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‘A Fluminense ocupou um espaço que estava vazio’, diz Luiz Antonio Mello, fundador da rádio

Por Livia Figueiredo
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Em entrevista ao A Seguir, o jornalista lembra momentos icônicos da rádio e destaca alguns pontos que contribuem para a sua relevância até os dias atuais
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Show da Maldita no Canecão. Foto: Tasso Marcelo

Megafone de uma geração ou, como bem definiu Cazuza, um atestado de que a abertura política estava acontecendo. A celebração de 40 anos da história de uma das mais importantes rádios de rock do Brasil: a Fluminense FM (Maldita, para os íntimos) consagra todo o legado da rádio que ficou no ar por mais de 20 anos. O encerramento de suas atividades deixou até mesmo o streamer mais aficionado nostálgico. A rádio, que impulsionou a carreira de grandes nomes da música brasileira, com quadros que escapavam do lugar comum, rompeu barreiras em um gesto ousado – à época – ao colocar no ar a primeira locução exclusivamente feminina, servindo de modelo para tantas outras rádios posteriormente.

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No ar, o público tinha acesso a nomes não tão conhecidos, antes da fama, que foram grandes apostas da rádio, chamando a atenção do público pela multiplicidade de talentos. Nomes como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Kid Abelha, Lobão, para citar alguns. Esse último é convidado ilustre de um bate-papo que simula um programa da década de 80, com direito a vinhetas com convidados de ponta, no dia 27 de maio, e um show no Theatro Municipal, no dia 28.

A festa começa antes com a exposição na Sala Carlos Couto, que apresenta itens raros ligados a rádio, flyers, fitas e cartuchos, peças do acervo, resgatando a memória de um dos principais vetores culturais do Brasil, entre os anos de 1982 e 2005. A mostra é gratuita e fica em cartaz durante todo o mês de maio.

Da esquerda para a direita: o  gerente de promoção, Carlos Lacombe, e o fundador da Fluminense FM, Luiz Antonio Mello, mostrando parte do acervo da rádio

A Fluminense FM – A Maldita foi inaugurada em 1º de março de 1982, em Niterói. Neste momento teve início uma mudança radical no meio radiofônico e musical brasileiro, com uma locução exclusivamente feminina, sendo a locutora Selma Boiron a responsável pela inauguração da rádio.

A rádio ocupou o dial que era anteriormente da Rádio Difusora Fluminense, que iniciou os trabalhos dez anos antes. Com a reformulação, em meados de 1981, chegaram à equipe os radialistas de ponta Amaury Santos e Sérgio Vasconcellos, comandados pelo jornalista Luiz Antonio Mello, todos beirando os vinte e poucos anos. De início, Mello seria responsável por apenas um programa, que teria o nome de Rock Alive, mas conseguiu não somente ser aprovado, como também transformar o dial em uma rádio 24 horas dedicada ao rock.

Dando oportunidades para bandas novas que surgiam no cenário nacional, a Maldita ajudou a escrever um capítulo importante na história do rock brasileiro. Mesmo sem anunciantes, a rádio se manteve no ar por duas décadas e é essa história e mais tantas outras que o jornalista, radialista e escritor Luiz Antonio Mello, fundador da Rádio Fluminense, conta ao A Seguir: Niterói.

Multidão reunida para ver a TV Maldita. Foto: L.Prado

Confira a entrevista abaixo:

A SEGUIR: NITERÓI: A rádio Maldita ajudou a projetar nomes como Legião Urbana, Bacamarte, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Celso Blues Boy. De que forma você avalia o impacto da rádio na projeção desses artistas e qual o lugar que a rádio ocupa hoje em dia?

LUIZ ANTONIO MELLO: Quando nós começamos a rádio, tínhamos uma grande preocupação em torno da linguagem. Como sou jornalista e trabalhei a vida toda em rádio, eu prezava muito pelo jornalismo bem cuidado. Na Rádio Fluminense, o jornalismo tinha uma posição muito forte e isso mexe na linguagem. A locução da rádio era mais sóbria, não tinha muita gíria, respeitando os dialetos dos jovens. A rádio tinha essa proposta mais sóbria e ao mesmo tempo com uma programação de rock difícil de ser feita. Naquela época, tinha os grupos O Terço, os Mutantes, 14 Bis, mas em compensação você tem até hoje os “malditos”, como Itamar Assunção, Jards Macalé… Homens que não tocavam em rádio e nós começamos a tocar eles.

A rádio ocupou naquela época um espaço que estava vazio. Tinha um vácuo ali. A Fluminense foi um megafone de uma geração de Circo Voador, que estava concentrada e oprimida pela ditadura nos porões da cidade fazendo as coisas, de uma maneira meio clandestina. E a Fluminense, como o próprio Cazuza falou uma vez, foi um atestado de que a abertura política estava acontecendo. Foi uma rádio muito ousada. Colocamos o Gabeira no ar em 82. Gilberto Gil deu uma entrevista de três horas ao vivo falando de liberdade. Esse rótulo de Maldita não é à toa. Era uma rádio que ia provocando até o limite. E não houve nenhum tipo de retaliação.

– Qual você acha que foi a importância da Maldita ao projetar artistas niteroienses?

O niteroiense, especificamente, tem uma característica que se mantém ou se manteve durante um bom tempo, que gira em torno de uma cidade muito aguerrida e apaixonada por ela. A Fluminense começou a causar um orgulho na cidade, especialmente quando começamos o programa “A hora e a temperatura” na Praça Arariboia. Imagina um cara em São Conrado ouvir “são 15h e faz 27°na Praça Arariboia” sem dizer direito o que era, do que se tratava. Aquilo foi uma comoção na cidade. A rádio foi homenageada na Câmara Municipal. De certa maneira, ela mostrava o que a cidade tem, como o Mario Rui, Ali na Esquina, Baga da Praia, Paulinho Guitarra… Esses nomes locais foram se projetando no Rio e os nomes do Rio se projetando aqui, pela rádio. As pessoas adoravam vir de balsa para cá, numa época em que ainda se chamava balsa. A cidade tem seu charme. Você tem que fazer a coisa direito em Niterói, porque se não fizer você está enterrado. A rádio Fluminense foi o orgulho da cidade.

– As pessoas pedem o retorno da rádio? Como isso chega para vocês?

Pedem o tempo todo. No Instagram, teve um cara que respondeu meu post sobre o show do Lobão (em comemoração aos 40 anos da Rádio Fluminense) falando que não queria ir só ao show, mas também – ou especialmente – o retorno da rádio Fluminense. O Lobão esta super ansioso para fazer esse show porque faz 40 anos que ele levou a fitinha dele para tocar lá na rádio e ele arrebentou. Ele está muito emocionado para tocar no Theatro Municipal.

– E ainda tem o bate papo, que será realizado no dia 27 no Theatro Municipal, que irá simular um programa da década de 80, com direito a vinhetas, slogans, trechos de músicas da época, comentários e até ligações de ouvintes. Como isso vai funcionar na prática?

– Nós vamos simular um programa da rádio com a presença da Selma Boiron, que nunca tinha trabalhado em rádio e entrou na Fluminense com 19 anos, colocando a rádio no ar. Ela vai contar essa experiência dela. Com ela, também estará presente a jornalista de Niterói, Mylena Ciribelli, que também era locutora. Também vamos contar com a presença do Lobão, do jornalista Arthur Dapieve, do Alvaro Luiz Fernandes, um dos responsáveis pelas promoções mais loucas que a rádio fazia, e o presidente da Fundação de Artes de Niterói (FAN), Marcos Sabino. Vai ser uma conversa como se estivesse no ar com vinhetas da rádio tocando: “Maldita, Maldita!”.

– E vai ter uma mostra contando a história do legado da rádio, com itens raros. O que o público poderá encontrar de novidade?

– Muitas fotos de época, a mesa de áudio, onde tudo aconteceu. Tudo que a gente falava passava por aquela mesa. É a maior testemunha que existe da rádio. Vai ter muito vídeo de época, entrevistas e também um elemento surpresa que o público poderá fotografar e interagir. Além de pocket shows com artistas da cidade na abertura, no dia 17 de maio. A exposição está muito bonita. Toda a concepção dela. Vai ter um cabo de guitarra passando por baixo do piso. É uma exposição muito imersiva.

Eu acho que a rádio mostrou que, quando um grupo de jovens vivendo um Brasil em profunda recessão, com uma inflação de quase 300% ao ano, começa a se mexer, é porque está certo. É aquele lema do punk: faça você mesmo, sabe? Foi mais ou menos isso. Nós fomos fazendo.

– ‘Aumenta que é rock’n roll’, filme baseado em seu livro, “A onda maldita”, tem previsão de estreia em setembro. Como foi a transposição do livro para o filme e como foi o processo de seleção dos momentos mais marcantes da história da rádio? E por que você sentiu a necessidade de contar essa história em outro formato?

– Muita gente me pedia para fazer um livro sobre a rádio, até que um dia eu resolvi sentar e escrever. Ele já está na quarta edição, disponível digitalmente. Mas, em 2013, recebi um telefone da Renata Almeida Magalhães, mulher do Cacá Diegues, com a proposta de fazer um filme com os direitos do livro. Eu indiquei o L.G  Bayão, roteirista de Niterói, que sabia que trabalhava bem. No filme, tem várias coisas inventadas. É uma ficção, mas tem como base o meu livro.

O diretor Thomás Portela me convidou para ver as gravações para evitar qualquer tipo de erro histórico. Quando eu vi o Johnny Massaro me interpretando parecia espiritismo. O cara estava igualzinho a mim. O gestual, o comportamento, o temperamento.

O mais legal é que todo o elenco do filme se apaixonou pela Rádio Fluminense, mesmo ela ausente. A direção de arte está sensacional. Conseguiram alugar um espaço no Rio onde foi simulado todo o estúdio da rádio, aqueles posters pendurados na parede. O Claudio Amaral Peixoto (diretor de arte) é fera. As poucas pessoas que viram o filme achavam que ele tinha sido filmado onde era a rádio. Não entendiam como tinham conseguido o espaço. Tem muito de Niterói também no filme. Acho que 97% da locação foi na cidade. Destaque para a Amaral Peixoto, a Praia de Itacoatiara, com os figurantes, os surfistas, as mulheres com biquíni de asa delta, típico da época… O filme começou a ser filmado em 2019 e está em processo de mixagem. Será lançado no dia 22 de setembro, depois do Rock in Rio. O Roberto Medina ficou louco quando viu o rascunho do filme. Tem um personagem também que interpreta ele.

O filme termina com uma cena apoteótica do Cazuza cantando “Pro dia nascer feliz”, no Rock in Rio. É engraçada essa história porque na época da rádio transmitimos o show do Queen todinho pelo orelhão do Rock in Rio. Compramos 200 fichas de orelhão. O alcance foi enorme. O Medina gostou tanto da ideia que vai colocar um orelhão na próxima edição do Rock in Rio em homenagem.

– A rádio rompeu com a ideia de que apenas homens poderiam ser locutores, inaugurando uma locução exclusivamente feminina, com a Selma Boiron. Quais foram algumas das barreiras ou até mesmo quebras de estereótipos que você teve de enfrentar?

– Naquela época havia um total desprezo do rádio pela voz feminina. O João Farias Neto, um mentor meu que era consultor da rádio Fluminense, veio com a ideia de ter locutoras mulheres para dar um contrapeso com a programação de rock pesado. Colocamos um anúncio no jornal: “locutoras sem experiência FM contrata” e foi uma fila. Mais de 200 mulheres. Selecionamos 8. Dessas, 2 com experiência e o resto nunca tinha entrado numa rádio. Elas foram treinadas e as meninas arrebentaram.

Locutoras da Fluminense: Selma Boiron, Edna Mayo, Liliane Yusim, Cristina Carvalho, Selma Vieira e Monika Venerabille. Foto: Zulmair Porfirio

– Como foi a repercussão do público com essa virada de chave?

– Os ouvintes ficavam na maior cerimônia. Eles tinham medo de pisar na bola. E nunca teve baixaria. Era de maior respeito. Elas estavam em um patamar superior. Vieram várias locutoras depois delas e depois felizmente várias rádios passaram a adotar a locução feminina. Dois anos depois, tinha um monte de mulheres falando no Brasil todo.

– Muitos falam sobre o papel de formação cultural da Rádio Fluminense. Quais são os principais pilares que consagram a rádio na memória afetiva dos ouvintes?

– Os produtores eram muito bem informados e muito cultos. Eram pessoas cabeçudas, refletindo sobre questões diversas. Isso passa para o ar. Tinha roteiro, mas depois, cada locutora ia adquirindo sua personalidade e ia fluindo. Tinha improviso também.

– A emissora teve problemas financeiros, por não ter anunciantes. O que você se recorda dessa época de mais desafiador?

– Não era fácil. As pessoas achavam que, porque a gente tocava rock, éramos marginais, drogados. Tinha esse preconceito. E tem outra coisa também: o ouvinte mandava muito na rádio. Foi uma loucura quanto tocamos Kid Abelha. Alguns reclamavam que estávamos muito pop, mas seguramos a onda. Isso porque a rádio tinha uma pegada mais de rock, blues e jazz. Tinha um programa maravilhoso. “O assunto é jazz”, com Luiz Carlos Antunes, toda terça à noite. Era maravilhoso.

– A rádio tinha esse tom provocador, né?

– Sim, a gente gostava de provocar. Teve uma promoção que fizemos na rádio uma vez. Era uma terça à noite, estava chovendo e um cara comentou que ainda não sabia o que ia fazer no dia de Natal, no dia 25 de dezembro. Ele dizia que dia 25 era pior que 24 e não tinha nada para fazer. Aí mais cinco pessoas na rádio concordaram. Decidimos fazer o seguinte: convidamos os ouvintes da rádio a passar a maior depressão coletiva no dia 25 de dezembro no Circo Voador. A ideia era: você podia levar de tudo, até lenço para chorar à vontade. Conclusão: o Circo lotou.  Até hoje o ouvinte fala que esteve no dia da depressão coletiva.

– Quais são os principais pilares que consagram a rádio na memória afetiva dos ouvintes?

Em primeiro lugar, música, locução feminina, promoções (depressão coletiva, camiseta, sorteio de disco). Muitas delas eram ousadas, engraçadas. Isso marca.

 

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