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‘Acho que a gente não deve se aposentar,’ diz médica de Niterói, aos 94 anos

Por Livia Figueiredo
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Synesia Telles trabalhou 30 anos no hospital Getulinho, e aos 73 anos fez concurso para ser médica do SUS, em São Paulo
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A médica Synesia Telles com suas filhas Claudia Telles e Paula Telles. Foto: Arquivo Pessoal

Synesia sempre soube que o que era seu estava guardado. Deixou sua cidade natal, em Mato Grosso do Sul, para tentar a vida em Niterói como médica. E para explicar a sua trajetória, recorro a um dos maiores poetas da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Em um poema da sua vasta obra, composta por diversos heterônimos, ele afirma o seguinte:

“Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água. De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma, nem procurei achar nada, nem achei que houvesse mais explicação. Que a palavra explicação não ter sentido nenhum”.

Tal qual Caeiro, heterônimo de Pessoa, que assina o poema acima, Synesia Telles não recorreu à explicação nenhuma para seguir o que ela pré-estabeleceu como o principal objetivo da sua vida: salvar pessoas. Só assim ela se sente totalmente realizada. Sua carreira profissional, mesmo com idade avançada, nos seus impressionantes 94 anos, Synesia segue exercendo o seu ofício como médica.

Formatura Medicina UFF, 1955. Foto: Arquivo Pessoal

Nem a pandemia a afastou da sua vocação. Determinada a seguir na profissão, ela aproveitou o tempo que teve de ficar em casa – em um momento em que ainda não havia vacinas contra Covid no Brasil – para, adivinha? Estudar. E de forma remota, porque sempre é tempo de aprender. E a vontade de ser médica era tanta que ela teve de aprender a driblar o tempo ou a falta dele. Por muitos e muitos anos, trabalha como médica, como professora, são mais de 20 na conta. Como médica… Bom, coloca mais 50 anos aí. Nesse meio tempo, ainda cursou Psicologia, para, enfim depois também exercer a profissão, que a ajuda até hoje na área da medicina, com as lições lacanianas que faz questão de aplicar em sua rotina de cuidado com os pacientes.

Synesia na cidade do coração. Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, a medicina é um gesto de afeto, tão escasso hoje em dia, mas tão necessário, especialmente quando estamos fragilizados. Quando tinha 73 anos se inscreveu para um concurso em São Paulo para atuar como médica do SUS. Onze anos depois, quando abriu o edital do Mais Médicos, resolveu se inscrever. No auge dos seus  87 anos. Pensou que não seria chamada pela idade, pelo risco, pela pandemia, pelo conjunto da obra. Mas foi. Por determinação, por confiança, por vocação, por destino? Você escolhe.

O A Seguir conversou com essa inspiração que é Synesia Telles na tarde desta sexta-feira, 20 de maio. Em quase uma hora de conversa, ela fala de sua trajetória profissional, da vocação, da relação com os netos, com a família, com os estudos e, claro, com Niterói, a cidade que escolheu para viver, onde estudou Medicina, trabalhou por 30 anos como médica, foi professora, casou e teve filhas.

Synesia com suas filhas e netos em reunião familiar. Foto: Arquivo Pessoal

A entrevista na íntegra você confere abaixo:

A Seguir: Niterói: Como começou sua relação com a medicina?

Eu sou de Mato Grosso do Sul e na época não havia faculdade de Medicina por lá, mas eu tinha um irmão que cursava Medicina no Rio de Janeiro. Na época ele contraiu tuberculose e, como não tinha cura, ele faleceu. Então eu decidi fazer Medicina. Meu irmão não pode fazer porque adoeceu. Eu tinha uma irmã que morava no Rio de Janeiro. Perguntei a ela se podia ficar na casa dela para fazer o Segundo Grau e ela disse que tudo bem. Estudei no Colégio Bennet. Ao terminar o Segundo Grau, decidi cursar Medicina em Niterói, na UFF. Inicialmente, eu ia e voltava de barca. Até que eu comecei a trabalhar e estudar e consegui pagar uma pensão em Niterói.

Os colegas na época me ajudavam muito porque eles anotavam todo o conteúdo, me ajudavam quando eu faltava por conta do trabalho. Eles foram bem legais comigo. Eu comecei a fazer um estágio em Niterói, no Hospital Getulinho, e eles me aproveitaram como médica do Estado e, depois, decidi ser professora. Tinha um médico que dava aula de puericultura, sub especialidade da pediatria, e ele estava para aposentar. Perguntei a ele se tinha algum candidato para ocupar o seu lugar e ele falou que não havia, até então. Ele foi comigo na Secretaria de Saúde e eu consegui a vaga. Trabalhava com pediatria e como professora de puericultura no Instituto da Educação. Acabou que eu consegui duas aposentadorias. Me aposentei como médica após 30 anos e professora, após 20 anos, mas sigo trabalhando até hoje, como médica.

Pensei: “O que eu vou fazer agora? Eu vou estudar mais!”. Me matriculei para fazer Psicologia e fiz os cinco anos na faculdade Maria Tereza, também em Niterói. Comecei nas horas vagas a trabalhar com psicologia, como terapeuta, seguindo a linha do Lacan. Mas minha filha se apaixonou por um italiano e eu resolvi me mudar para São Paulo para ficar mais próxima dos meus netos.

Quando cheguei, já tinha emprego fixo numa clínica, a Pulsar. Trabalhei lá por 20 anos. Houve também a abertura de um edital solicitando médicos pediatras para a Prefeitura de São Paulo. Bom, eu resolvi estudar e passei. Era um pouco longe, no posto de saúde Jardim Macedônia. Ele fica na periferia. Mas isso não era um problema.

E esse concurso a senhora fez quando tinha mais de 70 anos, certo?

Sim! Eu tinha 73. Fiquei lá 11 anos. Mas queria continuar trabalhando. A chefe falou que eu podia aposentar pela idade, então eu me aposentei e continuei trabalhando só na clínica. Tinha um edital para trabalhar no Mais Médicos e eu resolvi me inscrever. Fiquei preocupada de não me aceitarem pela minha idade. Tinha 87 anos. Mas eles me aceitaram e eu entrei e é onde eu continuo trabalhando há quatro anos.

Impressionante… E a senhora continua trabalhando diariamente?

Eu trabalho quatro vezes na semana numa cidadezinha chamada Itapecerica da Serra, que fica há uma hora de São Paulo capital. Eu só precisava de um motorista que me levasse e me buscasse. Eu liguei para saber quais documentos eu precisava levar para a minha posse e o seu Jorge atendeu. Eu falei para ele: “Estou precisando ir para Itapecerica, mas nunca fui. Eu olhei aqui e vi que fica há uma hora de São Paulo. Dá para o senhor me levar lá? Eu vou lá só para apresentar os documentos.” E ele foi maravilhoso comigo. Ficou me aguardando enquanto eu falava com a coordenadora. A autarquia era perto do Parque Paraíso. Eu tinha que estar lá às 7h e ir embora às 16h. Pedi para o seu Jorge e ele aceitou, me deu essa força.

E agora eu estou em outro posto. Por conta da pandemia da Covid, eu tive que parar de trabalhar por um tempo, até tomar a segunda dose da vacina, pois não era nada seguro. Por causa da minha idade, sou grupo de risco. O Mais Médicos foi maravilhoso comigo. Deixou eu ficar em casa só estudando. Eu tinha que estudar muito porque mudei de modalidade. A gente atende homens, mulheres, gestantes, crianças. E são todas as especialidades. A gente tem que ter noção de tudo. Só quando a gente não consegue resolver que encaminhamos para um especialista. Mas temos que saber como é o tratamento, tudo. Eu fiquei um ano e meio só estudando. E depois que tomei minha segunda dose, pude voltar a trabalhar. Fico agora no Posto de Saúde Jardim São Pedro, mais afastado do centro de Itapecerica.

O Mais Médicos dá uma assistência muito boa para a população porque além de dar o atendimento médico, dá o tratamento todo, os exames. O SUS presta um auxílio à saúde da população muito importante. Muitas pessoas morreriam se não fosse o SUS porque muitos perderam o emprego na pandemia, então foi a salvação da população. É muito gratificante poder dar assistência aos necessitados.

O estudo é uma forma de aprimoramento, nos educa e desenvolve nosso senso crítico e a senhora segue até hoje estudando aos 93 anos. Que lugar o estudo ocupa em sua vida?

Eu quis ajudar o próximo e a medicina precisa de muito estudo. É uma maneira de eu ajudar a quem precisa. Com essa nova onda, muitas pessoas que não tiveram Covid estão tendo agora, então eu tenho que me proteger, usar máscara, lavar as mãos e não ficar muito próxima do paciente. Por enquanto eu estou imune. Já tomei as quatro vacinas da Covid e a da gripe. Eu peço a Deus para que ele continue me protegendo para não contrair Covid e seguir ajudando as pessoas.

Eu chego no posto de saúde às 6h45 e fico sem horário de almoço para sair um pouco mais cedo e não pegar muito trânsito. Estou saindo de lá às 15h, para chegar e ter ao menos um descanso e uma alimentação menos corrida.

Todo médico do Mais Médicos tem que estudar 30 horas mensais online. Geralmente eu estudo nos fins de semana e nos feriados, porque eu não trabalho, né? Apesar da pandemia, eu estou sempre ocupada. Estudar me distrai. Eu tenho muito interesse em ajudar o próximo, por isso eu gosto de estudar.

E a Psicologia que a senhora cursou tem relação com esse seu desejo latente de ajudar o próximo, eu imagino, né?

A Psicologia me ajudou muito. Às vezes eu atendo cadeirante e muito médico não gosta de atender, porque é mais triste. Eu peço a Deus para ele me ajudar para que eu possa dar o suporte dentro do possível. Gosto de ser necessária. As pessoas gostam do meu atendimento, me agradecem. Teve um paciente que beijou minha mão e me agradeceu. Agora eu dou o punho. O contato humano a gente não pode ter por conta da pandemia. Eu fico contente quando vejo que consegui ajudar na medida do possível. Sempre falo: “toma direitinho essa medicação que você vai ficar bom”. E eles tomam e eu fico feliz.

Você foi uma das precursoras de estudante médica mulher. Como foi estudar numa época em que a maioria das turmas era formada por homens?

Quando eu entrei eram apenas 10 mulheres e 90 homens. Os homens eram respeitosos e nos tratavam bem, apesar de sermos em número pequeno. Acho que a psicologia me ajudou. Eles me aceitaram bem. Atualmente mudou. Tem mais mulheres cursando Medicina que homens. E elas são boas, viu?

Essa sua paixão por medicina tem relação com alguma inspiração familiar?

Só meu irmão que cursava e logo deixou pela Tuberculose. Ele foi muito minha inspiração. Minha mãe teve 13 filhos. Na época o parto era feito por parteira. O Brasil precisava de mais médicos. Acho que isso também serviu para me motivar a fazer Medicina.

E você atua na profissão há 73 anos, sendo 30 no Getulinho. Como era sua rotina em Niterói?

Eu gostei muito de fazer Medicina em Niterói. Acabei ficando, me formei, trabalhei, me casei, tive filhos… Eu gostava de morar em Niterói. Minha casa ficava em São Francisco. Gostava do sossego de lá.

Trabalhando a gente acaba fazendo amigos, né? Eu conheci meu marido no Rio, casamos, eu preferi morar em Niterói.  Eu calculava quando meus filhos estavam doentes os horários certinhos dos medicamentos para dar atenção para eles, mesmo que de longe. Eu nunca deixava de trabalhar por causa de um filho meu. Quando a babá faltava eu levava para o trabalho. Deixava eles em uma sala de massagem longe das doenças. Mas isso só em caso de necessidade. Lá, eles ficavam desenhando, observando as coisas.

Eu trabalhava de quatro  a cinco horas no Getulinho e como professora durante quatro horas, no total. Como não era muito tempo, dava para eu exercer as duas profissões. Era bom. Ser médica me ajudava a ser professora e vice- versa. Como a gente repete as aulas às vezes eu sabia um assunto de cabeça. Só as minhas aposentadorias me sustentam, mas com o que eu ganho no Mais Médicos, posso ajudar minha família, meus netos.

Tenho um neto que mora no Canadá. Eu fui visitá-lo quando tinha 85 anos. Eu ainda consigo viajar de avião sozinha. Mas inglês eu não sei muito, eu me viro. Fui com a cara e coragem. Mas é bom a gente ir com companhia. São muitas horas no avião, né?

Você sente falta de morar próximo dos outros parentes?

Quando eu vim morar em São Paulo eu fiquei com muita saudade dos amigos e dos meus parentes do Rio. Então uma forma de vê-los é sempre no meu aniversário. Eu vou fazer um almoço no sábado. Fiz aniversário no dia 10 de maio e vou comemorar agora. A minha bisneta vem me ver. O meu neto que mora em Vancouver já está há alguns dias aqui em São Paulo e vem também. Eu reúno sempre alguns amigos e alguns parentes.

Quando meu neto vem me visitar gostamos de ir ao Terraço Itália. São 47 andares e dá para ver São Paulo do alto. Gosto de fazer passeios assim. Apesar de eu morar sozinha, eu sempre estou ocupada trabalhando e estudante ou com alguém da família aqui em casa. Eu me distraio. Acho que é importante ter lazer.

Quatro gerações: Synesia ao lado da filha Cláudia, da neta Clarissa e da bisneta Beatriz. Foto: Arquivo Pessoal

E o que você gosta de fazer?

Não gosto muito de novelas porque a gente fica com compromisso de horário. Às vezes eu deixava de sair por causa da novela. Mas de filme eu gosto, da televisão, do Netflix. De cinema também, quando é bom eu vou. Meu neto de 14 anos me convidou para assistir Batman e eu fui. Ele gostou tanto que queria ver de novo. Eu sugeri ver outro filme e ele assistiria o Batman de novo. Ele adora filme de aventura. Às vezes eu saio no sábado com ele e no domingo com minha neta que gosta mais de filme romântico, de família. Mas com as restrições da pandemia, o que me ajudou muito foram os estudos online.

O lazer é importante para a mente. Eu peço para todas as pessoas que eu atendo fazer caminhada, ver os pássaros, a natureza. O lazer é importante para a saúde da mente.

O que te move a atuar na Medicina até os dias de hoje e servir de inspiração para tantas pessoas. Você acredita em vocação?

A pessoa tem de gostar de ajudar o próximo. Se a pessoa gosta de lidar com máquina, nunca vai ser um bom médico porque um bom médico gosta de pessoas. Eu fui fazer Psicologia porque tem um médico que conheço, um oftalmologista, que uma vez perdeu a paciência com a criança, que não parava quieta. A psicologia me ajuda a ter paciência, a cuidar melhor das pessoas. Eu sei até onde eu posso ir. A medicina tem um estudo muito vasto. A gente nunca sabe o suficiente. Agora os aparelhos são modernos, a tecnologia avançou muito.

E eu acho que a gente não deve se aposentar. Se o médico for útil ele deve continuar trabalhando, a não ser que apareça alguma doença que o impossibilite. Fora isso, a gente deve continuar trabalhando.

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