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Silvia Fonseca

Silvia Fonseca é jornalista e trabalhou por 30 anos no jornal O GLOBO, onde foi Editora Executiva. Tem pós em Gestão de Redação, tem uma consultoria em soluções de mídia e é sócia fundadora do A Seguir: Niterói. Nasceu em Minas, mas mora em Niterói há 32 anos.
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O dia em que concordei com Jordy

Carlos Jordy afirma que será candidato à Prefeitura de Niterói. Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados
O deputado Carlos Jordy, investigado sob suspeita de envolvimento com organizadores dos atos golpistas de 8 de janeiro

“Estamos numa ditadura que distorce e manipula fatos”. Foi o que disse o deputado bolsonarista Carlos Jordy, líder da oposição, ao falar hoje sobre a operação da Polícia Federal que o alcançou. Concordo com ele que “ditadura distorce e manipula fatos”. Mas discordo do “estamos numa ditadura”. Não estamos não!  E é por isso que o deputado foi alvo de mandado de busca e apreensão e tem de dar explicações à Polícia, ao Ministério Público Federal e à Justiça.

Jordy nem tinha crescido. Estava apenas com 3 anos de idade quando José Sarney tomou posse em 1985, pondo fim à ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Mas não é por isso que ele não sabe o que é uma ditadura. Ele sabe e até gosta. Desde que virou bolsonarista, o ex-vereador de Niterói  propaga as loucuras autoritárias do bolsonarismo. Não apenas é simpático a ditaduras como sabe muito bem como os regimes autoritários “distorcem e manipulam fatos”, nas palavras dele.

Ao ir depor após a operação da PF, distorceu tanto que nem vale comentar os arroubos e xingamentos contra ministro do Supremo Tribunal Federal. Mas algumas distorções merecem considerações:

  1. O Brasil  não vive uma ditadura justamente porque o bolsonarismo perdeu e os golpistas foram presos e estão respondendo à PF e à Justiça.
  2. Ditadura tortura e mata, some com os corpos, cala parlamentares que se insurgem contra ela. O deputado fala o que quer, vai onde quer, tem todo o direito à mais ampla defesa e ele será respeitado.
  3. Mas não é porque tem mandato de deputado que pode  incentivar crimes e defender ideias golpistas. Tentativa de golpe é crime, tentativa de derrubar a ordem democrática de direito é crime. E quem tenta golpe ou estimula quem tenta golpe comete crime. Pode falar tudo o que quiser? Pode, deputado, mas responderá sim por tudo o que disser num regime que respeita o estado democrático de direito.
  4. Ditadura não faz busca e apreensão para depois prender. Ditadura vai lá e prende, de preferência na surdina, sem direito de defesa e sem respeitar o devido processo legal.
  5. A operação da PF é resultado de uma investigação legal instaurada após os atos criminosos de 8 de janeiro do ano passado. Investigação prevista na lei, determinada pela Constituição diante do que se viu naquele dia.
  6. A PF investigou e remeteu o resultado das apurações para o Ministério Público, no caso a Procuradoria Geral da República, já que o deputado tem foro privilegiado. Este é o rito previsto em lei num regime democrático. Na ditadura seria prender, arrebentar e pronto.
  7. A PGR aceitou as provas, acolheu e enviou para o relator do caso no STF, ministro Alexandre de Moraes, para que este autorizasse ou não a recomendação de busca e apreensão em endereços do deputado e de outros suspeitos.
  8. O ministro autorizou com base na investigação da PF e na recomendação da PGR. Tudo dentro da lei, tudo de acordo com o rito do processo normal num regime democrático.
  9. O deputado não foi preso, não houve ordem de prisão. Ele teve documentos apreendidos para complementar as investigações, como prevê a lei.  E terá, como os demais, todo o direito à defesa e a comprovar ou não suposta participação nos atos golpistas.
  10. Distorcer os fatos é dizer que o que se viu na invasão e depredação dos prédios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário naquele 8 de Janeiro não foi tentativa de golpe.  Ali houve uma série de crimes contra o patrimônio e a democracia. Diversos crimes registrados, documentados e ainda sob investigação.
  11. “Ah, mas tentativa de golpe não é golpe”. Claro que não. Se fosse golpe aí sim teríamos uma ditadura hoje e não haveria todo o processo legal,  respeitando-se cada passo da investigação e futura responsabilização dos culpados. Se não fosse “tentativa”, seria golpe. E com golpe não haveria apuração. O crime é justamente atentar contra a democracia e o estado democrático de direito.
  12. Na guerra a primeira vítima é sempre a verdade. Frase mais do que batida. Mas vale aqui porque serve para as ditaduras também. Se o golpe tivesse vingado e estivéssemos sob uma ditadura, como diz o investigado, aqueles crimes todos não seriam apurados e os golpistas estariam cortejando o ditador, como fazem desde pequenininhos. A verdade é sinônimo de distorção na ditadura.
  13. Se ditadura distorce e manipula, os bolsonaristas elogiam a ditadura de 1964 por que mesmo?

 

Para não esticar muito a lista, deixo vocês com a transcrição do diálogo de Jordy com  Carlos Victor de Carvalho, o CVC,  apontado pelos investigadores como chefe da extrema-direita no Norte Fluminense e organizador dos protestos de 1 de novembro de 2022, após o TSE confirmar a derrota de Bolsonaro no segundo turno das eleições.

Na mensagem, Carlos Victor chama Jordy de “meu líder” e pede orientação sobre “parar tudo”.

CVC: “Bom dia, meu líder. Qual direcionamento você pode me dar? Tem poder de parar tudo”.

Jordy: “Fala irmão, beleza? Está podendo falar aí?”

CVC: “Posso irmão. Quando quiser pode me ligar.”

No dia da conversa, segundo a PF,  havia bloqueios de rodovias em protesto contra a vitória do hoje presidente Lula sobre Bolsonaro.

Se houvesse hoje uma ditadura no país, o ditador concluiria que “meu líder” mandou bloquear as estradas. Mandaria prender, calar e cassar o deputado. Mas felizmente estamos num regime democrático de direito. Há um processo legal, com todos os ritos da investigação sendo cumpridos. A operação foi feita e autorizada por PF, PGR e Supremo.

Para  simpatizantes de ditaduras,  a distorção é a alma do negócio. Além de alma, é também uma arma que rende votos. Ditaduras distorcem. Ponto. E felizmente o Brasil se livrou de outra.

 

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