensado por algoritmos típicos das redes sociais, potencializando o alcance.

Outro tema que a série se debruça é o letramento digital e a total defasagem dos pais – e a proteção de dados.

O A Seguir: Niterói conversou com a diretora geral do Instituto GayLussac, Luiza Sassi, e com o professor da Universidade Federal Fluminense no Programa de Pós-graduação em Mídia, Adilson Cabral, para discorrer sobre os efeitos desses movimentos, o papel dos pais, da escola e da própria sociedade através de políticas públicas.

— A disposição está tão relacionada ao desafio de apreender recursos e ferramentas desse ambiente digital, preferencialmente junto com os filhos, como também de acolher e respeitar inseguranças e expectativas em relação a um futuro cada vez mais cheio de desafios. Também está relacionada às referências e experiências de vida para legitimar a confiança que se faz necessária na construção dessa relação — pontuou o professor de Comunicação da UFF.

Veja as entrevistas:

Luiza Sassi, diretora do Instituto GayLussac

A SEGUIR: NITERÓI: A série “Adolescência” evita demonizar ou justificar o protagonista, mas mostra como discursos de ódio ganham força em jovens solitários, com acesso ilimitado à internet — e como o resultado pode ser trágico. Qual o papel dos pais e até que ponto eles têm o poder de intervenção na vida virtual de seus filhos?

LUIZA SASSI: Sempre repito um provérbio africano que nos ensina: para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira. Isso significa que a educação da criança tem que ser um esforço coletivo – pais, escola e sociedade com políticas públicas claras e eficientes de proteção à criança.

Os pais têm sim o poder de intervenção na vida virtual dos filhos. E para isso é preciso que acompanhem de perto a vida das crianças e o mundo virtual está nessa vida.

Nos meus 38 anos de experiência, observo que a atual a geração de pais apresenta uma preocupação em serem ótimos pais. São muito interessados com o tema da educação. O problema é que, por vezes, mais para postar nas redes as ideias, do que para aplicá-las de modo efetivo. Ouso dizer que estamos desenvolvendo uma educação “gourmetizada” porque há inúmeras receitas do como devem ser bons pais. O assunto é amplo e traz muitas nuances a serem refletidas – por exemplo, o uso indevido da psicologia positiva, ou mesmo as “ditaduras” das receitas de como os pais devem agir.

Outro dia ouvi numa palestra uma neurologista contando que estava prescrevendo canções de ninar para que os pais cantassem para as crianças, em virtude do tempo em que os pais estavam diante da tela e, consequentemente, mantinham relações distantes do bebê. Dito isto, para haver intervenção é preciso dar uma volta inteira, como nos ensina Saramago. Os pais são uma parte, mas também temos que olhar para a escola e para a sociedade. E há de se pensar no que é uma ação coletiva e o que é individual. Esse exercício que vem se perdendo na sociedade.

– A série tem gerado um debate também sobre o ponto de vista da escola e como ela se mobilizou na tentativa de buscar respostas do crime. Mas, ao mesmo, tempo, a produção revela que há muitos adultos, tanto da escola, quanto os pais, têm total desconhecimento do que é vivido pelos adolescentes na internet. Eles demonstram, inclusive, a falta de familiaridade com alguns códigos regidos na internet, como se fosse uma linguagem a parte. Como as escolas podem, a partir dessa série e casos reais de crimes desse porte, se destacar por um papel mais ativo?

A escola pode muito. A escola é o lugar onde o currículo deve orientar em relação à maturidade digital. É o lugar do debate dos temas. É o lugar onde os problemas sociais resvalam e são discutidos, onde informa os pais da real situação em que os filhos se encontram.

A escola é o lugar do coletivo – por exemplo, essa semana a juíza da infância do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri, conversará com todos os nossos alunos a partir do 6º ano do Ensino Fundamental – isso é muito importante e fazemos palestras de temas de modo recorrente.

Todos os anos alunos recebem manuais de segurança na internet. Temos uma disciplina curricular de Direitos Humanos e Salvaguarda que trata de todos os assuntos – misoginia, racismo, equidade, liberdade de expressão, o que é fato e opinião – assuntos da atualidade que são temáticas disseminadas politicamente tanto pela extrema esquerda quanto pela extrema direita.

E isso a escola tem o compromisso de esclarecer e demonstrar historicamente quais foram os caminhos desastrosos desses pensamentos. Isso não significa que a escola é o lugar onde não há problemas, ao contrário, talvez seja o espaço social em que mais os assuntos são pauta, mas nem tudo é visível. O bullying então é uma “praga” social escamoteada e que apresenta requintes tristes de serem vistos, mas, indubitavelmente, é reflexo de uma sociedade em que o ter se sobrepõe ao ser. E como resolver isso?

Além de políticas e ações de intervenção de Salvaguarda, equipe de psicólogos e pedagogos atuantes. E precisamos novamente retornamos ao coletivo. É preciso humanizar. É preciso tocar ao coração. Nenhum ser humano é insensível ao amor quando cresce envolto de atenção, olhar e cuidados. Eu acredito no ser humano, portanto, educação sem valores não tem valor.

Às vezes querem relacionar a humanização à espiritualidade e não é disso que estou falando. Para mim princípios vividos como exemplos são ações educacionais sólidas. Assim aprendi com o educador Renato Garcia de Freitas, “não se educa somente com palavras, mas sobretudo com exemplos e atitudes.”

Foto: Divulgação/GayLussac

– De que forma iniciativas como a do Instituto GayLussac no último dia 27 de março podem colaborar de forma efetiva para uma relação de mais vigilância e atenção por parte dos pais?

As escolas precisam alertar aos pais e estar com os pais dentro da escola. Nós criamos uma Escola de Pais para que, cada vez mais os pais estejam junto da escola. Não só para se informarem, mas para viverem à escola de modo efetivo. Nossos pais estudam na escola – aulas de italiano, mandarim, participam de café com a direção, participam de palestras e isso é um movimento contínuo. Agora vamos lançar o “Jardim para olhar” um projeto com eixos temáticos em que pais e escola estão juntos para educar nossas crianças.

Tudo isso pautado nas mais de 41 políticas de Salvaguarda que tem o compromisso de Proteger à criança e isso tudo monitorado com auditorias internas e independentes.

– Após o evento, os pais chegaram a dar um retorno se conseguiram observar algum comportamento ou até mesmo se a relação com os filhos melhorou em termos de abertura e transparência?

Criar relações e cultura é um processo. A relação entre pais e filhos é um processo que precisa ser construído em sua idiossincrasia. Não há receitas. O importante é ter uma relação sincera e transparente. Conversas não devem ter um tom moralista porque não é muito promissor para a relação com o adolescente.

O fato é que a conversa na família precisa ser vivida desde sempre, desde criança, respeitando o “natural” de cada um. No meu ponto de vista são os exemplos das atitudes dos pais, o que falam sobre a vida, suas opiniões do dia a dia, suas condutas éticas, sua bondade, sua misericórdia com o ser humano que forma mentes, sua relação com o trabalho, o valor que dão às pessoas. E isso vai se constituindo de modo natural. Estar próximo, amar, acompanhar e servir de exemplo são modos importantes de educação.

– Há, inclusive um termo para esse fenômeno revelado na série: ‘geração do quarto’. “O termo foi criado pelo educador Hugo Monteiro e é utilizado para identificar jovens que passam muito tempo isolados, sem trocas e interação com a família. Eles têm muita dificuldade em demonstrar o que sentem e um potencial para praticarem alguma violência, seja contra si ou contra outro.“ Qual sua avaliação de gestora de uma grande escola desse fenômeno. Quais estratégias podem ser recorridas para frear esse padrão?

Criando rituais de estarem juntos com frequência. Estar no quarto todos os adolescentes sempre tiveram. Eu tive meu tempo de sentir que meu quarto era o meu mundo na década de 80. Não era com as redes sociais, mas eram com “walkman”, e por isso bem menos ameaçador.

Pais têm que ter a SENHA dos filhos e acompanhar com aplicativos de proteção. Como o Qustodio, existem vários, que permite monitorar a atividade de crianças e adolescentes em seus dispositivos digitais. Isso é inegociável sob o ponto de vista dos pais. Alguns pais alegam que isso invade a privacidade. Criança e adolescente, em minha opinião, não devem ter privacidade na relação com o mundo.

– De que forma você transpassa sua experiência maternal no ambiente escolar? O que você enxerga de vivência que pode levar de aprendizado para a vivência de outras famílias na escola?

Muitas vezes a minha experiência como mãe ajuda aos pais para lhes dar força sobre as atitudes que sabem que devem tomar. Ter histórias que façam com que os pais se identifiquem ajuda a acolhê-los e fazê-los entender que o processo de educação é lento e precisa paciência, retidão e persistência. E digo que sempre estaremos ali ao lado, mesmo quando os filhos crescem, para orientar, debater e pensar junto.

Ser mãe, criar a minha família junto com o meu marido foi o meu maior projeto de educação. E trabalhar numa escola e estar sempre refletindo sobre educar colaborou muito para que eu pensasse em como poderia educar. A escola me ajudou muito, porque é o ambiente em que se pensa a educação e a centralidade está na criança 100% do tempo.

Meus filhos estudaram no GayLussac desde 1 ano e 4 meses e saíram para Universidade. Eles têm a referência da escola como formação imprescindível nos valores que os constituíram nas suas vidas.

Certa vez me perguntaram com uns 10 anos: “Mãe, se você não trabalhasse no GayLussac, nós estudaríamos lá?” Eu disse que se eu não trabalhasse lá, mas soubesse de tudo que o GayLussac poderia proporcioná-los em termos de formação, eu iria me esforçar muito para que estudassem lá. Sobretudo pelo repertório de formação acadêmica, pelo capital cultural, pelo exercício dos professores em desenvolver um pensamento crítico e criativo e os valores que lá aprenderam. Definitivamente é a maior herança.

– O GayLussac se demonstrou bem alinhado com esses movimentos e têm adotado programas que ajudam a abrir pensamentos e ir por um outro caminho, nada convencional, como é o caso da política de proibição do uso de celulares nas salas de aula em 2003 e, em 2021, essa ação se estendeu aos recreios e intervalos. Como foi a reação dos alunos na época e como está sendo agora, 17 anos depois da implementação?

A reação foi muito tranquila. Na época queríamos apenas que nossos alunos fossem educados com o uso adequado do celular em diferentes espaços, já em 2021 queríamos que a relação interpessoal não fosse intermediada pelas redes. Eles sequer conversavam presencialmente, usavam o WhatsApp como mediador. Acredito que uma das responsabilidades da escola é pensar no tempo do aluno e isso é um compromisso meu e de minha equipe. Estar atento ao mundo e ver as tendências para fugir delas ou para aderi-las.

Costumo dizer que até para rir de memes é preciso muito repertório. Aprendi com Professor Roberto dos Santos Almeida que a última coisa que nós professores devemos ser é ingênuos. Recentemente todos entraram na TREND do desenho nas redes que replicava as obras de Hayao Miyazaki, o artista do Studio Ghibli, em que foram replicadas por IA.

Ele é defensor da arte feita à mão e a Open IA sequer pediu permissão para autorização para replicar. Isso é um belíssimo tema para se discutir com os alunos sobre os limites da IA e os seus princípios éticos. Há dois anos já trouxemos professores do Departamento de Computação da UFF para palestrar para os professores sobre o tema.

Isso requer muita confiança profissional através do estudo. Eu participo de uma equipe do mais alto gabarito em termos de formação e dedicação à educação. Trabalhamos juntos há mais de 25 anos juntos. Temos uma gana por educar bem e fazer o melhor para o aluno. Nossos filhos se formaram aqui e todos os professores querem ter os filhos aqui.

– O Instituto possui um conjunto de Políticas de Salvaguarda, zelando pela proteção dos alunos. Quais são alguns desses programas? Conte um pouco sobre o que cada ação contempla.

Salvaguarda é um programa de políticas, mas que só tem efeito com o processo de desenvolvimento de uma cultura. Já temos 10 anos de implantação e, em conformidade com a legislação, a escola certifica de ter os recursos em vigor para proteger e promover o bem-estar dos alunos, proporcionando um ambiente seguro e saudável de aprendizagem, protegendo às crianças de possíveis situações de risco.

A política é ampla e envolve diversas ações como orientações à equipe para identificação, comunicação e tratamento de qualquer situação de risco ou abuso, a prestação de primeiros socorros, prevenções de extremismo e radicalização, orientação com relação ao uso indevido de drogas, álcool e segurança na internet.

Como exemplo: política antirracista, política de avaliação de risco, política de visitas educacionais, política de uso aceitável de ICTs, celulares, sites e redes sociais, política de mídias sociais, política de recrutamento seguro, dentre outras que estão disponíveis no site do GayLussac.

– Há algum programa ou algum projeto que vocês gostariam de implementar ainda?

Vem aí o “Jardim do olhar” e será um reforço na relação dos pais da educação infantil para que possamos crescer orientando desde bem pequeninho.

Adilson Cabral, professor de Comunicação da UFF

A SEGUIR: NITERÓI: A série “Adolescência” evita demonizar ou justificar o protagonista, mas mostra como discursos de ódio ganham força em jovens solitários, com acesso ilimitado à internet — e como o resultado pode ser trágico. Qual o papel dos pais e até que ponto eles têm poder de intervenção na vida virtual de seus filhos?

Adilson Cabral: O papel dos pais é muito importante nessa relação com os filhos com a Internet, mas não necessariamente passa pela intervenção no acesso. Os maiores problemas são o choque geracional diante da interação com um ambiente tecnológico distinto daquele com o qual os pais cresceram e também a ausência de tempo para lidar com o convívio necessário. Então, é necessário encontrar disposição para estabelecer um ambiente relacional de confiança, considerando essas limitações, sem necessariamente precisar intervir.

– A série tem gerado um debate também sobre o ponto de vista da escola e como ela se mobilizou na tentativa de buscar respostas do crime. Mas, ao mesmo, tempo, a produção revela como os adultos, tanto da escola, quanto os pais, têm total desconhecimento do que é vivido pelos adolescentes na internet. Eles demonstram, inclusive, a falta de familiaridade com alguns códigos regidos na internet, como se fosse uma linguagem a parte. Como as escolas podem, a partir dessa série e casos reais de crimes desse porte, se destacar por um papel mais ativo? Debates e sessões de terapia são um caminho?

Quando necessário, sessões de terapia podem estar ao alcance. Antes disso é necessário haver um espaço acolhedor e disposto para debates, no qual exista confiança para que todos se coloquem. Como adolescentes com suas dúvidas e aspirações, buscam redes de proteção onde se afirmem e isso é facilitado diante de um ambiente tecnológico permissivo dessas realizações, em torno do qual atuam exploradores das mais diversas ordens.

Escolas são formadas por professores e gestores, muitos desses também pais. É preciso compreender esse momento do desenvolvimento tecnológico no contexto do papel que uma instituição como a escola representa hoje e o que os profissionais podem exercer nesse diálogo.

– O que a série deixou escapar? Quais aspectos psicológicos deveriam ter recebido mais atenção?

A série é tão ruim quanto sua capacidade de gerar amplos debates. Ela é localizada num contexto jurídico específico e pouco se debate a responsabilidade da sociedade em geral e da regulação e da regulamentação derivada dessa responsabilidade em relação às crianças. Está sendo badalada por estarmos cada vez mais envolvidos numa lógica capitalista que nos demanda tempo para a manutenção da empregabilidade e descobre o tempo com o cuidado das pessoas.

Ao mesmo tempo, como estamos carentes de produções de qualidade, meramente tocar nesses assuntos nos faz ter motivação para gerar debates e mesmo lidar com nossas limitações, como a necessidade de criar bases possíveis de expansão das tecnologias digitais em rede.

Para falar apenas de aspectos pouco trabalhados nos debates em torno da série: os papeis do assistente social e da escola de um modo geral são extremamente mal trabalhados na série.

– “Adolescência” toca em pontos muito sensíveis. Um deles é a sensação de culpa dos pais, por não terem enxergado nenhum indicador de comportamento do seu filho. Qual mensagem a série deixa de mais alarmante?

A série visibiliza a culpa dos pais, mas não demonstra o desenvolvimento disso do processo criativo do filho nem a relação do filho na escola nem o papel da escola nisso. São basicamente flashes que ensaiam um debate relacionado a esses aspectos que precisamos preencher com os debates que vem acontecendo lá e cá.

Então, menos importante é a série e mais importante são os debates que ela proporciona. De qualquer forma, os pais na série não enxergam nenhum indicador de comportamento do seu filho por contarem com um modo de criação que dava relativa certeza sobre com quem estavam lidando. Se havia brechas nessas certezas, a série não mostrou…

– A série também chama a atenção da figura do incel, que vem ganhando força. Incel é um “supremacismo masculino”. Os membros da comunidade são, em geral, homens heterossexuais com dificuldades de interação social, frequentemente ligados a universos como o dos jogos online. Nesse contexto, a importância de um olhar feminino. O que caracteriza o supremacismo masculino? Quais seriam os red flags (sinais de alerta) e indícios de comportamento que deixam escapar isso?

O fenômenos dos incels, celibatários involuntários, articula o machismo misógino estruturante com um ambiente digital em rede, que propicia disseminação e culto a um discurso que atua numa lógica de afirmação de carências e limitações por parte das pessoas que os reverberam. Para além da explicitação da violência, importante notar o modo como se posicionam em relação à valorização da mulher e da compreensão do papel da mulher na sociedade.

– Como e de que forma as mulheres podem contribuir por meio de um constante diálogo na criação e convivência com os homens?

Buscando espaços e práticas que denotem disposição para o convívio num mundo plural, diversificado e equânime, articulando questões pessoais e sociais a serem reivindicadas. O modo como vem se construindo os avanços em torno do papel da mulher na publicidade é especialmente significativo dessa movimentação.

– Você acredita na tese de que quando um produto audiovisual ganha uma repercussão e um alcance muito grande, isso pode gerar o efeito reverso, o de estimular os jovens a reproduzirem o mesmo comportamento?

Possível… é algo a se considerar em estratégias relacionadas ao combate à desinformação e ao discurso de ódio, pois demandam ser mais relacionadas com a compreensão da disposição da sociedade para assimilar tais discursos.

– Um dos tópicos abordados é o potencial nocivo das redes sociais e esse é um dos pontos de maior discussão levando em consideração a relação desequilibrada que beira ao vício dos jovens com as mídias. Quais recursos podem ajudar a frear essa relação abusiva?

Regulamentação – denúncia – estímulo a boas práticas – pesquisas que evidenciam boas práticas regulatórias e de uso.

– Há uma linha que afirma que é tentador colocar a culpa nos familiares, mas a responsabilidade é compartilhada. Você acredita que as múltiplas instâncias poderiam ter intervindo, de modo que a culpa não pode ser atribuída somente aos pais?

Há culpa dos pais, da escola, da justiça, da polícia, da assistência social e também de como as crianças e adolescentes lidam com suas escolhas. Ou seja, a lógica da culpa é mais cômoda, pois coloca o problema sempre no colo do outro, enquanto deveríamos pensar coletivamente na superação desses impasses proporcionados pelo atual estágio do capitalismo.

– Não se trata de culpa, mas de consciência. São tempos difíceis para criar filhos: rotinas exaustivas, falta de apoio, sobrecarga emocional. É compreensível que, no meio disso, o tempo de qualidade vá sendo adiado, as telas se tornem uma distração e o vínculo emocional se enfraqueça. De que forma você avalia essa tendência de comportamento e quais sequelas ela deixa?

Outra derivação complexa do modo como o capitalismo vem sendo forjado em nossa sociedade. Os adolescentes criam novas sociabilidades e delegam confiança a quem exercem discursos persuasivos na rede e a partir da própria rede, já que conglomerados controladores dessas plataformas são corresponsáveis em impulsionar tais conteúdos.

Uma das principais sequelas desse comportamento é a falta de repertório de qualidade relacionado a notícias de interesse social e a referências de cultura geral.

Ao mesmo tempo, a mobilização pelo básico e fugaz, pela informação sem aprofundamento, por produtos culturais que são mais elementares e não demandam um devido tempo de reflexão e assimilação. Daí a necessidade de serem trabalhadas estratégias de recuperação da disposição em aprofundarmos nossa relação com o semelhante e o mundo ao redor, para torná-lo mais acessível e realizável.

*Adilson Cabral é professor da Universidade Federal Fluminense no Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano e no Curso de Comunicação Social. Coordenador do Centro de Pesquisa e Produção em Comunicação e Emergência – EMERGE

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