Niterói por niterói

Andanças

Por Giovanni Faria

Giovanni Faria é jornalista com mais de 30 anos de atuação em jornais e rádios do país, professor universitário e um andarilho pelo mundo. Já percorreu mais de 5.500 KMs em 11 viagens pelo Caminho de Santiago de Compostela. Nasceu em Nova Friburgo, mas é frequentador assíduo das ruas de Niterói, onde mora e caminha diariamente por todos os cantos da cidade.
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A infinita magia de um livro

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O livro escolar “La France en direct” encontrado no sebo, de volta à estante, 50 anos depois de muita história

Allô! C`est Philippe Ledoux?
Oui. C`est moi.

O diálogo inicial de meu primeiro livro de francês é uma espécie de mantra que carrego na memória há meio século. “La france en direct”, de J & G Capelle, tinha capa dura, fotos e ilustrações em preto e branco, era importado de Paris. Meu pai suou dobrado com seu parco salário de operário de fábrica para comprá-lo. No Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, as aulas eram solenes, primeiramente pela graça e ar divinal de dona Ledir Porto, depois, no ano seguinte, pela bossa do boa-praça professor Beto Carvalho. Tomei gosto pela língua, que desapareceu do currículo tragado pelo inglês. Perdi o livro.

Por anos, revirei daqui e dali em busca do então íntimo “La France”. Teria eu emprestado o livro a algum colega, que não me devolvera? Quem sabe, teria sido levado pela enchente de 1979 ou se desmanchara pela ação implacável do tempo? O fato é: o livro sumiu de minha estante. Os diálogos, entretanto, de tão marcantes e repetidos em sala de aula, ficaram todos, ou quase todos, na minha cabeça. O tempo passou, assimilei a perda, deixei para lá.

Tiens! Voilà Jean.

Où?

Là-bas, dans la voiture noire.

Há um mês, numa caminhada pela orla de Icaraí, decidi esticar os passos até o Centro de Niterói. Deu, eu diria, um estalo. Fui a um sebo – eram tantos, hoje são tão poucos. Mais precisamente ao Panorama, na Rua José Clemente. Como fizera centenas de vezes na vida, passei horas entortando o pescoço, garimpando nas prateleiras quase nunca organizadas. Não buscava nada de especial. Eis então que, do nada, me cai nas mãos um exemplar usado do meu livro perdido. Idêntico, mesma edição. Foi paixão à segunda vista. Por instantes, voltei ao tempo de menino, paralisado no meio do sebo, viajando de olhos fechados aos confins de minha juventude, até ser, enfim, reconectado ao mundo presente por um rapaz que me pedia passagem no corredor estreito. Perdão.

Cinquenta anos depois, reencontro “La France”, não o meu original, claro, mas um irmão gêmeo ainda jovem da capa à contracapa. Abro a primeira página e vejo uma data, mais um sinal de boa coincidência: 16 de junho de 1972, mesmo ano de meu falecido exemplar. Num instante, pude sentir o cheiro daquele que outrora saía imponente de minha surrada pasta de couro em sala de aula. A tal da memória olfativa me arrepiou.

Na primeira folheada, um recado deixa claro o zelo do ex-dono: “Em caso de extravio, por favor telefone para 711-5467”. Ao lado, um nome: Gelta T. M. de Lima. Tudo em letras arredondadas e caprichosas. E a referência a um lugar: Liceu Nilo Peçanha. Daí para a frente, em todas as 224 páginas, nenhuma anotação. Folhas intactas, livro perfeito, bem cuidado, sem rugas do tempo, praticamente novo, embora impresso no primeiro trimestre de 1971, conforme registro na última página.

Monsieur Dubois habite ici?

Oui, pourquoi?

Os personagens do livro – Philippe Ledoux, Jean, Monsieur Dubois, entre outros, todos amigos meus de velha data, agora cedem lugar ao mais novo deles: Gelta, até então a dona da obra em perfeitas condições. Quem seria a autora dos recados que o livro portava e que agora passara às minhas mãos por módicos R$ 10? Relutei na busca que me intrigava alguns dias. Mas, cedi. Acrescentando um 2 à frente, liguei para o telefone acima. Mensagem enfática, desanimadora: este número não existe. Facebook, nada. Instagram, sem chance. Esmoreci na busca.

Mas retomei. No Google, encontrei uma escola municipal com o nome  Gelta Therezinha Mendonça de Lima, na cidade de Carmo, interior do estado do Rio. Seguia uma boa pista. Liguei para lá e a diretora, Marlúcia, matou-me a charada. Sim, a homenageada com o nome da escola era a mesma do livro que eu comprara no sebo – a professora Gelta, que lecionou
a língua francesa por mais de 50 anos no Liceu Nilo Peçanha. Com voz embargada pelo choro, Marlúcia ajudou a encaixar as peças do quebra-cabeça.

Infelizmente, Gelta falecera a 17 de abril de 2020, aos 91 anos. Sua sobrinha-neta, a médica Maria Diva, de Niterói, a quem contei da história do livro, descreveu as qualidades – e não eram poucas – da tia-avó, mas, em especial, o amor pelo ensino do francês a muitas e muitas gerações. Gelta fora casada por 67 anos com o desembargador Darcy Lizardo de Lima, que
morrera em 2017, também aos 91 anos. “Não tiveram filhos, viveram um para o outro uma vida inteira. Quando ele partiu, ela perdeu o prazer de viver” – conta Maria Diva.

Cara professora Gelta: de alguma forma, o destino nos juntou. Seu livro está em boas mãos; prometo não perdê-lo, como o fiz com o meu meio século atrás. Gostaria muito de tê-la conhecido em vida, mas, pelo que ouvi de pessoas com as quais a senhora conviveu, parece que isso, de fato, ocorreu. Com o devido perdão, sinto que a conheço. Talvez, já seja até
amigo. Ou, quem sabe, velho aluno. Mais ainda, e por fim: herdeiro e guardião de uma preciosidade. “La france”, enfim, estará abraçado por Cervantes e Proust na minha estante.

Meu respeito e minha admiração, caríssima Gelta, estão demonstrados sem equívocos nesse hipotético diálogo a seguir, que une terra e céu com a força mágica do encontro entre pessoas em planos distintos:

Allô! C`est Madame Gelta de Lima? 

Oui, c`est moi!

Ouço sua voz, dona Gelta. Belo sotaque. Só mesmo um livro proporciona tanta magia assim. Merci, professeure!

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