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‘A primeira lição da pandemia é que precisamos fortalecer nosso SUS’, diz especialista da Fiocruz

Por Livia Figueiredo
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Em entrevista ao A Seguir: Niterói, epidemiologista diz ainda que Brasil precisa investir mais em ciência e tecnologia, além de melhorar a governança
Rômulo Paes Sousa
Especialista da Fiocruz Minas avalia legado da Covid e o percurso da pandemia que completa dois anos neste sábado, 26 de fevereiro. Foto: Reprodução/Internet

Há dois anos começava, no Brasil, o ” maior fenômeno deste século”, na avaliação sobre a pandemia de Covid-19 feita pelo especialista da Fiocruz e PhD em epidemiologia pela Universidade de Londres, Rômulo Paes. Também vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), ele assessorou a Prefeitura de Niterói na tomada de decisões sobre o enfrentamento da Covid.  Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o epidemiologista faz uma análise da condução da pandemia pelo Governo ao longo desses dois anos, lista as lições que a Covid deixa e analisa  o que mudou na saúde e o que veio para ficar:

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

A Seguir: Niterói: Como avalia o comportamento da população brasileira ao longo desses dois anos de pandemia? Caso a população tivesse se isolado mais e o governo tivesse adotado medidas mais restritivas e disponibilizasse a vacinação mais cedo, em que cenário estaríamos agora?

Rômulo Paes: Em primeiro lugar, é preciso dar a devida responsabilidade a quem cabe. A responsabilidade maior é do Governo Federal, que falhou em vários momentos. E a população, para reagir de forma adequada a um fenômeno desse tamanho, precisa ser bem informada, ter uma comunicação consistente, ter protocolos devidamente estabelecidos para que saiba como proceder e precisa ter acesso aos meios de proteção. Novamente, temos falhas quanto a isso. A má governança acentuou as dificuldades que a pandemia trouxe.

O Governo Federal, na sua omissão, acabou fazendo com que a pandemia fosse municipalizada. Neste sentido, foi muito importante a conduta da administração municipal para que a população pudesse reagir de uma forma mais adequada. Nós tivemos uma situação em Niterói que se diferencia muito das cidades em seu entorno, mostrando como uma boa gestão faz muita diferença nessa hora. Claro que a cidade tem recursos disponíveis em um nível superior que em outros municípios do país, mas mesmo em outros de situação equivalente, acabaram se comportando de uma forma muito ruim.

Nós tivemos vários momentos da pandemia e as variantes que ainda estamos enfrentando. Em 2020, fez muita diferença as medidas não farmacológicas e por isso foi exigida uma governança muito forte da população no espaço público. Já em 2021, o que foi muito decisivo foi a vacinação. Em 2022, vamos continuar tendo a vacina como um instrumento muito importante, mas também ter o acesso aos medicamentos efetivos de combate à doença que começam a ficar disponíveis.

É preciso saber quando reduzir a circulação de pessoas e fazer isso de uma forma organizada porque isso leva a um comportamento de exaustão a esse tipo de medida. É preciso também ser insistente com a vacina. O fato de as pessoas buscarem pela primeira dose não significa dizer que o mesmo acontecerá na segunda ou mesmo na dose de reforço. Isso precisa ser reiterado. Ou às vezes as informações incorretas acabam atrapalhando o esforço da vacinação, como estamos vendo com as crianças. É preciso ter uma boa governança para mobilizar os recursos disponíveis da forma adequada. Se o Brasil estivesse como Niterói está hoje, teríamos muito menos óbitos, menos internações, menos estresse na área de saúde e indicadores econômicos mais positivos que temos no momento. Há exemplos positivos, como o caso de Niterói, mas o Brasil como um todo ficou com uma dívida grande na pandemia.

Esses medicamentos para a Covid chegarão ao Brasil este ano ainda?

É importante que eles cheguem a um custo exeqüível para se utilizar nas formas graves ainda persistentes. A grande estratégia nossa é a vacina porque ela é eficaz e barata. Em relação aos primeiros medicamentos que possuem tecnologias caras, há dificuldade prática de os utilizarmos em larga escala. Acho que nesse caso vamos ter que esperar para ver a persistência de casos graves. Se nós estivermos em um momento de declínio em que imunidade acaba se impondo, nós vamos ter um número muito pequeno de óbitos e esses medicamentos podem fazer a diferença, mas se continuarmos num nível muito alto, o custo de muitos desses medicamentos pode ser muito alto.

Quais são as lições do enfrentamento da pandemia que Niterói traz?

Niterói teve um plano organizado de enfrentamento à pandemia desde o primeiro momento. Neste sentido, a administração foi consistente, mesmo com troca de prefeitos. O plano de enfrentamento contou com a ajuda de consultores e especialistas da UFF, UFRJ e da Fiocruz. É um diálogo muito produtivo. Além disso, a capacidade de mobilizar os recursos disponíveis, como fez o Hospital Oceânico, que aumentou a capacidade hospitalar e depois se tornou também um centro de atenção à Covid longa. Outra medida acertada foi antecipar a segunda dose dos imunossuprimidos, novamente uma decisão importante. O que mais me impressionou foi o diálogo com os vários autores sociais relevantes na cidade, como a Câmara de Vereadores, a Defensoria Pública, as lideranças religiosas, culturais. Esse esforço de buscar uma posição de entendimento e convergência de enfrentamento à doença.

O que mudou e ainda deve mudar na saúde por causa da Covid?

Nós ainda vamos acompanhar por muito tempo o desenvolvimento da doença nesse estágio. Mas o que a literatura tem alertado muito é para doenças mentais. É um efeito importante ligado à Covid. Outros aspectos neurológicos também têm sido muito destacados e problemas cardiológicos também. Niterói tem feito um esforço com os protocolos de Covid longa. Outras sequelas também são o esquecimento, tontura, tosse. Os sintomas podem ser persistentes por muitos meses.

A Covid-19 foi como um divisor de águas. Ela dividiu as nossas vidas entre o antes e o depois. Você acredita que algumas medidas de prevenção seguirão sendo tomadas, como o uso de máscaras em transporte coletivo, como o avião? Ou cairão por terra?

A Covid é o fenômeno mais importante deste século até o presente momento, pelo impacto da doença em si e pelas suas respostas. Só em 2020 o mundo investiu 16 trilhões de dólares para o combate à doença. Essa é uma estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI). É como se a sociedade contemporânea tomasse uma decisão de que é inaceitável nós termos tantos óbitos e tantos casos graves por conta de uma doença, porque nós convivemos com outras doenças, como é o caso da gripe. Haverá, portanto, legados dessa pandemia.

Haverá provavelmente um reajuste da governança da saúde global, acordos internacionais sobre esse tema. Haverá também mudanças de outros países, como fundos de prevenção à doença, que também serão copiados por outros países. Haverá também mudanças nos hábitos das pessoas, como o teletrabalho. A pandemia simplificou a telemedicina, tornando-a como um tipo de atendimento que veio para ficar. Havia certa dificuldade de lidar com isso. Assim como o teletrabalho. Havia uma tendência colocada, mas agora se expande de uma forma muito grande.

Mas, quanto às medidas não farmacológicas, temos que ver como o Brasil vai se comportar. Na Ásia, muitos países já possuem essa tradição do uso de máscara. Isso é um ponto a se observar: se vamos ficar mais atentos as gripes sazonais no Brasil. Seria positivo que o Brasil fosse mais atento a isso, não só ao uso de máscara adequada, para evitar uma pneumonia, por exemplo. Mas para isso, é preciso uma política organizada e permanente dessas medidas de prevenção.

Falando ainda sobre máscaras, para um ambiente ao ar livre a cirúrgica é adequada? E segue a recomendação de PFF2 ou N95 para ambientes fechados?

A PFF2 / N95 é eficaz em qualquer circunstância, mas a máscara de tecido e a cirúrgica somente em ambientes ao ar livre e mesmo assim distante das pessoas. As máscaras de tecido fazem parte de uma improvisação do que seria uma medida adequada. Ela tem baixíssima eficácia. Nós precisamos usar máscaras que vedem bem e que sejam bem ajustadas.

Quais são os aprendizados que a doença deixa?

A primeira lição é que precisamos fortalecer nosso SUS, que já tinha um déficit grande em relação a vários temas e uma desigualdade grande em relação à capacidade instalada em todo o Brasil, aos profissionais, leitos de UTI. A segunda é que o Brasil precisa fazer um investimento muito maior em ciência e tecnologia. A terceira está ligada à governança.

O nosso país tem instrumentos importantes de cooperação entre vários níveis do setor público, mas não soube utilizar esses mecanismos de forma adequada para o enfrentamento da pandemia. Muito pelo contrário. O Governo Federal acabou criando vários atritos em diversos níveis. Houve conflito entre o nível estadual e municipal também. Nós precisamos incorporar a participação social nesse processo. Nos últimos anos, o Brasil reduziu sua participação social na regulação das políticas de saúde e isso fez falta.

O Ministério da Saúde já reavalia classificar a Covid como endemia, porém devido à quantidade de óbitos, especialistas apontam que seria precoce o termo. Você acha que já é possível classificar a pandemia como endemia?

Os países mais ricos e homogêneos estão muito otimistas em relação a isso, de que nós já estaríamos em uma fase de transição indo de uma pandemia para uma grande endemia. No Brasil, é minoritário esse ponto de vista. A maioria dos especialistas olha esse tema com muita cautela porque o Brasil é muito desigual. Portanto, ao mesmo tempo que temos níveis excepcionais de cobertura, temos em outros locais uma cobertura abaixo de 20%.

Alguns especialistas são cautelosos devido às variantes que podem surgir e diante das possibilidades de as alternativas de imunização que nós temos no momento se mostrarem ineficientes para combatê-las. Essa é a grande questão do primeiro trimestre deste ano: perceber como a pandemia vai se comportar e observar os indicadores.

– Sabemos que, em março, Niterói começa a vacinar imunossuprimidos e depois idosos. Você acha que haverá uma quarta dose para a população em geral?

Isso vai depender dos resultados das pesquisas. Israel, por exemplo, aplicou a quarta dose na população e não teve resultados muito diferentes em relação aos que tinham apenas uma dose de reforço. É um ponto que vamos ter que observar. Se nós ficarmos apenas no nível da Ômicron, que tem uma capacidade muito grande de se disseminar e uma competência muito menor de provocar formas graves da doença e considerando que a variante chegou em um momento em que o nível de cobertura vacinal está muito mais alto, podemos ficar otimistas. A primeira lição é que precisamos fortalecer nosso SUS, que já tinha um déficit grande em relação a vários temas e uma desigualdade grande em relação à capacidade instalada em todo o Brasil, aos profissionais, leitos de UTI. A segunda é que o Brasil precisa fazer um investimento muito maior em ciência e tecnologia. A terceira está ligada à governança.

É nisso que os otimistas acreditam: a combinação da alta cobertura vacinal com uma variante como a Ômicron. Mas nós não podemos garantir que outras variantes apareçam. É preciso conhecer mais os efeitos da quarta dose para além de Israel. Algumas vacinas também estão sendo ajustadas para as variantes em circulação e temos que ver como vão se comportar.

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