Niterói por niterói

Trajano de Moraes

O jornalista niteroiense Trajano de Moraes sempre esteve ligado à cobertura dos assuntos internacionais em longas passagens por Jornal do Brasil e O Globo. É formado pela Escola de Comunicação da UFRJ e mora em NIterói.
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O dia em que eu (e O GLOBO) levamos um furo do JB

ricardo lagos

Se há uma coisa de que me ressinto nos 45 anos de jornalismo foi ter experiência limitada como repórter. É a reportagem que dá a manha, o jogo de cintura e o faro pela notícia. Entrei repórter na Rádio JB, mas rapidamente foi promovido a redator. O salário aumentou, mas teria sido melhor ralar mais no corpo-a-corpo da apuração. A Rádio ainda ficava no prédio da Avenida Rio Branco. Naqueles tempos longínquos, conseguir uma linha telefônica no centro do Rio era uma tortura. E o foca (jornalista novato) aqui recebeu a tarefa que competia a todo foca: fazer uma ronda de hora em hora numa vasta lista de telefones de delegacias, hospitais, serviços. O que acontecia? Uma hora já tinha se passado e eu ainda não tinha conseguido fechar a primeira ronda.
Daí em diante, virei rato de redação. Tive duas passagens pelas editorias de Economia do JB e do Globo, às vezes também fazendo reportagens. Mas quando migrei para a Internacional do Globo, as fontes passaram a ser as agências de notícias internacionais. Eu virei Subeditor e fechador de páginas e as reportagens escassearam.

Foi, assim, como um misto de surpresa e pavor que ouvi da minha editora na época, Cláudia Sarmento, a frase peremptória: “Trajano, você vai cobrir as eleições no Chile”. Não era pouca porcaria. Estávamos no ano 2000 e tratava-se da primeira eleição democrática no país desde o início da ditadura do general Pinochet, em 1973. As duas principais forças política do Chile então, o Partido Democrata Cristão e o Partido Socialista, formaram um bloco político que se chamou Concertación e seu primeiro candidato a presidente foi o socialista Ricardo Lagos, que estivera preso na ditadura Pinochet. Era o franco favorito.

Engoli em seco, fiz cara de quem estava muito satisfeito com a tarefa – é um privilégio para um escriba da Internacional fazer uma cobertura dessas. Por dentro, estava morrendo de medo. Já tinha passado por dezenas de eleições nos mais variados países, mas nunca tinha ido cobrir diretamente uma.
Cheguei esbaforido em Santiago, corri para o hotel e entrei em contato com Cláudia Sarmento para dizer que já estava a postos. Para quê! A resposta dela me gelou: “Trajano, o JB já deu hoje uma entrevista com Ricardo Lagos”. Não podia ser pior! Já mal das pernas, o JB não mandara ninguém a Santiago, mas usou uma tática de guerrilha. Encaminhou com antecedência perguntas à assessoria de imprensa de Lagos e furou todo mundo.

Se esbaforido estava, mais esbaforido fiquei. Daí para frente foi correr atrás de Lagos o dia inteiro, correr de volta para o hotel e mandar reportagens a tempo. Menos mal que a assessoria dele entrou em contato para dizer que o candidato ia receber repórteres dos principais meios que estavam em Santiago, o que incluiu O Globo. Mas o furo estava dado. Nuca tive coragem de perguntar à editora o que achara da cobertura.

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