Niterói por niterói

Andrea Ladislau

Andrea Ladislau é graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Tem especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. Na pandemia, criou no Whatsapp o grupo Reflexões Positivas, para apoio emocional a pessoas do Brasil inteiro.
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O grito de socorro de Felipe Neto expõe a importância do combate à depressão

A psicoterapia ajuda e auxilia na reestruturação psicológica do indivíduo, além de aumentar sua compreensão sobre o processo de depressão

“A depressão é uma doença da mente. Estou no fundo do poço. Busque ajuda….” relatou o influencer digital Felipe Neto aos seus inúmeros fãs e seguidores, em um relato emocional em suas redes sociais. Convivendo com a depressão já há algum tempo, Felipe expõe a importância do autocuidado e também a necessidade evidente de se ter uma rede de apoio, composta inclusive por profissionais de saúde mental para auxiliar no controle dos sintomas depressivos.

Considerada “a doença do século”, a depressão gera transtornos psíquicos e físicos que alteram o humor e a rotina, como tristeza, pensamentos negativos, desinteresse pela vida, dificuldade de concentração, alteração do apetite, alteração do sono, perda ou ganho de peso, sentimento de culpa, fracasso, baixa autoestima, pânico, entre outros.

No Brasil, mais de 11 milhões de pessoas são afetadas, mas, infelizmente, esse número não é levado tão a sério. E com o advento da pandemia e dos excessos provocados pelo avanço desenfreado da tecnologia que escraviza o ser humano, esse número pode ser ainda muito maior. Costumam confundi-la com uma tristeza passageira, e isso só faz com que o problema se agrave. Apesar de ser uma doença que afeta homens e mulheres em grandes proporções, também existem muitos casos de crianças e adolescentes diagnosticados com o transtorno.

Ela está presente em 1% a 2% das crianças em idade pré-escolar e entre 3% a 8% dos adolescentes. Até o final da adolescência, uma em cada cinco crianças terão apresentado um episódio depressivo mais ou menos grave.

Como nos adultos, existem, aparentemente, múltiplos fatores que predispõem à depressão: genéticos, cognitivos (“modos” de pensar da pessoa e da família em que ela nasce); maus tratos domésticos; ser vítima de bullying, um tipo de violência psicológica ou física que a criança sofre recorrentemente; pertencer a minorias sexuais; luto por perda de entes queridos, separações ou relações íntimas conflituosas.

Por outro lado, diminuem à predisposição à depressão uma relação afetiva calorosa com os pais, um nível de inteligência elevado, hábitos de lidar com os problemas focando em sua solução e a capacidade de regular as emoções de forma adaptativa.

As causas são diversas. Entre elas, podem estar: experiências do passado, pressões da vida contemporânea, fatores fisiológicos, como alterações hormonais e genéticas, e outras. É preciso que toda a sociedade se conscientize para que os casos de depressão sejam tratados de forma séria e humana e, assim, melhorarmos a qualidade de vida das pessoas. O acompanhamento é essencial, além de uma boa alimentação e atividades físicas.

O depressivo tende se isolar dos demais e, até mesmo, a desconfiar; por isso é necessário renovar continuamente as demonstrações de disposição se quiser que ele se abra. E, principalmente, anime-o a buscar a ajuda de um profissional, se ainda não o tiver feito.

Fato é que, alguns casos são tão severos que existe a necessidade de uma ajuda medicamentosa. O paciente precisa buscar ajuda de um psiquiatra que irá prescrever medicamentos de acordo com o grau de depressão. Mas também é importante, aliar o tratamento com terapia cognitivo-comportamental (e os demais métodos), psicanálise e terapias comportamentais.

Temos que estar atentos a alguns sinais importantes: Tristeza tem motivo. A pessoa sabe que está triste. A depressão é uma tristeza profunda e muitas vezes sem conteúdo, sem motivo aparente. Mesmo se algo maravilhoso acontecer ou estiver acontecendo, a pessoa continuará triste. A pessoa triste pode ter sintomas no corpo, como sentir aperto no perito, taquicardia, chorar. A pessoa deprimida tem pensamentos suicidas. Quem está triste costuma ter pensamentos repetitivos sobre a razão da tristeza e também quando deprimida, a pessoa sente, pelo menos, duas semanas de uma tristeza profunda e contínua.

Por todos estes fatores, o mais correto é acolher este paciente com ajuda profissional. A psicoterapia ajuda e auxilia na reestruturação psicológica do indivíduo, além de aumentar sua compreensão sobre o processo de depressão e na resolução de conflitos, o que diminui o impacto provocado pelo estresse.

Além disso, muitas pessoas com depressão também sofrem com sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e de apetite e podem ter sentimento de culpa ou baixa autoestima, falta de concentração e até mesmo aqueles que são clinicamente inexplicáveis e que com suas constâncias podem sim, levar o paciente a um ou vários episódios de surto de pânico, no qual ele passará a ter muito mais dificuldade de se relacionar socialmente, pois passa a ter medo de tudo, isolar-se em casa, negar a convivência com os outros, medo de multidão, além de desenvolver estresse severo.

Enfim, Felipe Neto escancara uma dor silenciosa e preocupante. Assim como ele, muitas pessoas ao nosso lado, podem estar passando por esse problema e não conseguimos enxergar. O que mostra que ter depressão não é estar tristinho, é estar doente. Quem está depressivo e não consegue sair da cama não é preguiçoso, dorminhoco, nem está fazendo corpo mole, está recluso porque não tem condições de encarar sua própria realidade.

Vive um conflito interno constante. É um quadro clínico grave que precisa ser tratado. Ajudar uma pessoa em depressão, deve passar por um princípio básico: “É mais importante escutar do que dar conselhos”.

Assim, o simples fato de falar com alguém já pode ser uma grande ajuda. Incentivar a pessoa a externar seus sentimentos e estar disposto a escutá-la sem julgar, certamente, faz a diferença. Permitir que o outro consiga se expressar, demonstra que estamos abertos e dispostos, que é a versão da história deste que nos importa.

Uma doença que não escolhe suas vítimas, pode afetar qualquer um, seja de qualquer classe social, gênero, idade…. não importa.

Portanto, esteja atento aos sinais que o outro possa nos dar. Acolha, ofereça afeto, seja empático e estimule a busca por um tratamento adequado. Você pode salvar uma vida se compreender que a depressão pode ser devastadora na vida de um ser humano.

 

 

Dra. Andréa Ladislau

Psicanalista

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