Niterói por niterói

Andanças

Por Giovanni Faria

Giovanni Faria é jornalista com mais de 30 anos de atuação em jornais e rádios do país, professor universitário e um andarilho pelo mundo. Já percorreu mais de 5.500 KMs em 11 viagens pelo Caminho de Santiago de Compostela. Nasceu em Nova Friburgo, mas é frequentador assíduo das ruas de Niterói, onde mora e caminha diariamente por todos os cantos da cidade.
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Niterói é a minha barca de todos os dias

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A velha barca das 7h cruzava a baía em direção ao Rio. Dia de semana, hora da batalha. Metade dos passageiros, sem se preocupar com o desconforto, esticava em alguns minutos o sono interrompido ainda de madrugada. Muitos outros liam jornal e praticavam a arte invejável de dobrá-lo no curto espaço entre as cadeiras duras e pouco anatômicas. Havia quem apreciasse a paisagem da boca-da-baía, de um lado, ou a Ponte Rio-Niterói, em seus primeiros anos de vida, e a Serra dos Órgãos, de outro. Uns fumavam (sim, era permitido), outros bebiam café, terceiros ouviam rádio num tempo em que fone de ouvido se chamava egoísta. Mas só um passageiro não fazia nada disso. De short, camiseta e tênis, aproveitava a meia hora de viagem para caminhar, trotar e até correr dentro da barca, dependendo da lotação. Saía da proa, cruzava o salão inferior, subia as escadas de um lado, percorria o andar de cima, descia as escadas, dava a volta na popa. Era popular, conhecido, até admirado pelo esforço. Claro, havia quem o criticava: “É um exibicionista, quer aparecer”. Descia na Praça Quinze suado, com a roupa de ofício na mochila, a caminho do escritório, onde tomaria banho como parte da metamorfose. Inácio, esse era o nome dele. Na volta a Niterói, no fim da tarde, apenas cochilava na cadeira. Já tinha cumprido seu dever. Nunca mais o vi, assim como viraram pó os anos 70.

“Bora, Inácio!” é a minha senha, 40 e “blau” anos depois. E Niterói é a minha barca de todos os dias. Subir o Parque da Cidade, descer a Estrada Fróes, percorrer a orla do Mercado São Pedro à Fortaleza de Santa Cruz, dar uma caminhadinha de Icaraí ao Country Clube de Pendotiba, trilhar entre Itaipu e Itacoatiara, contar os passos da Boa Viagem a São Francisco, enfim, seja lá qual for o roteiro do dia, uma coisa é certa: o aparente contrassenso de caminhar para ganhar fôlego no peito e perdê-lo na alma diante de tantas paisagens.

Andar, andei. Assim foi naquela tarde de domingo em agosto de 1979. Da Rodoviária Roberto Silveira a Icaraí. Um espanto: havia crianças jogando bola, correndo e pulando corda na Avenida Amaral Peixoto. Clima de cidade do interior, de onde eu chegara com uma mochila nas costas e um orgulho típico de um calouro de jornalismo na UFF. Assim se passaram milhares de quilômetros.
Sim, só no Caminho de Santiago de Compostela foram 5.500, em 11 etapas distintas, cruzando França, Espanha e Portugal. Mas isso não é nada. O Strava de minha vida contabiliza muito mais nas ruas e calçadas niteroienses. Em dezenas de sábados, de Icaraí ao Mercado São Pedro. Não retornava caminhando, assim como Inácio, claro: sardinha e cerveja ali empacam qualquer atleta. Numa dessas andanças, vi um italiano ser assaltado em frente à Estação das Barcas e jurar ódio eterno ao Brasil num dialeto calabrês. Fim da história? Sardinha e cerveja no mercado. Brindamos muito. Ele mudou de ideia.
A Praia de Icaraí é a espinha dorsal: toda caminhada passa por ali. O calçadão precisa ser nivelado. Parece uma off-road. Eu mesmo caí uma vez. Em outra, fui derrubado por uma senhora que desceu do ônibus 49. Sem freio – ela, não o ônibus – tropeçou num buraco e me atingiu em cheio. Se fosse no Estádio Caio Martins de priscas eras, onde também era possível caminhar ao redor do campo, ela levaria cartão amarelo. E a Prefeitura, vermelho.

Hoje não caí. Mas tampei bem o nariz, por segundos, e cruzei vivo o canal da Ary Parreiras. Ao lado, uma área de aquecimento e relaxamento, com aparelhos de ginástica. Mas, o cheiro… Um amigo chama de “Espaço Fedidão”. Exagero. Exagero? Ufa, cheguei bem à Estrada Froes. Mas vou voltar até a Boa Viagem: “está dando muita tartaruga”, disse-me uma vez a dona de um quiosque, aqueles cujas mesas e cadeiras estão sempre no meio do caminho e que, depois das noitadas, rola sempre um som alto, às vezes altíssimo, que obriga o caminhante a acelerar o passo.

Esse negócio de andar para lá, andar para cá, dá sede. E vontade de ir ao banheiro. Mas onde encontrá-lo? Difícil… É aí que surge a grande árvore próxima ao Forte da Boa Viagem. Dizem que é da família das “Mijácias”, do ramo das “Urinácias”. Há sempre uma bexiga cheia entre seus troncos. Breve, vai tombar. Mas agora decido ir à Fortaleza de Santa Cruz. Esplêndido, especialmente no trecho final, em área do Exército. Jurujuba tem seus encantos, e não são poucos, mas certamente um que não merece nota máxima é o quesito calçada. Mas na Fortaleza… que visual é aquele em 360 graus? Foto, muita foto.

Peraí, e a Fróes? Ah, se não fossem os carros roçando a panturrilha! Um domingo por mês, ao menos, deveria ser fechada aos carros: queria ver meus netos descê-la em velocípedes. Nem tenho netos, nem velocípedes, nem a pretensão de que isso ocorra um dia. Mas chega de molezinha. Hora de subir o Parque da Cidade. Dureza da boa. Compensa, mesmo que seus joelhos doam sem parar nas próximas 24 horas. No dia seguinte, a dica: caminhar no Campo de São Bento: cada volta dá entorno de 1km de distância, com descanso no gramado, tranquilo, relaxado. Afinal, a jibóia que morava no parquinho de diversão era mesmo lenda.

Verdade mesmo é que o Chalé, bar tradicional na esquina de Miguel de Frias com Praia de Icaraí, é ponto de encontro de caminhantes, especialmente aos sábados e domingos. O chope é sagrado, mas, até prova em contrário, depois de o corpo ter suado de verdade. Era meio-dia e a mesa ao lado seguia uma sequência de tintins. Tudo levava a crer o óbvio: que os mancebos brindavam o cumprimento da tarefa. Ledo engano. Para gargalhada geral, a 80 decibéis, o de barbicha perguntou aos demais se depois daquele chope eles iriam, afinal, caminhar. Estilo concentra mas não sai. José Antonio Soares, economista, 50 anos de Niterói, é cartesiano: quando anda de Icaraí até Boa Viagem, nem olha para o lado direito para não ser atraído pelo Chalé. Na volta, não resiste a uma empada com camarão e chope. Está acima do peso.

Ah, ia esquecendo: tem o camarada que caminha socando o ar, a mulher que dá bom dia a todos que passam, o senhor que leva o gato no ombro, a senhorinha de todos os dias que anda sempre em companhia do… guarda-chuva! São figuras carimbadas. Como o pai que conversa com a filha por vídeo no celular (“Como está o tempo aí em Madri hoje?”, captei há dias). Já o rapaz que andava de costas, de ré, ao contrário… bem, sei lá, esse sumiu. O camarada do coco gelado está ali na praia há meio século joga sua isca (“bebe agora e paga na volta”). O outro, do caldo de cana, cumprimenta como amigo cada vez que passo suando pelo Campo de São Bento (“pode beber à vontade que emagrece”). Tá bom, sei. Atrás de cada máscara, posso garantir, até ver, há um sorriso no rosto de quem sente a cidade pulsar sob seus pés.
Antes que eu esqueça: “Bora, Inácio!”

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