Niterói por niterói

Gilberto de Abreu

Jornalista, curador de artes e produtor cultural, Giba é carioca mas foi criado em Niterói. Com quase 30 anos de experiência em jornalismo cultural, e há quatro à frente da Babel.08_Artes, vem movimentando a cena cultural da cidade com eventos como a coletiva “A Caminho da Babel”, um panorama da Artes Visuais em Niterói, que reuniu 40 artistas e mais de 200 obras na exposição inaugural da Cúpula do Caminho Niemeyer.
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Round 6 e as citações à História da Arte

Round 6_destaque

A série sul-coreana Squid Game que no Brasil foi batizada pela Netflix de Round 6 para não bugar a cabeça de uma (in)certa militância com sua tradução literal Jogo da Lula -, conquistou o que nenhuma outra produção mundial da plataforma havia feito: 111 milhões de visualizações antes de fechar o primeiro mês.

A essa altura do jogo você deve estar se perguntando: o que há de novo sobre o assunto? E se eu te disser que, talvez, você não tenha atentado para o fato de que os nove episódios de Round 6 são impregnados de citações à história da arte!?. Vem comigo.

Não custa lembrar que Round 6 gira em torno de ingênuas brincadeiras infantis, tipo cabo de guerra, bola de gude etc, e um milionário prêmio em dinheiro, disputado por centenas de pessoas endividadas até a morte…

Batatinha Frita, 1, 2, 3

Já no episódio de abertura, o jogo em questão é comandado por uma boneca gigante. Atenta aos mínimos movimentos de quem nele se aventura, ela aniquila boa parte dos e das 456 participantes. Em meio à matança generalizada revela-se uma uma jogadora a-pa-vo-ra-da diante da eliminação de seus oponentes. 

O primeiro achado vem daí: ao levar as duas mãos ao rosto, emoldurando com elas todo o seu assombro, impossível não lembrarmos de O Grito, a obra-prima do pintor norueguês Edvard Munch. 

A tela, de 1893, retrata uma figura que, como a personagem da série, encontra-se em momento de profunda angústia e desespero. A cena, de tão expressionista, é quase bollywoodiana.

Terá sido mera coincidência? Já no segundo episódio, vemos que não. Quando o jovem detetive Hwang Jun-ho adentra o quarto do irmão desaparecido em busca de pistas sobre o seu paradeiro, encontra sobre a escrivaninha nada além de livros. De arte. Picasso, Monet, Van Gogh, Magritte.

Uma outra referência: da paleta pós-impressionista de Campo de trigo com ciprestes, do pintor holandês Vincent van Gogh, brotam nuances de azul e amarelo, empregados na paisagem do campo de provas.

A tela, datada de 1889, foi produzida durante a estadia do artista na instituição psiquiátrica Saint-Paul-de-Mausole, na cidade francesa de Saint-Rémy, perto de Arles. Uma loucura.

Relatividade: a gente vê por aqui

O diretor Hwang Dong-hyuk já havia reconhecido publicamente a influência que o artista holandês MC Escher exerce sobre ele. Algo evidente em um dos cenários mais loucos da produção: o labirinto de escadas por onde são conduzidos os competidores de Round 6.

O tal ambiente é a materialização de Relatividade. litografia de impressão tirada pela primeira vez em dezembro de 1953. A obra, que retrata um mundo em que não se aplicam as leis normais de gravidade, inspirou a cenografia composta de intrincadas escadas que parecem levar a lugar algum. 

Uma curiosidade: a empresa chinesa de design Studio 10 fez uso da mesmíssima cartela de cores ao projetar o hotel boutique The Other Place Guilin Litopia, também inspirado na série.

Impossível não lembrar também do clipe da música Around the World, do duo francês Daft Punk, aquele em que o corpo de baile sobe e desce as escadas rebolando em fila indiana.

Arroubos surrealistas

Voltando às referências da história da arte, parte do cromatismo de Round 6 reverencia a tela O falso espelho (1828-29), do pintor belga René Magritte, e o embaralhamento que a mesma provoca em nossas retinas. 

Para quem não ligou o nome à coisa, esta obra é a mesma que pertenceu ao fotógrafo Man Ray na década de 1930, e que hoje por ser vista no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

No sétimo episódio, em que os ricos patrocinadores do jogo começam a chegar para o banquete de encerramento, surgem novos arroubos. Vestindo máscaras de baile, os VIPs de Round 6 evocam Salvador Dalí e seu famoso Baile Surrealista de 1972, oferecido pela Baronesa Marie-Hélène de Rothschild no Chateau de Ferrières. 

Enquanto um dos convidados surge com uma maçã na frente do rosto, igualzinho em O Filho do Homem, a tela do belga René Magritte, uma outra senhora, acompanhada de seu marido, veste uma colagem com cabeças de Mona Lisa, a misteriosa musa do italiano Leonardo da Vinci.

O jantar servido aos convivas – e no qual são conhecidos os semifinalistas da disputa – é servido em uma enorme mesa triangular. Outra referência explícita à história da arte, e nesse caso à instalação The Dinner Party, da feminista norte-americana Judy Chicago. 

A obra é um tributo às mulheres que, apesar da influência na história da arte ocidental, não disfrutaram do mesmo reconhecimento que seus pares do sexo oposto.

Tem pagode na Coréia do Sul

Surfando no hype de Jogo da Lula, o trio sul-coreano Tell a Tale – que bomba no Youtube fazendo covers de sucessos brasileiros – vestiu o uniforme da série e invadiu os bastidores da produção para entoar, nada menos, que um pagodinho do Péricles… 

Mais que um teaser promocional, O Tell a Tale entrega tudo com este que vem a ser o maior spoiler de todos, e financiado pela própria Netflix. É que a letra da canção escolhida entrega quase tudo da relação (e dos conflitos) entre as personagens de Round 6

E antes que eu fale ainda mais, me despeço cantarolando o bis da canção: Melhor eu ir…

 

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