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Andrea Ladislau

Andrea Ladislau é graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Tem especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. Na pandemia, criou no Whatsapp o grupo Reflexões Positivas, para apoio emocional a pessoas do Brasil inteiro.
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Novembro azul descortinando a fragilidade e sensibilidade do homem

Fazer exames é fundamental para a saúde do homem.
O laço de cor azul simboliza a Campanha Novembro Azul de prevenção ao câncer de próstata

Novembro Azul é uma campanha de sensibilização e prevenção contra o câncer de próstata, que pode acometer homens em todo o mundo. A campanha foi criada principalmente com o objetivo de quebrar o preconceito masculino de ir ao médico e, quando necessário, fazer o exame de toque. Através de iniciativas de iluminação de pontos turísticos (como Cristo Redentor, Congresso Nacional, Teatro Amazonas, Monumento às Bandeiras), o movimento vem obtendo ampla divulgação, em alusão ao Outubro Rosa (movimento de combate ao câncer de mama), que também colore as cidades com a cor rosa.

Mas, infelizmente, ainda existe muito preconceito por parte dos homens na busca de auxilio, informação e prevenção. De alguma forma, criou-se a “lenda urbana” de que o homem é forte, não sofre com doenças, não sofre com sentimentos não correspondidos, ou coisas do tipo. Mas, isso é fake. Homens sofrem, são frágeis e também necessitando de cuidados, tanto quanto as mulheres.

No caso do câncer de próstata, por exemplo, engana-se quem pensa que é uma doença do idoso. Apesar de o risco de aumento da doença aumentar significativamente após os 50 anos, cerca de 40% dos casos são diagnosticados em homens abaixo desta idade. Entretanto, a doença é rara antes dos 40 anos.

Próstata aumentada nem sempre é sinal de que tenho câncer de próstata. O antígeno prostático pode apresentar alterações em várias situações que não o câncer, como a hiperplasia benigna da próstata, prostatite (uma inflamação) e trauma. Por isso, a avaliação médica e o toque retal são tão importantes para que se consiga fechar o diagnóstico de forma correta.

E de onde vem essa cultura de “super herói” dos homens? É muito comum nos depararmos com homens inseguros, frustrados e com dificuldades em lidar com suas próprias fraquezas, porque um dia acreditaram nos estereótipos e regras inventadas por uma sociedade opressora que criou paradigmas para a masculinidade.

Paradigmas que são instrumentalizadas por meio de frases como: “Homem não chora”; “Homem que é homem não faz isso”; “Chama um homem que ele coloca ordem aqui”, “Comece a agir como homem”….

Cobra-se um comportamento do menino que cresceu entendendo que demonstrar os seus sentimentos é sinal de fraqueza. De forma natural, ele coloca-se no lugar que acreditou sempre ser dele: o lugar da razão.

Enquanto a menina desempenha o papel frágil da emoção. A ela é permitido chorar, demonstrar sensibilidade, pois foi pré-estabelecido que o gênero feminino, diferente do gênero oposto, não precisa suprimir os sentimentos.

Com segurança, a menina aprende, desde cedo, que são inerentes a ela características emocionais como: ser mais gentil, dedicada, emotiva e compreensiva. Enquanto, a masculinidade se dá por meio de comportamentos mais competitivos, agressivos, racionais e independentes.

Homem não chora: quem disse?

Existe, na verdade, um senso comum que pactua e propaga essas distinções entre os gêneros. Demonstrando que a masculinidade só se fortalece quando aprende, de forma genuína, a agir conforme o estabelecido socialmente. Temos, portanto aqui, os rótulos de uma sociedade que não permite que sejamos diferentes. Não permite que possamos desempenhar nossa individualização de sentimentos em toda sua essência.

E quem disse que homem não pode chorar? Quem disse que ele não sofre? Não pode sofrer? Quem disse que não pode ter sensibilidade?  Essas fartas restrições à liberdade de expressão de sentimentos e emoções, certamente, tem um preço alto a se pagar. Elas causam sofrimento, geram estresse e podem levar até a diagnósticos como ansiedade, fobias sociais e dificuldades em se relacionarem afetivamente. A cobrança por uma masculinidade expressiva, onde fraquejar não é permitido e tem que ser bom em tudo, faz com que transtornos psíquicos severos sejam desenvolvidos, por conta de uma rigidez absurda.

Controlar as emoções e desenvolver habilidades estratégicas na quebra destes paradigmas, sem dúvida, é a chave do sucesso para que o homem consiga se libertar da pressão para ocultar o que sente.

Infelizmente, temos ainda muitos relatos de homens que se sentem fracassados ao tentar expressar suas emoções. A sociedade machista e cruel não perdoa. Rotula e não trata com sensibilidade. Não conseguem conceber que todos ainda sofremos com repressões ultrapassadas.

Sentimentos que florescem quando nos colocamos no lugar do outro, como respeito, empatia e amor, nos fazem perceber que o sentir é universal. Chorar, rir e gritar, fazem parte de uma predisposição biológica natural. Nossas personalidades e atitudes não podem ser condicionadas pelo social, determinadas por estereótipos de gênero. Devem corresponder aos nossos mais genuínos sentimentos e vontades.

A masculinidade nada tem a ver com a sensibilidade. Um homem não deixa de ser o que é por ser mais ou menos sensível, por se preocupar com sua saúde e estar sempre se cuidando. Chamamos essas classificações equivocadas, de masculinidade tóxica, na qual a virilidade, a agressividade, a força e o poder ditam as regras. É também um preconceito velado contra os homens.

Uma imposição social absurda que oprime o ser humano. Sim, antes de sermos homens e mulheres, somos humanos. Sentimos dor, alegria, felicidade, tristeza, raiva, inveja e saudade. E que bom que sentimos!

Porém, sentir e não poder expressar é como um vulcão, a ponto de explodir e entrar em erupção, prestes a espalhar a lava emocional acumulada por anos dentro do peito.

Portanto, a grande questão aqui é não deixar de se cuidar e de ter encontros regulares com seu médico, seu psicanalista ou psicólogo. Mantendo assim, o amparo necessário tanto para a saúde física quanto mental. Afinal, no caso do câncer de próstata por exemplo, evidenciado na campanha do Novembro Azul, o mais importante é a detecção precoce, inclusive, para ajudar a diminuir o tabu e o preconceito que ainda hoje rondam o tema.

Sabemos que a maioria dos homens se mostra muito resistente quando o assunto é cuidar da saúde de forma geral. Por isso, acumular emoção e sentimentos, não verbalizar, não demonstrar, tiram o brilho e a energia do indivíduo.

Podem gerar sofrimentos psíquicos e fazer com que sentimentos bons sejam sucumbidos por amargura e mágoas retidas. E quando não expressadas, dificilmente serão compreendidas também, alimentando as frustrações. Não se permita ocultar emoções.

Demonstre suas fragilidades e não tenha medo. Mostre que “corre sangue nas veias”. O benefício virá através do equilíbrio emocional e da sanidade mental. Desta forma, a tendência é ter relações mais saudáveis, com mais leveza e cor, além de uma saúde física equilibrada e preservada.

Dra. Andréa Ladislau

Psicanalista

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