Niterói por niterói

Sergio Torres

Sergio Torres trabalhou nos três maiores jornais do país ao longo de 35 anos. Mas se interessa mesmo é pelas notícias locais de Niterói, onde nasceu e sempre viveu. 
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Pranto e desespero

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Durante o tempo em que trabalhei em “O Fluminense”, uns quatro anos a partir de novembro de 1983, exerci as funções de repórter, redator e chefe de reportagem. A história que contarei na coluna desta semana tratará de um triste episódio ocorrido na mesa do copy desk do jornal. Copy desk significa (ou significava, não sei como é hoje) redator. Os redatores sentavam-se à mesa do copy desk, todos juntos. A protagonista do drama foi a então redatora Irany Tereza.

Quem presenciou, não se esquece do pranto sentido derramado pela jornalista em plena redação. E o mais espantoso é que aquela frágil mulher transformou-se, mais de 20 anos depois, na inclemente chefe da Economia das importantes sucursais do Rio de Janeiro e de Brasília do centenário “O Estado de S. Paulo”. Aqueles que conviveram com Irany no jornal paulista tinham uma certeza: jamais esta mulher dura e inflexível vertera uma lágrima sequer, mesmo que furtiva fosse, às escondidas. Jamais.

Não é bem assim, posso atestar. E invoco o testemunho da jornalista Antonietta Ramos, grande amiga de Irany e que conosco dividia a mesa do copy. Coube à bondosa Antonietta o primeiro abraço na colega com os nervos em frangalhos.

Tudo começou por volta das 14h, quando chegavam os primeiros redatores. Éramos, salvo engano, eu, Irany, Antonietta, Selma Nogueira e Cláudia Neiva. Incumbidos de até a noite ter lido toda a produção dos repórteres da casa, acrescentando títulos e legendas, cortando excessos, definindo os textos conforme a orientação dos editores. E, principalmente, corrigindo os erros.

Porque os erros eram espantosos. Havia repórter que escrevia você com cedilha e cachorro com a letra x. Entre nós, redatores, a correção virou uma espécie de corrida. Quem chegava mais cedo, pegava os textos de quem escrevia melhor. Assim, sobravam para os redatores retardatários os textos dos que não escreviam direito, os tais do ç.

Arrimo de família, Irany era, invariavelmente, a última a chegar, pois defendia um por fora no segundo emprego, que lhe ocupava até o fim da tarde. Aos poucos, ela foi demonstrando incômodo com o fato de ler os piores textos. Mas bom cabrito não berra, reza o ditado. Ela só fechava a cara e descia a caneta nas matérias, entre resmungos e palavrões.

Até que certo dia, recém-chegada por volta das 17h30, Irany sentou-se à mesa, puxou um texto, na época escrito em máquina datilográfica, em três vias copiadas em papel carbono (talvez isso nem exista mais). Foi botar os olhos na reportagem e desabar em um choro convulso. O barulho atraiu até mesmo funcionários de outros andares. Todos penalizados com a situação da querida colega, realmente estimada por todos.

Antonietta levantou-se na hora e seguiu diretamente para amparar a amiga. Imaginávamos que Irany chorava por problemas pessoais sérios, quem sabe até resultado de decepções familiares ou mesmo amorosas.

Nada disso. Irany chorava de ódio, de veemente fúria. Ódio de nós, seus colegas de copy desk.

“Não vou ler mais essas porcarias, vocês não podem fazer isso comigo! Trabalho duro o dia inteiro, na sofrida busca do pão de cada dia, e vocês me deixam sempre com o pior pedaço! Nunca fico com o filé mignon, nunca!! Para mim só sobra o coxão duro!!”, gritou, referindo-se a uma conhecida carne de segunda.

Enquanto gritava, Irany brandia as resmas de papel em que a matéria tinha sido escrita. Três ou quatro folhas de papel prestes a serem estraçalhadas. Providenciou-se logo um copo cheio de água com açúcar servido à temperamental jornalista. Aos poucos, ela foi relaxando. O pranto deu lugar a soluços. Imagino que Irany concluiu que nenhum de nós seríamos capazes de deliberadamente deixar os piores textos para sua apreciação. Imagina se faríamos uma coisa dessas.

A matéria que motivou a crise de nervos da colega de copy tratava da tentativa de homicídio perpetrada por uma mulher contra o marido adúltero. Não aguentando mais as traições, ela esperou o sono do Don Juan da Engenhoca (bairro em que o casal morava) e correu para a cozinha.

Em um panelão, ferveu alguns litros de água. Sem misericórdia, despejou tudo na cabeça do marido, que sofreu queimaduras atrozes. Até aí tudo bem, caso triste, mas já vimos coisa pior nessa profissão. O que teria, então, provocado a explosão de nervos da redatora?

A resposta foi dada pela própria Irany, quando o choro amainou. ´

“Não é possível o repórter escrever uma coisa dessas. Vocês deixaram isso para mim de sacanagem, não é justo, canalhas”, lamuriou-se.

“Mas o que ele escreveu de tão grave, Irany?”, perguntei.

Ela mostrou aos redatores o trecho que a indignara. O fato é que, segundo o repórter, a água fervente havia feito estragos na cabeça do infeliz. Mas, ao escorrer pelo corpo, o líquido ia esfriando tão rapidamente que, “ao chegar nas partes pudendas do Ricardão, não provocou queimaduras”.

Tivemos todos que admitir: havia justos motivos para o desespero do pranto.

Na próxima coluna, falarei sobre o fiscal de Sarney que virou criminoso nas páginas de “O Fluminense”.

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