Niterói por niterói

Luiz Cláudio Latgé

Jornalista, documentarista, cronista, atuou na TV Globo por 30 anos, como repórter, editor, diretor. Consultor em estratégia de comunicação, mora em Niterói e costuma ser visto no Mercado de São Pedro.
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O que o IBGE vai encontrar em Niterói 12 anos depois do último Censo?

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Será que o Censo do IBGE vai explicar porque Niterói tem tanta farmácia?

Os pesquisadores do IGBE  começam a percorrer o Brasil para atualizar as informações sobre a população brasileira, depois de 12 anos do último Censo. Mas o que será que vão encontrar em Niterói? Em que será que a cidade mudou? Ficamos mais velhos? Mais ricos ou mais pobres? Como andam os indicadores que medem a qualidade de vida? E a saúde e a educação? É um risco tentar adivinhar o que aconteceu neste tempo, mas ao cronista é dado juntar pedaços e apresentar seus palpites. Uma espécie de loteria do Censo.

Na última pesquisa, éramos 487.562 moradores. O Instituto fez uma projeção no ano passado, baseada na média histórica de crescimento da população, e calcula que já passamos de 516 mil.  Uma cidade de médio para grande porte. Isso mesmo, uma cidade que caminha para ser grande. A gente que vive por aqui, à sombra do Rio, e de lembranças de outros tempos, vai achar sempre que a cidade é pequena. Mas os números mostram outra coisa. Niterói é a quinta cidade do estado do Rio e aparece entre as 40 maiores do Brasil, entre mais de 5.500 municípios. Maior que algumas capitais, como Vitória, ES, por exemplo, que tem cerca de 400 mil habitantes. Se ainda não acredita, olhe para os engarrafamentos. Quase 300 mil carros nas ruas por dia, nas contas da Nittrans. Quase uma metrópole…

É possível mesmo que Niterói tenha crescido mais ainda na última década do que vinha acontecendo, em função da deterioração do Rio e oferta de novas áreas residenciais. Na última pesquisa, a ocupação de Piratininga apenas começava e Charitas era pouco mais que um projeto imobiliário. E teve toda a propaganda do túnel, da faixa exclusiva e da integração com o Catamarã de Charitas. Propaganda enganosa. Hoje a linha não leva mais de 2.500 passageiros por dia e o estacionamento construído na praia só é lembrado quando as ruas alagam nas chuvas. Mas o IBGE não vai falar sobre isso.

Nas estatísticas, esta é uma cidade rica.  O PIB per capita foi de  R$ 90.643, em 2019. A gente sabe que não tem este dinheiro todo no bolso. Mas Niterói tem os royalties. E aí o IBGE vai ter novidades para contar. Em 2013, o orçamento do município era de R$ 1,6 bi. Passou para R$ 4,2 bi, este ano. No Rio, só perde para a capital.  Nesta hora, todo mundo morre de inveja de Niterói.

Dinheiro não traz felicidade, mas dá para fazer muita obra com todo esse orçamento. E Niterói não para de fazer obras. Neste período, foram feitos projetos de grande porte, como o túnel do Cafubá, o asfaltamento e saneamento da Região Oceânica, o Parque da Orla da Lagoa, ainda em andamento, a reurbanização da Marquês do Paraná… uma lista enorme. Com certeza vai aparecer na campanha do ex-prefeito Rodrigo Neves para o governo do estado. A cidade já aparece faz tempo no ranking dos municípios com melhor índice de desenvolvimento humano.  Em 1991, o índice era de 0,681. Em 2000, passou a 0,771. Na última medição, 0,837.

Mas ao mesmo tempo que o morador de Niterói pode exibir uma ponta de orgulho, não dá para fingir que está tudo nem. A desigualdade é um problema, que será medido pelo crescimento das favelas. O empobrecimento da população também deve aparecer na pesquisa, apesar dos projetos de renda mínima adotados durante a pandemia. Neste ano, o aumento da procura de vagas para alunos na rede pública ( aliada a uma certa desorganização) fez faltarem vagas para crianças. A Educação, aliás, é um dos itens de atenção. Apesar de todos os recursos, e de uma rede de escolas particulares entre as melhores do estado, Niterói patina no IDEB do Ensino Fundamental, na rede pública, tanto entre os alunos mais novos, como nota média de 5,5, até no grupo mais velho, com 3,8. Dava para melhorar, com certeza.

A Saúde ainda é outro ponto de atenção. Em 2010, o município aparecia no meio da estatística nacional, uma posição ruim para quem tem tantos recursos. Mas a ação da Prefeitura durante a epidemia trouxe mais investimentos para a rede pública. A cidade hoje recebe pacientes de outros estados, tanto nos hospitais do SUS, quanto nos hospitais da rede pivada. E de um Censo para outro Niterói ganhou hospitais do porte da Rede D’Or e do CHN.

Mas o Censo é demográfico e vai falar mesmo é da população. Temos fama de ser uma cidade de velhos, principalmente por causa de Icaraí, com mais de 80 mil moradores e a maior concentração de farmácias do planeta. Nem é muito justo: no último Censo, a população com mais de 50 anos representava cerca de 30% do total. É que a turma mais nova não fica na pracinha, se espalha pelas praias e por outras atrações da cidade.  Espere para ver o desfile da Viradouro…  Desconfio que a cidade ficou mais nova com o passar dos anos, dessas coisas que só acontecem em Niterói.

É possível que a pesquisa mostre também que somos mais negros do que declaramos no passado (isso tem aparecido em outras pesquisas no Brasil inteiro), e não somos tão católicos como dizemos. Basta ver que há pelo menos três grandes templos em construção em Niterói: o da Logoinha, na Região Oceânica, o da Assembleia de Deus do bispo Malafaia, no casarão de charitas,  e a IPTM, perto do Multicenter.

São meus palpites. Mas o IBGE vai mostrar com propriedade todos estes números.

E você, o que acha que mudou em Niterói nos últimos 12 anos?

 

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