Niterói por niterói

Gilberto de Abreu

Jornalista, curador de artes e produtor cultural, Giba é carioca mas foi criado em Niterói. Com quase 30 anos de experiência em jornalismo cultural, e há quatro à frente da Babel.08_Artes, vem movimentando a cena cultural da cidade com eventos como a coletiva “A Caminho da Babel”, um panorama da Artes Visuais em Niterói, que reuniu 40 artistas e mais de 200 obras na exposição inaugural da Cúpula do Caminho Niemeyer.
Publicado

Leo Rivera: um astronauta em Niterói

leo rivera

Jornalista, escritor e pesquisador, Leonardo Rivera não veio ao mundo para brincadeira. Após ter dedicado boa parte da adolescência à carreira jornalística, ele hoje acumula 25 anos de experiência na indústria fonográfica, no showbiz e no jornalismo musical. Ainda garoto, colaborou com reportagens, entrevistas e coberturas para revistas como Bizz, Backstage, Billboard Brasil e International Magazine, dentre outras. 

Nos conhecemos no final dos anos 80, quando ele era editor do suplemento cultural da Tribuna de Niterói, e eu um aspirante a jornalista. Naquela ocasião ele topou publicar o meu primeiro texto (sobre a importância dos fanzines na contracultura) e eu posso dizer que, sim, ele foi meu padrinho profissional.

Corta para 2021. Há duas décadas (e um ano) à frente do selo fonográfico Astronauta Discos, especializado em garimpar, produzir e lançar novos talentos, Leonardo – aqui fotografado por Lucas Benevides com a minha coleção de vinis na Babel 08 – tornou-se especialista em fazer de um limão uma saborosa caipirinha. “Nunca foi fácil”, resume.

Fã confesso de Rita Lee, o inesgotável Leo Rivera – como é carinhosamente conhecido – dorme e acorda ouvindo música de todos os gêneros e sonoridades. E, por razões óbvias, a musicalidade niteroiense é algo que nunca sai de seu radar.

Gilberto de Abreu – Como falar sobre a musicalidade na nossa cidade sem esbarrar nos mesmos nomes de sempre?

Leonardo RiveraAcho que por ser terra de gente como Arthur Maia, Claudio Infante, Fernando Caneca, Chico Batera, Saara Saara… é tanta gente boa que fica difícil. Mas tem como falar sobre isso sim. Acho aqui tão frutífero que você precisa escolher dentre tanta gente boa que toca um violão e canta (nova mpb/folk), ou que quer fazer funk pop, ou mesmo rock’n’roll, um gênero que está renascendo pela milésima vez. 

E de quem realmente somos indissociáveis musicalmente?

Niterói, ao meu ver, não tem como se desassociar de Sergio Mendes e das bandas Os Lobos e Quarteto Nova Era.

Num raciocínio oposto, que nomes da música de nossa cidade não tiveram o devido reconhecimento, ou ainda esperam por isso?

Olha, em geral temos bons nomes da música reconhecidos pela vida afora. Black Alien, Speed Freaks, Zélia Duncan, De Leve, Sergio Mendes, Dalto, Marcos Sabino, Biafra. É uma infinidade de nomes. MC Leozinho cantou no especial do Roberto Carlos, foi um feito grande para a indústria. Me ocorre agora uma galera tipo o Nissin, essa turma do rap pós Speed, uma geração seguinte, ali da Cantareira. Tem muitos outros nomes que não estão na minha bolha e por isso não devo lembrar. 

Você comemorou os 448 anos de Niterói lançando, recentemente, uma compilação com artistas de Niterói. Toda lista tem músicas que ficaram de fora. Quais você deixou escapar (e não se arrepende)?

Não coloquei nenhuma da Zélia Duncan, por exemplo. nada pessoal, apenas não tinha aqui no meu material de pesquisa a faixa que eu queria usar, um samba que ela regravou e que fala “Eu não sou daqui/Eu sou de Niterói/Na terra de Araribóia é que eu tenho quem me quer”, ou algo assim. Foi uma pesquisa mais simples, porque uma hora é pouco para realmente se aprofundar!

Como você observa a cena musical de Niterói hoje? Como ela reverbera?

Por eu morar aqui e conhecer músicos, estúdios, produtores, casas, gestores públicos e etc, fico observando uma frase que o Juca Chaves me falou, numa entrevista que fiz com ele pro Jornal Lig, quando eu tinha 16 anos, lá no Teatro Abel, tipo em 1990. Ele me disse que sempre estreava seus espetáculos em Niterói para fazer um teste de público, já que era uma minicidade grande, uma cidade de brinquedo. Nunca me esqueci disso! Eu assimilei, e sendo daqui, acho que é bacana observar quem daqui sai para o mundo. A banda Melim, por exemplo, é um dos maiores sucessos do país hoje e são todos de Niterói. Aqui tem muito mais ouro por baixo do garimpo.

Você me apresentou o Sudano, que está lançando seu primeiro single pela Astronauta Discos, selo fonográfico que você pilota tão bem… O que você viu/ouviu nele??

Eu o conheci aos 14 anos de idade, cantando na banda Buuup! E acompanhei sua trajetória de vida. Além de tudo, sempre o achei artista. Entre algumas pessoas que passaram em sua vida, o meu amigo não encontrava apoio, mas comigo encontrou e eu o apoio na profissionalização e no gerenciamento de sua carreira. Vi nele alguém que se superou, finalmente acreditou que é artista e segue buscando seu lugar ao sol. É de gente assim que o selo Astronauta gosta.

Quais planos você deixou de realizar nos dois anos de pandemia e como está se preparando para 2022?

Deixamos de realizar muita coisa. Estávamos com festas pra fazer na Gávea, outras gravações e ideias, mas tivemos que dar dois passos pra trás. Esperamos que seja cinco pra frente em 2022. Estamos revendo contratos, modelos, elenco, tudo. Mas com certeza olhando para o futuro sempre e apontando tendências. É nossa missão.

 

Lido isto, aperte o play e viaje ao som da playlist comemorativa aos 448 anos de Niterói

COMPARTILHE