Niterói por niterói

Andanças

Por Giovanni Faria

Giovanni Faria é jornalista com mais de 30 anos de atuação em jornais e rádios do país, professor universitário e um andarilho pelo mundo. Já percorreu mais de 5.500 KMs em 11 viagens pelo Caminho de Santiago de Compostela. Nasceu em Nova Friburgo, mas é frequentador assíduo das ruas de Niterói, onde mora e caminha diariamente por todos os cantos da cidade.
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Saudade de Paulo Gustavo, Levi, Chico e tantos outros

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Chego suado e descabelado, depois de uma caminhada de 20 quilômetros de ida e volta Icaraí-Fortaleza de Santa Cruz-Icaraí. Missão cumprida, ou quase. Ouço, ao longe, os sinos da Porciúncula de Santana. Meio dia cravado. Cruzo o Campo de São Bento em direção ao primeiro de meus dois afazeres, tipo rituais, de um sábado com sol a meia bomba: cortar o cabelo – apenas os fios brancos, como costumo pedir quando chego à barbearia. A juba cresceu rápido e vem mudando de cor. Atravesso a Domigues de Sá, esquina com Lemos Cunha, driblo carros no caminho, ponho os pés na barbearia do velho Farid e vou logo fazendo graça, como sempre o fiz em mais de três décadas.
– Vai me dizer que o faminto do Levi já foi almoçar…
Farid olha nos meus olhos, dá um passo em minha direção, põe um braço no meu ombro – todos gestos pequenos. A barbearia está vazia, algo estranho para um sábado. Numa fração de segundo um raio ruim corta meu corpo, feito navalha afiada na pele fina de um rosto sendo barbeado.
– Infelizmente, Levi faleceu – lamentou Farid, e sua voz sumiu na minha frente, abafada pelo sino da igreja e pela incredulidade da notícia.
Balbuciei alguma coisa, perguntei o motivo, a idade. Sei lá mais o quê. Parecia um apagão mental. Lembrei-me do livro de poesias que escrevera, da parceria dele com Zé Katimba no samba, do lamento da perda de muitos clientes nos últimos meses – metade que se fora de Covid, metade que se mudara para Portugal, contabilizava ele.
Pano rápido.
Meses antes, ao fim da caminhada, cumpria meu outro ritual, aquele hábito desde priscas eras. Precisava de um chope. Sempre bebia um ou dois para refrescar a alma. Dádiva de sábado. Cheguei a passos largos ao Novo Steak House, antigo Bar do Ademir, na esquina de Nóbrega com Cinco de Julho. Meu garçom preferido sabia a medida certa do colarinho. O velho Francisco, Chico desde sempre, equilibrava a bandeja tão bem quanto o tom de voz.
– Cadê o Chico? Vai me dizer que está de folga em pleno sábado… – disparei, sedento.
– A Covid levou nosso Chico para um bar no céu – disse-me o gerente, sem meias palavras.
O caminho da gente é assim, feito de pessoas humildes, simples, desconhecidas da maioria, quase anônimas. Levi e Chico me conheciam bem, meus gostos, minhas preferências, do corte ideal do cabelo e barba ao ponto certo do chope e tira-gosto.
Hoje, nas doze badaladas do sino da Porciúncula, cruzava o Campo de São Bento. E vi pela primeira vez Paulo Gustavo em forma de estátua, risonho, silencioso, mas ainda cercado de fãs, muitos deles. Havia uma flor amarela a seu lado. Havia emoção no ar.
Levi, Chico e Paulo Gustavo, como tantos outros,  deixaram saudade e floriram esse caminho despedaçado chamado 2021.

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