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A poética da canção popular brasileira, com Fred Martins, de volta a Niterói

Por Livia Figueiredo
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Cantor, compositor e violonista, que mora em Portugal, retorna à cidade para festival que dá visibilidade a artistas da cena local
Fred Martins - capa
Fred Martins reuniu os amigos dos tempos do Abel no Festival ‘Pras Bandas de Cá’, em Niterói. Foto: Divulgação

As referências lusitanas sempre fizeram parte da carreira do cantor, compositor e arranjador de Niterói, Fred Martins. A poética de Fernando Pessoa chega como influência de linguagem e de ternura, após anos de absorção de uma obra sempre aberta a novas camadas e interpretações. O verso “Para além do muro do meu quintal”, do poeta Alberto Caeiro, heterônimo de Pessoa, dá nome ao seu quinto disco de estúdio e serve como um divisor de águas de sua carreira embrenhada pelo rompimento de fronteiras e encontros culturais de gerações. “Com esse mundo cibernético, a gente perde um pouco a noção de aldeia”, explica.

O cantor e compositor Fred Martins na divulgação do seu trabalho “Ultramarino”. Foto: Alfredo Matos

Radicado na Europa há 12 anos, Fred sempre soube que, de alguma forma, seria arrebatado pela arte. Aos 9 anos, teve  o contato com seu primeiro instrumento, o violão, que estava abandonado pelo seu irmão, sem cordas, jogado em um canto do quarto. Aos 14 anos, montou sua primeira banda de escola ao lado de músicos de calibre como o saxofonista Marcelo Martins, com o qual tocaria, quase 40 anos depois, na Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói, em um grande encontro de amigos de escola e músicos de excelência.

É o que tange à raiz e permeia entre o desconhecido que encanta Fred Martins. Os mais de dez anos em solo europeu não o afastaram de sua formação cultural, o seu berço, pelo contrário. É ao Brasil que ele atribui o seu conhecimento musical, parte do seu repertório de vida. Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Gilberto Gil. Coisa de gente grande, como ele apelida. De Niterói, ele carrega outros tantos talentos, como Arthur Maia, Marcelo Martins. Da vasta canção popular ao erudito, fica difícil de distinguir. “A gente se perde na referência, tamanha a riqueza. Isso não é comum lá fora”.

O A Seguir: Niterói conversou com Fred Martins na véspera do seu último show em sua passagem pelo Brasil. Ele fala do panorama cultural de Niterói, dos tempos em que assistia ao Geraldo Azevedo de graça nas ruas da cidade, do reencontro dos amigos de turma no Festival ‘Pras Bandas de Cá’ e muito mais.

A Seguir: Niterói: Como começou sua trajetória na música? Em que momento despertou o lado compositor do Fred?

Fred Martins: Acho que as canções, as melodias, as letras sempre me chamaram a atenção. As músicas de rádio eram sempre muito variadas. Tinha uma época em que a canção popular era algo muito presente na vida do brasileiro, em geral. Era algo de muita qualidade, essa canção mais massificada. E eu ficava impressionado. Era muito fácil ouvir Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil… E era uma qualidade no, texto, na poesia, na canção muito grande. Eu não sabia nomear isso, mas sentia que era algo muito forte. Cartola, Nelson Cavaquinho, as coisas que meu pai e meus irmãos ouviam.

E quando eu comecei a tocar já fui buscando essas melodias, esse formato da canção. Eu acho que foi algo muito natural para mim. Sempre foi meu mundo, a música popular brasileira. Meu irmão tinha um violão que deram para ele e ele não dava muita bola para aquilo. Ficava em cima do armário, sem cordas. E a certa altura eu achei, coloquei as cordas, sem entender muito. As cordas eram de náilon que eu usava em pesca… E eu ficava horas naquilo, brincando. Era uma relação sem intermediação, sem professor. Muito na brincadeira.

Seu primeiro disco foi lançado em 2001, então já são mais de 20 anos de trajetória. O que você acha que mudou nesse tempo?

A música é um universo muito vasto e eu fiquei muito tempo tentando entender vários aspectos dela, como instrumentista, compositor, arranjador, cantor. Eu acho que com o tempo a gente vai lidando melhor com esses aspectos todos, que são muitos. O trabalho hoje é muito melhor, muito mais apurado.

Tem alguma área que você se identifique mais?

Como eu acompanho desde quando eu era adolescente os letristas que eu admiro muito, o Marcelo Diniz, o Manoel Gomes, eu fui sempre fazendo mais músicas. Recentemente tenho feito mais letras. Mas a minha atenção para a letra sempre foi muito grande, mesmo trabalhando junto com outros letristas.

E você retorna agora para uma temporada de shows no Brasil, já passou por São Paulo, por Niterói com o Festival Pras Bandas de Cá, que é um evento todo voltado para artistas da cena local, em que a bilheteria é toda revertida para o artista. Qual a importância de um evento como esse atualmente?

Eu acho bom porque com esse mundo cibernético, a gente perde um pouco a noção do local, da aldeia. E isso é importante. É o que está perto, o nosso jeito de ser, muito próprio. Eu saí do país tem 12 anos e quando a gente volta, revaloriza esses aspectos bons do nosso modo de ser, que muitas vezes a gente não vê, por estar muito mergulhado no dia a dia. A natureza do local, a cultura… Tudo é muito importante para que se tenha uma forma de ser apreciada. E Niterói tem uma tradição de música muito forte, uma qualidade de músicos muito grande. Eu posso dizer isso porque eu era vizinho do Arthur Maia, do pianista Marvio Ciribelli. Conheci o Marcelo Martins na escola e o irmão dele já tocava. Tive a chance de conviver com muita gente na rua, que já trazia uma bagagem musical muito boa. Eu acho muito bom um festival como esse para ter a atenção voltada para a galera da cidade.

E no show de Niterói, na Sala Nelson Pereira dos Santos, você tocou com Marcelo Martins, né?

Sim! Eu reuni a banda que era dos meus tempos de escola. São todos excelentes músicos. Nós fizemos a banda quando tínhamos uns 14 anos. Tocamos no Teatro Sesc, no Leopoldo Fróes, na época, e ali encontramos poetas, pessoas do teatro e houve um encontro para mim muito fundamental. O Manoel Gomes eu conheci nessa época. E a banda foi a minha primeira experiência prática, de banda, de palco e para a vida inteira. Eles são amigos de vida que estão sempre na minha trajetória. Eu quis reunir isso. Para o ‘Pras Bandas de Cá’, fazia muito sentido reunir essa galera de berço, justamente pela proposta do festival.

Fred Martins e Marcelo Martins em show que reuniu a banda da época de escola. Foto: Divulgação

Como você avalia o panorama cultural de Niterói hoje, a vida artística da cidade, com a maior presença de festivais com artistas da cena local e importando artistas consagrados como a Gal Costa e o Gilberto Gil?

Quando eu era garoto, lembro de ter visto vários concertos na rua, como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e vários outros ao longo dos anos e isso para mim foi muito importante. Ver gente grande, de muita qualidade e trajetória de graça na rua. Eu tenho acompanhado o trabalho do pessoal da Orquestra da Grota. Acho o projeto lindo, fantástico. É importante democratizar o estudo da música, a escuta de várias músicas que existem. Não é só a popular. E mesmo a popular, a gente não dá conta. A Orquestra da UFF cumpre um papel fundamental também nisso. A gente poder assistir aos concertos regularmente, orquestras de alto nível. Eu acho que tudo neste sentido é bem vindo. Espero que essas iniciativas venham cada vez mais e se mantenham.

Como é sua relação com Niterói? O que você gostava de fazer na cidade?

A natureza daqui é uma coisa tão abençoada. A presença do mar, das montanhas, desse verde. Quando a gente sai, a gente sente muita falta disso. É um lugar único. Niterói está na entrada da baía. Eu sou muito apaixonado por essa paisagem. Meu lugar de descanso são essas praias. A vista incrível de vários pontos da cidade. Quando morava aí, frequentava muito Itaipu, Piratininga e Itacoatiara.

Eu ia muito também ao Cinema Icaraí. Não sei como está essa história de retorno. O Centro de Artes da UFF para mim foi muito importante, o teatro e o cinema, principalmente. Os festivais que eles organizam foi uma chave para conhecer o cinema do mundo. Tem que ficar para sempre, ser tombado. Espero que a gente tenha uma chance de ter continuidade do Cine Arte UFF.

Fred Martins em seu show no Festival ‘Pras Bandas de Cá’, na Sala Nelson Pereira dos Santos, em São Domingos. Foto: Divulgação

Você está radicado na Europa desde 2010, então metade da sua carreira foi sedimentada fora do país. De que forma você acha que isso agrega ao seu repertório de música e de vida?

É difícil de mensurar, porque a experiência de morar fora é um aprendizado constante. Você é instigado a ampliar a sua forma de ver as coisas, pois são outras formas de ser e de estar. E a música acompanha isso. Apesar de que no Brasil a gente tem o DNA de tudo isso. A gente tem África, Europa de uma maneira muito forte na nossa formação. Para um brasileiro, absorver essas coisas, quando mora fora, acaba não sendo tão difícil porque já estão ali de alguma forma dentro da gente.

Mas eu sinto que, ao trabalhar com gente de Portugal, da Espanha, a gente sente como a bagagem que levamos é valorizada, começa a enxergar com mais carinho o que a gente conseguiu trabalhar no Brasil. Eu falo “a gente” porque eu acho que sou um dos representantes dessa conversa artística, musical e poética do país. Eu me considero continuador de uma tradição de linguagem, autores e canções, de mestres como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, João Gilberto. É uma grande conversa musical. Cada geração que vem aporta uma coisa diferente. A gente vê que essa riqueza toda na canção popular não é tão fácil em todo lugar e temos o privilégio de ter isso no Brasil. Às vezes a gente até perde a referência, não sabemos se é uma música erudita ou popular. Isso não é muito comum lá fora.

Por que Lisboa como morada?

Não me considero uma pessoa que faz planos e traça metas muito objetivas. As coisas foram se encaminhando. Fui tocar no norte de Portugal e fui ficando. Fui convidado para fazer uma trilha e foram cinco anos de trabalho, muito tempo viajando, tocando. Quando eu retomei meus projetos pessoais, me vi me reaproximando de Portugal de novo. Eu gravei dois discos em Portugal, além deste último “Ultramarino”, teve o “Para além do muro do meu quintal”, um verso do Fernando Pessoa, que dá nome a essa canção. É o poema do Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que eu musiquei. E o produtor deste disco era português, Paulo Borges. Acabei indo trabalhar em Portugal e fiz contatos, amizades e aos poucos acabei indo morar lá. As coisas vão se dando.

Como foi o processo de composição de Ultramarino, lançado ano passado?

Foi um disco em que o processo foi razoavelmente rápido, porque ele foi muito gravado ao vivo. Os músicos faziam dois, três takes, escolhiam e pronto. Foi um disco muito sem maquiagem, verdadeiro neste sentido. O que está ali é o que foi gravado mesmo. Não teve muita edição. A ideia do Hector Castillo, que foi o produtor, era de fazer um disco como se fosse um show. Ele é um produtor premiado, produziu discos de vários artistas como David Bowie, Björk, Lou Reed…

Esse disco apresenta um repertório bem variado, tem um pouco de bossa nova, blues e tem até música árabe. De onde vieram essas referências? De que forma você acha que as transpõe na música de forma orgânica?

É, eu acho que é isso que você entendeu perfeitamente. Como o disco se chama Ultramarino, eu quis fazer essa viagem, um percurso musical, desde a minha base, que é o Rio, e por isso tem samba e bossa, e outros lugares. Apesar de eu estar morando fora, é um disco muito brasileiro, por ter essa pegada de melodia e harmonia da bossa. Ao mesmo tempo tem muito desse convívio do período em que eu moro fora, com o pessoal da Espanha e de Portugal. E aí tem muita presença dos africanos porque Lisboa me lembra muito o Rio de Janeiro de certa época. A presença negra/africana muito forte. Claro que no Brasil é tudo mais miscigenado. Mesmo apartados socialmente, em termos culturais, a gente ainda carrega muito dessa mistura. E lá é o contrário, a mistura não se dá no âmbito cultural, mas as pessoas vivem melhor, têm mais dignidade, vão à escola, têm mais acesso à saúde. É uma mistura muito rica, muito bonita.

Você tem composições gravadas por grandes nomes da mpb como Adriana Calcanhoto, Ney Matogrosso, Zélia Duncan. Você lembra como você reagiu nos dias em que soube?

O Ney foi o primeiro que gravou música minha. Uma amiga levou uma fita com músicas minhas e eu já sabia que ele estava namorando uma das canções. Uma vez eu estava indo para São Paulo e encontrei com ele. Na ocasião, ele tinha falado que ouviu minha música, a Novamente, mas não sabia se entraria no disco ou não. Depois, acabou entrando e até hoje ele canta essa música. Tocou muito na rádio, entrou em série da rede Globo, entrou em DVD. O Ney tocou até no Rock in Rio de Lisboa. Acabou tendo uma carreira bonita com ele e foi surpreendente para mim. E eu acho muito legal isso.

O Ney é um cara do espetáculo, que vem do teatro. Ver alguém que tem outra abordagem abraçando uma música minha é incrível. Na hora eu lembro que foi uma injeção de ânimo muito grande. Não tinha muita confiança que aquilo fosse chegar nos outros. Eu fiquei muito reticente. E logo depois a Zélia (Duncan) gravou “Flores” e também foi importante. Foi um sinal de que eu estava no caminho certo. Independente da projeção que isso poderia dar ou não, é algo posterior. Só de ver alguém, com critério, vendo graça numa música minha é maravilhoso.

Você tem 6 discos de estúdio, qual é sua recomendação para quem quer conhecer mais do Fred Martins? Qual você considera seu cartão de visitas?

Acho que os últimos dois discos lançados, “Para além do muro do meu quintal” e o “Ultramarino”. São os mais representativos, porque são mais próximos do que faz mais sentido para a minha trajetória até aqui.

Por fim, eu queria que você recomendasse um disco, um livro e um filme.

Eu tenho lido obras completas. É difícil falar de um livro só, mas eu falaria “A rosa do povo”, do Drummond. Sempre tem o que voltar no Drummond, sempre tem o que descobrir. Ele me emociona sempre. Um filme recente que gostei muito foi o “Ataque de Cães”, da Jane Campion. Um disco que gosto muito é o “Nervos de Aço”, do Paulinho da Viola.

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