Niterói por niterói

Trajano de Moraes

O jornalista niteroiense Trajano de Moraes sempre esteve ligado à cobertura dos assuntos internacionais em longas passagens por Jornal do Brasil e O Globo. É formado pela Escola de Comunicação da UFRJ e mora em NIterói.
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Não há luz no fim do túnel para o Haiti

haiti
Fila em posto de gasolina no Haiti. Falta tudo e sobram confrontos e fome

“Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”, diz o refrão da canção Haiti,
composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1993, ao descrever mazelas de lá e daqui. Lá,
como cá, haja mazelas. Mas, nessa comparação perversa, o Haiti ganha disparado. A miséria e
a violência não dão trégua à maioria esmagadora de seus 11,5 milhões de habitantes e podem
se travestir de mil formas nesse país do Caribe, que divide a ilha de Hispaniola (local onde
aportou Cristóvão Colombo em 1492) com a República Dominicana.

Um título expressivo ninguém pode tirar. Colônia da França, foi a primeira nação das Américas
e, talvez, do mundo a abolir o cativeiro, depois de uma revolta de escravos em 1794. O ex-
escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral em 1801, mas logo foi deposto e
morto pelos franceses. Em 1803, declarou-se independente. Começava aí um calvário que
mantém o Haiti como a nação mais pobre das Américas: em retaliação, os escravagistas
franceses e americanos impuseram um bloqueio comercial que duraria 60 anos.

Corta para hoje em dia. Numa crise política sem fim, com o Estado ausente, gangues lutam por
supremacia na capital, Porto Príncipe, de 3,5 a 4 milhões de habitantes. Na maior favela da
cidade, ironicamente chamada Cité Soleil, milhares de pessoas estão isoladas pelos combates,
sem água potável, comida ou assistência médica, informou a organização Médicos sem
Fronteiras. Num setor, também ironicamente conhecido como Brooklin, confrontos nas
últimas semanas deixaram pelo menos 89 mortos, 16 desaparecidos e 74 feridos a bala ou
faca, segundo a Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos.

Segundo o jornal O Globo, as lutas começaram no dia 7 de julho, quando completou um ano o
assassinato do presidente Jovenel Moïse, na própria residência oficial, até agora não
esclarecido. No mês passado, uma gangue assumiu o controle de um tribunal de Justiça,
destruindo processos e provas de crimes. Inflação desenfreada, desabastecimento de água,
comida, remédios e combustível completam o quadro terrível.

Corta para 12 de janeiro de 2010. Um terremoto de 7,3 na escala Richter, com epicentro a 22
km de Porto Príncipe, arrasou a pobre nação. Os tremores se seguiram nos dias seguintes.
Estima-se que 80% das construções da capital foram destruídas ou muito danificadas. O
número de mortos é calculado entre 220 mil e 300 mil pessoas, com mais 300 mil feridos e 1,5
milhão de desabrigados. Foi, para pior, um divisor de águas na triste história da nação
caribenha, que até hoje não se recuperou.

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