Niterói por niterói

Trajano de Moraes

O jornalista niteroiense Trajano de Moraes sempre esteve ligado à cobertura dos assuntos internacionais em longas passagens por Jornal do Brasil e O Globo. É formado pela Escola de Comunicação da UFRJ e mora em NIterói.
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Mickey Mouse sob suspeita?

Disney-Film

O que está acontecendo entre a Disney e o governador republicano da Flórida, Ron DeSanctis, diz muito sobre os rumos do Brasil sob o atual e um eventual segundo governo Bolsonaro. O economista Prêmio Nobel Paul Krugman escreveu, em sua coluna no New York Times, que é como se, de repente, “Mickey Mouse se tornasse parte de uma vasta conspiração”. A vice-governadora, Jeanette Nuñez, acusou a Disney de doutrinar e sexualizar crianças com sua “agenda não secreta”.

Transcrevo, para melhor entendimento entre o paralelo da Flórida com o Brasil de Bolsonaro, parágrafos da coluna de Krugman.

“(A ofensiva de DeSanctis) reflete um salto repentino na direção da intolerância em um país que parecia estar se tornando cada vez mais tolerante; e as denúncias contra a Disney são, para resumir, insanas. Mas o que está acontecendo na Flórida faz sentido quando você percebe que o que o governador e seus aliados querem nada tem a ver com políticas ou mesmo com política no sentido convencional. O que vemos na verdade são sintomas da transformação do Partido Republicano (…) em um movimento radical construído em torno de teorias da conspiração e intimidação”.

Percebeu semelhanças com o que acontece no Brasil? Pois é. Faz sentido também quando se sabe que DeSanctis foi apadrinhado por Donald Trump para vencer a eleição para governador em 2018 e que, segundo reportagem de Caio Saad na revista Veja, “não só aprendeu como aprimorou as táticas trumpistas”. E um herdeiro político do ex-presidente com aspirações maiores para o futuro.

Segundo escreveu Saad na Veja, “o maior talento do governador é mobilizar cidadãos comuns em torno de temas de fácil assimilação”. O ataque à Disney começou com a aprovação na Flórida de uma lei que proíbe qualquer menção a questões de sexo e gênero nas escolas até o fim da terceira série.  A lei foi batizada por opositores de “Não diga gay”.

Ninguém está afirmando que a Disney é santa. Sempre foi uma empresa conservadora que goza de regalias especiais, mas vem arejando sua cultura organizacional no sentido na inclusão e da tolerância. Não é preciso destacar que é a maior empregadora da Flórida (80 mil pessoas) e a grande responsável por tornar o estado o polo turístico que é hoje. Nem se está dizendo que o governo estadual deva se abster de corrigir possíveis exageros nos incentivos de que a Disney goza. Para muitos, há necessidade mesmo de ajustes e acertos.

Mas não se trata disso. Segundo Krugman, “aproximadamente a metade dos republicanos acredita que altas esferas do Partido Democrata estão envolvidas com círculos de elite de tráfico de crianças. E 66% dos republicanos aceitam a ‘teoria da substituição dos brancos’, segundo a qual o Partido Democrata está tentando substituir o atual eleitorado americano por eleitores dos países mais pobres do mundo”.

Lá, como cá, o grande desafio à liberdade e aos valores democráticos é que muita gente acaba acreditando que a Terra é plana.

 

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