Niterói por niterói

Luiz Cláudio Latgé

Jornalista, documentarista, cronista, atuou na TV Globo por 30 anos, como repórter, editor, diretor. Consultor em estratégia de comunicação, mora em Niterói e costuma ser visto no Mercado de São Pedro.
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Niterói vista do poste

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O emaranhado de fios que ameaça cair sobre a cabeça dos moradores representa riscos para a cidade

A paisagem mais recorrente de Niterói não é o mar, não é a montanha, nenhuma das vistas que gostamos de lembrar quando falamos da cidade. É o emaranhado de fios que habita os postes e está cada vez mais perto de nos engolir, tantos são os cabos e cada vez mais precários, que quase nos caem à cabeça. Um retrato da desordem que habita estas terras.

A cidade tem lá suas características e elas mudam de bairro a bairro. A vista da Baía em São Francisco e Icaraí; a vegetação em Pendotiba, as montanhas; o mar na Região Oceânica; os casarões que sobrevivem no Ingá e no Fonseca… cada lugar com sua marca. Até o maltratado Centro tem lá sua personalidade. Mas a confusão dos fios, não, esta não tem geografia, espalha o caos indistintamente, atravessa todos os territórios e já deixa para trás outras mazelas que nos incomodam, como a de ser a cidade dos engarrafamentos.

A imagem que ilustra a coluna foi feita em Charitas. Mas poderia ter sido registrada em qualquer outro bairro. Ela exibe um pouco de tudo que podemos encontrar pendurado nos postes. Os fios da rede elétrica, os cabos das empresas de telefonia, TV e Internet, fios dos sinais de trânsito e câmeras de segurança… e gatos, muitos gatos. Alguns postes têm mais de 10 níveis diferentes de cabeamento. Aqueles “braços” e argolas pelos quais se estendem os fios. E carregam artefatos de difícil identificação, dos transformadores aos conectores. Até relógios medidores de consumo pendem sobre a a cabeça dos passantes. Às vezes, é tanta coisa que o poste parece não suportar e tomba.

Niterói vista do poste da esquina revela uma cidade sem regras, como se os postes brotassem da terra, como mato, sem dono. Mas não é assim. Os postes têm dono, eles são da empresa de energia, hoje a concessionária Enel. Que, inclusive, cobra de outros permissionários de serviços pelo uso dos postes. E a tarefa de fiscalizar o que acontece por ali é do Poder Público. No caso, a Prefeitura – ainda que existam, em algumas situações, competências do estado e até do governo federal. Entregar o problema ao dono pode ser um começo para resolver a situação, antes que a cidade fique sem luz, sujeita, como vem acontecendo, a cortes de energia e a incêndios diante da precariedade das ligações regulares e clandestinas.

Deve existir perdido em alguma repartição pública algum código de posturas, entre tantos tratados que regulam a nossa vida e nos dizem o que podemos e o que não podemos fazer, que estabeleça o papel social dos postes. “O poste, este patrimônio municipal,  para que serve e como deve ser usado.”

Que tal começar fazendo um censo dos postes? Não seria surpresa descobrir que muitos dos fios que estão pendurados ali não tem mais função. Como a gente encontra cafifas e  tênis presos na rede elétrica. Talvez a gente descubra cabos da Telerj ou do Orkut, quantos são os mistérios desta cidade!

Um funcionário zeloso poderia sair às ruas com o documento na mão e verificar quem usa os postes: companhia de energia, x; telecons,  x; prefeitura, x; milícias…  É possível pensar que os maiores clientes são as empresas de telefonia, TV por assinatura e Internet. É fácil reconhecer pela maneira como trabalham, deixando fios desencapados, pontas soltas e cabos enrolados. Exatamente como experimentamos em casa com a visita das terceirizadas que instalam os serviços. Pois o nosso funcionário zeloso poderia anotar de forma diligente os responsáveis pela balbúrdia. E cobrar providências. Como a Prefeitura nos cobra, de forma regular e eficiente, com o amparo da lei, o IPTU, o ISS, as multas…

Ou então mudamos o cartão postal da cidade, como abandonamos a Itapuca pelo MAC. E aquele letreiro de coraçãozinho da praia passa a apontar para o poste da esquina.

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