Niterói por niterói

Sergio Torres

Sergio Torres trabalhou nos três maiores jornais do país ao longo de 35 anos. Mas se interessa mesmo é pelas notícias locais de Niterói, onde nasceu e sempre viveu. 
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O cotonete nos tempos do cólera

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Nesta coluna presto homenagem nestes tempos de pandemia à enfermeira desconhecida. Falo especificamente daquela que na primeira metade da década de 90, no Hospital Universitário Antônio Pedro, coletou material orgânico em suspeitos de ter contraído a bactéria do cólera.

Por orientação dos editores do “A Seguir: Niterói”, este texto deve ter alguma relação a pandemias, epidemias, surtos e coisas afins. Como, por incrível que pareça e por mais que muitos duvidem, não cobri a Peste Negra na Europa de 1347 a 1353, vou me ater às ocorrências de cólera em Niterói há cerca de 30 anos.
Era, então, repórter da Folha de S.Paulo no Rio de Janeiro. O surto de cólera começou no Grande Rio em Niterói, naquela região entre o mercado de Peixes São Pedro e a rodoviária Roberto Silveira.

A doença acometeu um dos muitos mendigos que dormiam sob as marquises naquela degradada área do Centro. O sujeito sofria atrozes dores abdominais, sudorese fria, câimbras e uma fétida diarreia aquosa e abundante. Era um semimorto quando adentrou o hospital da Universidade Federal Fluminense.

Ágil, a prefeitura recolheu todos os mendigos do Centro e aproveitou o carreto para levar ao Antônio Pedro os peixeiros de serviço no célebre mercado. Como preconiza o conhecimento médico, alimentos mal cozidos ou crus, como os pescados, podem ser transmissores do vibrião colérico.
No total, eram um cem sujeitos enfileirados em um dos terríveis corredores de um ambulatório em situação de abandono. Muitos em andrajos. Outros exalando nauseabundo cheiro de peixe. O calor era insuportável. Não havia ventilação. Ao lado deles, macas com cadáveres assustavam os ainda vivos pacientes que deram azar de estarem internados ali.

O exame para constatar a presença do vibrião era simples. Muito parecido com o teste de verificação da Covid. O instrumento era praticamente o mesmo: um avantajado cotonete.

A questão é que na Covid o cotonete é inserido nas fossas nasais. No cólera, no pavilhão lorto-anal. Criou-se o caos naquele corredor. Nem mendigos nem peixeiros admitiam tamanha intimidade. E nenhuma enfermeira queria assumir tarefa tão penosa.

Houve a necessidade de convocar-se a força policial. Era questão de saúde pública. Uma epidemia de cólera poderia causar milhares de mortos, como aconteceu na primeira que se tem notícia, 500 anos antes de Cristo, na Índia.
Formou-se a fila de peixeiros e mendicantes por PMs que também não escondiam o desconforto com a missão. Surgiu, então, um segundo problema. As enfermeiras recusavam-se a coletar o material, sob a alegação de que era por demais insalubre.

Foi quando ouviu-se a voz fina, mas segura, de uma mulher madura, enfermeira abnegada: “Essa bagaça é comigo mesmo. Manda vir o primeiro”.

A calma surgiu naquele momento. Um por um, os suspeitos entravam na saleta e submetiam-se ao swab retal (nomenclatura técnica do exame). A experiente enfermeira, de quem Ana Néri certamente se orgulharia, cumpriu sua missão.

Em nenhum deles foi constatada a presença do vibrião. Estavam todos sadios, sem vestígios da doença.
A anônima enfermeira continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido. A uma novata colega disse apenas que nunca passara por situação tão nojenta quanto aquela.

(Na semana que vem contarei as aventuras do motorista Mosquito, tema prometido na minha última coluna. Ele era o homem que pedia leite gelado em birosca.)

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